Pesquisadores da Mayo Clinic acompanharam mais de 2.500 pessoas cognitivamente saudáveis e descobriram que indivíduos com insônia crônica — dificuldade para dormir pelo menos três vezes por semana, durante três meses ou mais — apresentaram declínio mental mais rápido e alterações no cérebro associadas a doenças neurodegenerativas. O estudo, publicado na revista Neurology, reforça a importância de tratar distúrbios de sono para proteger a mente ao longo da vida.
Insônia e o risco de demência
Durante o acompanhamento médio de 5,6 anos, os cientistas constataram que 14% dos participantes com insônia crônica desenvolveram comprometimento cognitivo leve ou demência, contra apenas 10% daqueles sem histórico de insônia.
Mesmo após considerar fatores como hipertensão, uso de medicamentos para dormir, idade e apneia do sono, os resultados se mantiveram: pessoas com insônia apresentaram 40% mais risco de desenvolver sintomas cognitivos. Em termos de envelhecimento, isso equivale a 3,5 anos a mais.
Alterações cerebrais detectadas
Os exames também revelaram diferenças físicas no cérebro. Participantes insone relataram pior qualidade de sono nas duas semanas anteriores às avaliações e tiveram desempenhos equivalentes a pessoas quatro anos mais velhas em testes cognitivos.
Além disso, apresentaram mais hiperintensidades da substância branca — lesões causadas por doenças de pequenos vasos sanguíneos — e maior acúmulo de placas de beta-amiloide, proteína ligada ao Alzheimer. A presença desses depósitos foi comparável à observada em indivíduos com predisposição genética para a doença.
O cérebro precisa de resiliência
“Os resultados sugerem que a insônia pode afetar o cérebro de diferentes maneiras, envolvendo não apenas as placas amiloides, mas também os pequenos vasos que irrigam o tecido cerebral”, explicou o neurologista Diego Carvalho, coautor do estudo.
Segundo ele, tratar a insônia é fundamental não apenas para melhorar a qualidade do sono, mas também para preservar a resiliência cerebral ao longo do envelhecimento. “O sono não é apenas descanso, é um mecanismo de proteção para o cérebro”, completou.
A importância de dormir bem
O estudo também observou que participantes que dormiram mais do que o habitual nas duas semanas anteriores tiveram menos lesões na substância branca no início da pesquisa. Isso sugere que períodos de sono melhorado podem contribuir para reduzir os danos cerebrais, ainda que de forma limitada.
Especialistas alertam que o trabalho tem limitações, já que os diagnósticos de insônia foram obtidos de registros médicos, sem detalhar a gravidade dos sintomas ou incluir casos não diagnosticados. Ainda assim, a associação entre sono precário e declínio cognitivo é considerada robusta.
O que podemos aprender
Embora os cientistas ainda não possam afirmar se a insônia causa envelhecimento do cérebro ou apenas está associada a ele, a mensagem é clara: dormir bem é essencial para a saúde mental.
Para quem sofre com insônia crônica, buscar tratamento médico especializado pode ser decisivo não apenas para o bem-estar diário, mas para reduzir riscos de problemas cognitivos no futuro.