Pular para o conteúdo
Mundo

Islândia rejeita retomar negociações para entrar na União Europeia

Por uma margem apertada, 52,8% dos eleitores islandeses votaram contra a retomada das negociações de adesão à União Europeia. O resultado representa um revés para a estratégia de expansão do bloco.
Por

Tempo de leitura: 5 minutos

A Islândia decidiu manter fechada, pelo menos por enquanto, a porta para uma possível entrada na União Europeia. Em um referendo realizado no país, 52,8% dos eleitores rejeitaram a retomada das negociações de adesão, enquanto 47,2% votaram a favor.

A consulta não perguntava diretamente se a Islândia deveria entrar na UE. A questão era se o país deveria reiniciar o processo de negociação interrompido em 2013.

Mesmo assim, o resultado possui um peso político considerável. Além de afastar uma eventual adesão islandesa no curto prazo, a decisão chega em um momento no qual Bruxelas tenta fortalecer sua presença estratégica no Ártico e acelerar a expansão do bloco em outras regiões da Europa.

Islândia já possui uma forte relação com a União Europeia

União Europeia Avalia Proibir Redes Sociais Para Menores De 13 Anos
© YouTube

Apesar de não fazer parte da UE, a Islândia está profundamente integrada ao continente.

O país participa do Espaço Econômico Europeu, que permite acesso ao mercado único europeu, e também integra o Espaço Schengen, responsável pela livre circulação entre seus membros.

Uma eventual adesão completa, portanto, poderia ser tecnicamente menos complicada do que a de outros países candidatos.

A Islândia também é uma democracia consolidada e já adota diversas normas compatíveis com as regras europeias. Para Bruxelas, sua entrada poderia representar uma demonstração de que o projeto de integração continua atraente inclusive para países ricos e politicamente estáveis.

Os eleitores, porém, decidiram não avançar.

Pesca pesou mais do que as tensões no Ártico

Uma das principais questões durante a campanha foi a pesca, setor fundamental para a economia islandesa.

Uma eventual entrada na UE exigiria negociações sobre a participação do país na Política Comum das Pescas do bloco.

Para muitos islandeses, entregar parte do controle sobre os recursos pesqueiros a um sistema administrado em conjunto com Bruxelas representa um risco grande demais.

A agricultura, a soberania nacional e a autonomia econômica também estiveram entre os principais argumentos utilizados pelos defensores do “Não”.

Essas preocupações parecem ter pesado mais do que o novo cenário geopolítico do Ártico.

Trump aumentou a importância estratégica da região

Trump promete transformar o estreito de Ormuz em território dos EUA e eleva tensão com o Irã em meio a guerra, ataques a petroleiros e nova ofensiva econômica de Washington
© YouTube

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar o Ártico no centro da política internacional ao reiterar seu interesse pela Groenlândia.

As declarações aumentaram a atenção sobre uma região cada vez mais importante para segurança, comércio, recursos naturais e disputas entre grandes potências.

Nesse cenário, a localização da Islândia no Atlântico Norte ganhou ainda mais importância estratégica.

Defensores da retomada das negociações argumentaram que uma integração completa com a União Europeia poderia aumentar a segurança e a influência internacional do país.

A maioria dos eleitores, entretanto, não considerou esse argumento suficiente para superar as preocupações relacionadas à soberania.

Governo não abraçou completamente a campanha pela adesão

Outro fator pode ter contribuído para o resultado: a falta de apoio mais contundente da coalizão governista à retomada das negociações.

A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir apresentou o referendo principalmente como uma oportunidade para que a população decidisse conjuntamente o futuro do país.

Ela adotou uma posição cautelosa e argumentou que seria impossível determinar se as vantagens de uma eventual adesão superariam as desvantagens antes de conhecer os termos de uma negociação.

Os defensores do “Sim”, porém, não conseguiram convencer a maioria da população de que uma integração política completa ofereceria benefícios suficientes para compensar uma possível redução da autonomia nacional.

Resultado representa um revés para Bruxelas

Para a União Europeia, o simbolismo da votação talvez seja mais importante do que suas consequências imediatas.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, Bruxelas voltou a tratar a expansão do bloco como uma questão estratégica.

A UE acelerou os processos envolvendo Ucrânia e Moldávia e tenta manter os países dos Bálcãs Ocidentais próximos por meio de investimentos, acordos e parcerias.

Nesse contexto, a entrada da Islândia teria criado uma narrativa diferente.

Em vez de representar apenas a integração de países do leste europeu em busca de maior estabilidade econômica e segurança, mostraria que uma nação rica e consolidada também considera vantajosa a adesão completa.

O resultado do referendo transmitiu a mensagem oposta: mesmo um país já profundamente integrado ao sistema europeu pode considerar os custos da adesão maiores do que seus benefícios.

Noruega já rejeitou a União Europeia duas vezes

Noruega1
© Dreamer Company – Shutterstock

O caso islandês possui um precedente bastante próximo.

A Noruega realizou dois referendos sobre a entrada na União Europeia, em 1972 e 1994. Nas duas ocasiões, os eleitores rejeitaram a adesão.

Assim como aconteceu agora na Islândia, preocupações relacionadas à soberania e ao controle dos recursos naturais tiveram grande importância.

A pesca foi especialmente relevante no debate norueguês.

Outro exemplo é a Suíça, que também rejeitou formas mais profundas de integração institucional com a Europa enquanto mantém extensas relações econômicas com o mercado europeu.

Referendos já provocaram grandes derrotas para a UE

Bruxelas possui um longo histórico de dificuldades quando grandes decisões sobre integração europeia são submetidas diretamente aos eleitores.

Em 2005, franceses e holandeses rejeitaram em referendos o projeto de Constituição Europeia.

Três anos depois, a Irlanda rejeitou inicialmente o Tratado de Lisboa. O documento acabou sendo aprovado pelos irlandeses em uma segunda votação realizada em 2009.

O novo resultado islandês não possui as mesmas consequências institucionais, mas volta a demonstrar a dificuldade de convencer populações nacionais a transferir mais competências para Bruxelas.

O “Não” não significa que a Islândia seja antieuropeia

Islandia
© Pexels

O resultado também não deve ser interpretado necessariamente como uma rejeição à Europa.

A Islândia continuará profundamente conectada à União Europeia por meio do Espaço Econômico Europeu, do Espaço Schengen e de suas relações comerciais e políticas.

O que os eleitores rejeitaram foi a retomada de um processo que poderia terminar na adesão completa ao bloco.

Por enquanto, a maioria parece preferir o modelo atual: manter grande parte dos benefícios da integração europeia sem entregar a Bruxelas mais controle sobre áreas consideradas estratégicas, especialmente a pesca.

Para a União Europeia, porém, fica uma mensagem desconfortável. Em um momento em que Bruxelas tenta mostrar que seu projeto político continua atraente e pretende incorporar novos membros, um dos países mais ricos, estáveis e integrados da Europa decidiu que nem sequer deseja voltar à mesa de negociações.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados