Pular para o conteúdo
io9

Jim Carrey quis ser o Grinch a qualquer custo — e pagou um preço físico quase insuportável para dar vida ao vilão do Natal

Ao completar 25 anos, o filme de Ron Howard ganha novos bastidores reveladores: do teste improvisado que convenceu a viúva de Dr. Seuss a oito horas diárias de maquiagem que quase fizeram Carrey abandonar o projeto.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Quando O Grinch em live-action chegou aos cinemas, em 2000, poucos imaginavam o nível de sacrifício envolvido para transformar Jim Carrey no rabugento mais famoso do Natal. Passados 25 anos, o aniversário do filme dirigido por Ron Howard trouxe à tona uma série de relatos de bastidores que mostram como a obsessão do ator em ser fiel ao espírito de Dr. Seuss quase o levou ao limite físico e emocional.

Em uma história oral publicada pela revista Vulture, Howard, Carrey e membros da equipe criativa da Universal Pictures detalharam os desafios — dignos do tamanho do Monte Crumpit — enfrentados para criar uma versão definitiva do personagem. O consenso é claro: nada daquilo teria acontecido sem a insistência quase teimosa de Jim Carrey.

O teste improvisado que mudou tudo

A escalação de Carrey não foi automática. Antes de assinar o contrato, ele precisou conquistar a aprovação de Audrey Geisel, viúva de Theodor Seuss Geisel, o criador do Grinch. O encontro foi decisivo. Segundo o próprio Carrey, ele não levou figurino nem maquiagem. Levou apenas o personagem.

Durante a conversa, o ator simplesmente “virou” o Grinch ali mesmo, reproduzindo a voz, a expressão e o famoso rosnado inspirado em Boris Karloff. “Eu fiz aquela cara de dentes cerrados e disse ‘I must find a way to stop Christmas from coming’”, relembrou. Foi o suficiente. Audrey aprovou na hora.

Um roteiro moldado ao redor da dor

Embora já existissem versões do roteiro, a interpretação de Carrey acabou influenciando mudanças significativas no texto. Durante a pré-produção, os roteiristas Alec Berg, Jeff Schaffer e David Mandel — conhecidos por Seinfeld ajustaram cenas pensando nas limitações impostas pela fantasia.

O problema era sério: o traje do Grinch era quente, pesado e acompanhado por lentes de contato verdes extremamente dolorosas. Carrey avisou que não conseguiria improvisar como de costume. A solução foi criar cenas icônicas, como a famosa lista de afazeres do Grinch — inexistente no livro original, mas hoje inseparável do filme.

A batalha pelo visual “certo”

A Universal, inicialmente, queria um Grinch mais “Jim Carrey pintado de verde”. A ideia foi rejeitada tanto pelo ator quanto pelo lendário maquiador Rick Baker. Para vencer a resistência do estúdio, Baker apelou para uma estratégia nada convencional: vazou informações para o site Ain’t It Cool News, extremamente influente na época.

A reação do público foi imediata e feroz. “Ninguém quer ver Jim Carrey verde. Queremos ver o Grinch”, diziam os comentários. A pressão funcionou. O estúdio recuou, e o visual definitivo foi aprovado — mesmo sendo desconfortável ao extremo.

Oito horas de maquiagem e uma quase desistência

A transformação diária levava cerca de oito horas. No primeiro dia completo, Carrey chegou ao limite. Entrou em seu trailer, chamou Ron Howard e o produtor Brian Grazer e anunciou que estava desistindo do filme. Simples assim.

A decisão, no entanto, não durou. Carrey permaneceu no projeto, mas nunca escondeu o sofrimento. “Foi algo que eu pedi. Não posso culpar ninguém além de mim mesmo”, confessou anos depois. Ele também rejeitou soluções digitais para os olhos, insistindo nas lentes de contato volumosas para manter o personagem o mais “Seussiano” possível.

Perfeccionismo até o último take

Mesmo exausto e irritado, Carrey manteve um padrão quase obsessivo de atuação. Segundo Rick Baker, se o ator achava que não tinha entregado exatamente o que queria, fazia mais um take — e depois outro. O resultado está na tela: um Grinch exagerado, físico, desconfortável e, justamente por isso, memorável.

“Ele foi fantástico no filme. Não acho que alguém teria sido melhor”, afirmou Baker, com uma ressalva bem-humorada: “Só queria que tivesse sido um pouco mais fácil lidar com ele”.

Um retorno possível — mas menos doloroso

Vinte e cinco anos depois, o Grinch de Jim Carrey segue como referência absoluta. Ron Howard revelou que a equipe já cogitou, brevemente, uma nova história com o personagem. A grande diferença? Nada de maquiagem física.

Com o material já existente, seria possível recriar o visual digitalmente, poupando Carrey do suplício das lentes e do traje. Ainda assim, ninguém parece totalmente convencido de que vale a pena voltar a esse território.

Talvez porque, no fim das contas, o sofrimento também faz parte da lenda. E o Grinch que odeia o Natal só se tornou eterno porque alguém esteve disposto a odiar — ao menos por alguns meses — cada minuto dentro daquela fantasia verde.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados