O destino quis que Viswashkumar Ramesh vivesse para contar o que ninguém mais pôde. O indiano de 39 anos sobreviveu à queda de um avião da Air India, que matou 241 pessoas, incluindo seu irmão mais novo. Desde então, ele se descreve como “o homem mais sortudo do mundo” — mas também como alguém destruído pela dor.
O acidente, ocorrido em junho, transformou Ramesh em um símbolo improvável de resistência e trauma. O Boeing 787 com destino a Londres caiu logo após decolar de Ahmedabad, no oeste da Índia, e foi tomado pelas chamas.
Vídeos que circularam nas redes mostravam o sobrevivente cambaleando entre os destroços em meio à fumaça. Quatro meses depois, ele tenta se reerguer, agora em casa, no Reino Unido.
🇮🇳🇬🇧 Footage shows Viswashkumar Ramesh, identified as the sole known survivor of Air India Flight 171, appearing dazed and disoriented as he walks away from the crash site in Ahmedabad, India https://t.co/SSbq5EX1kE pic.twitter.com/meDRMlUShr
— HOT SPOT (@HotSpotHotSpot) June 12, 2025
Um milagre com um preço alto
“Sou o único sobrevivente. Ainda não consigo acreditar. É um milagre”, disse Ramesh, emocionado, em entrevista à BBC News. Ele contou que conseguiu se soltar do cinto de segurança e rastejar para fora do avião antes que as chamas se espalhassem.
Mas, junto com a vida, ele perdeu quase tudo. “Meu irmão estava a poucas fileiras de mim. Ele era meu alicerce. Agora, estou sozinho. Não falo com minha esposa, nem com meu filho. Só quero ficar em casa, quieto”, revelou.
Desde o acidente, Ramesh foi diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e diz não ter recebido acompanhamento adequado. “Fisicamente e mentalmente, estou em pedaços”, lamentou.
Ferimentos, perdas e silêncio
O impacto deixou sequelas no corpo: dores nas pernas, costas e ombros o impedem de trabalhar. “Quando ando, é devagar. Minha esposa precisa me ajudar”, contou.
Os médicos indianos confirmaram o TEPT, mas, segundo seus assessores, nenhum tratamento continuou após o retorno ao Reino Unido. A família afirma que ele tem sido “esquecido” pela companhia aérea, que ofereceu uma indenização provisória de 21,5 mil libras (cerca de R$ 150 mil) — valor considerado insuficiente para cobrir suas necessidades básicas.
“Eles estão em crise — mental, física e financeiramente”, afirmou o líder comunitário Sanjiv Patel, que acompanha o caso. O negócio de pesca da família, na cidade de Diu, na Índia, também entrou em colapso após a morte do irmão de Ramesh.
A luta por reconhecimento e cuidado
O porta-voz da família, Radd Seiger, criticou a postura da Air India, afirmando que três pedidos de reunião com executivos da empresa foram ignorados. “É revoltante termos que expor ele [Ramesh] dessa forma. As pessoas que deveriam estar aqui são os responsáveis pela companhia. Queremos apenas sentar e tentar aliviar esse sofrimento”, declarou.
Em resposta, a Air India, controlada pelo Grupo Tata, disse em nota que líderes seniores continuam visitando famílias de vítimas e que “uma oferta foi feita aos representantes do senhor Ramesh para organizar uma reunião”. A empresa acrescentou que continua disposta a dialogar.
O homem que carrega 241 histórias
O acidente ainda está sob investigação. Um relatório preliminar apontou falha no fornecimento de combustível para os motores poucos segundos após a decolagem. A tragédia matou 169 indianos, 52 britânicos e 19 pessoas que estavam em solo.
Enquanto as autoridades buscam respostas, Ramesh tenta apenas seguir em frente. Ele não consegue falar sobre o dia do acidente e evita qualquer lembrança. “Minha mãe fica sentada todos os dias na porta, sem falar nada. Cada dia é doloroso para toda a família.”
O único sobrevivente do voo da Air India vive com a lembrança do que escapou — e do que perdeu. “Sou o homem mais sortudo do mundo”, repete. Mas sua história revela o outro lado da sobrevivência: o fardo de continuar vivendo quando todos os outros se foram.
[Fonte: BBC]