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Único sobrevivente de queda da Air India diz viver “entre a sorte e o sofrimento”

Viswashkumar Ramesh foi o único sobrevivente do acidente da Air India que matou 241 pessoas. Quatro meses depois da tragédia, ele ainda tenta se recuperar física e emocionalmente. “Sou o homem mais sortudo do mundo, mas também estou sofrendo”, disse, em entrevista à BBC.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O destino quis que Viswashkumar Ramesh vivesse para contar o que ninguém mais pôde. O indiano de 39 anos sobreviveu à queda de um avião da Air India, que matou 241 pessoas, incluindo seu irmão mais novo. Desde então, ele se descreve como “o homem mais sortudo do mundo” — mas também como alguém destruído pela dor.

O acidente, ocorrido em junho, transformou Ramesh em um símbolo improvável de resistência e trauma. O Boeing 787 com destino a Londres caiu logo após decolar de Ahmedabad, no oeste da Índia, e foi tomado pelas chamas.

Vídeos que circularam nas redes mostravam o sobrevivente cambaleando entre os destroços em meio à fumaça. Quatro meses depois, ele tenta se reerguer, agora em casa, no Reino Unido.

Um milagre com um preço alto

“Sou o único sobrevivente. Ainda não consigo acreditar. É um milagre”, disse Ramesh, emocionado, em entrevista à BBC News. Ele contou que conseguiu se soltar do cinto de segurança e rastejar para fora do avião antes que as chamas se espalhassem.

Mas, junto com a vida, ele perdeu quase tudo. “Meu irmão estava a poucas fileiras de mim. Ele era meu alicerce. Agora, estou sozinho. Não falo com minha esposa, nem com meu filho. Só quero ficar em casa, quieto”, revelou.

Desde o acidente, Ramesh foi diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e diz não ter recebido acompanhamento adequado. “Fisicamente e mentalmente, estou em pedaços”, lamentou.

Ferimentos, perdas e silêncio

O impacto deixou sequelas no corpo: dores nas pernas, costas e ombros o impedem de trabalhar. “Quando ando, é devagar. Minha esposa precisa me ajudar”, contou.

Os médicos indianos confirmaram o TEPT, mas, segundo seus assessores, nenhum tratamento continuou após o retorno ao Reino Unido. A família afirma que ele tem sido “esquecido” pela companhia aérea, que ofereceu uma indenização provisória de 21,5 mil libras (cerca de R$ 150 mil) — valor considerado insuficiente para cobrir suas necessidades básicas.

“Eles estão em crise — mental, física e financeiramente”, afirmou o líder comunitário Sanjiv Patel, que acompanha o caso. O negócio de pesca da família, na cidade de Diu, na Índia, também entrou em colapso após a morte do irmão de Ramesh.

A luta por reconhecimento e cuidado

O porta-voz da família, Radd Seiger, criticou a postura da Air India, afirmando que três pedidos de reunião com executivos da empresa foram ignorados. “É revoltante termos que expor ele [Ramesh] dessa forma. As pessoas que deveriam estar aqui são os responsáveis pela companhia. Queremos apenas sentar e tentar aliviar esse sofrimento”, declarou.

Em resposta, a Air India, controlada pelo Grupo Tata, disse em nota que líderes seniores continuam visitando famílias de vítimas e que “uma oferta foi feita aos representantes do senhor Ramesh para organizar uma reunião”. A empresa acrescentou que continua disposta a dialogar.

O homem que carrega 241 histórias

O acidente ainda está sob investigação. Um relatório preliminar apontou falha no fornecimento de combustível para os motores poucos segundos após a decolagem. A tragédia matou 169 indianos, 52 britânicos e 19 pessoas que estavam em solo.

Enquanto as autoridades buscam respostas, Ramesh tenta apenas seguir em frente. Ele não consegue falar sobre o dia do acidente e evita qualquer lembrança. “Minha mãe fica sentada todos os dias na porta, sem falar nada. Cada dia é doloroso para toda a família.”

O único sobrevivente do voo da Air India vive com a lembrança do que escapou — e do que perdeu. “Sou o homem mais sortudo do mundo”, repete. Mas sua história revela o outro lado da sobrevivência: o fardo de continuar vivendo quando todos os outros se foram.

[Fonte: BBC]

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