Pular para o conteúdo
Ciência

O enigma do duplo anel cósmico que intriga os astrônomos

Um objeto colossal, formado por dois círculos de rádio entrelaçados e com dimensões inimagináveis, foi detectado a bilhões de anos-luz da Terra. Sua origem pode estar ligada a explosões antigas de buracos negros supermassivos — e o achado já é considerado um marco na astronomia moderna.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O universo nunca deixa de surpreender. Astrônomos, em colaboração com cientistas cidadãos, identificaram uma estrutura inédita: um duplo anel de rádio localizado a cerca de 7,5 bilhões de anos-luz. Esse fenômeno raro pode carregar pistas sobre eventos explosivos que marcaram o universo primitivo e promete abrir novos caminhos para compreender o papel dos buracos negros na evolução cósmica.

O fantasma cósmico chamado RAD J131346.9+500320

Publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, o estudo descreve o objeto batizado de RAD J131346.9+500320, apenas o segundo “Círculo de Rádio Estranho” (Odd Radio Circle, ORC) com dois anéis já registrado.

Essas estruturas gigantescas só podem ser observadas com radiotelescópios, pois emitem sinais extremamente tênues. Seu tamanho desafia a imaginação: cada anel pode ter até 20 vezes o diâmetro da Via Láctea.

A descoberta foi possível graças ao RAD@home Astronomy Collaboratory, uma rede internacional de ciência cidadã liderada pelo astrofísico Ananda Hota, da Universidade de Mumbai. Voluntários analisaram dados do radiotelescópio LOFAR, na Europa, e identificaram a forma incomum.

“Foi como encontrar um fóssil escondido no ruído do universo”, explicou Hota.

Uma cicatriz de energia no plasma do espaço

Os pesquisadores acreditam que os ORCs sejam vestígios de antigas erupções galácticas, ondas de choque que reativam plasma magnetizado lançado por buracos negros supermassivos. No caso deste duplo anel, as evidências apontam para dois episódios distintos de liberação de energia, como se a galáxia central tivesse “respirado fogo” em momentos diferentes.

Cada círculo mede quase um milhão de anos-luz de diâmetro. O que vemos não é a explosão original, mas o eco luminoso deixado por partículas reenergizadas que ainda brilham bilhões de anos depois.

A vitória da ciência colaborativa

O achado também representa um triunfo da ciência cidadã. Algoritmos e sistemas de inteligência artificial ainda não conseguem identificar bem estruturas tão raras, justamente por faltarem exemplos para treinar as máquinas. Dessa vez, foi o olhar humano que conectou os pontos.

Além do duplo anel, os voluntários descobriram outros dois ORCs, incluindo um associado ao jato curvado de um buraco negro, sugerindo que esse tipo de estrutura pode ser mais comum do que se imaginava.

Universo 1
© Monthly Notices of the Royal Astronomical Society

O universo como arquivo de memórias

Observar esses círculos equivale a olhar bilhões de anos no passado. A luz que agora chega à Terra começou sua viagem quando o universo tinha apenas metade da idade atual.

“Cada ORC é um registro fóssil cósmico, que nos permite ler a história de explosões e ventos que moldaram as primeiras galáxias”, disse Hota.

O próximo passo será investigá-los com o Square Kilometre Array (SKA), o maior radiotelescópio do mundo, atualmente em construção. Ele permitirá imagens mais nítidas e detalhadas, transformando mapas borrados em retratos de alta resolução do cosmos profundo.

Uma assinatura luminosa no vazio

Esse duplo anel pode ser a cicatriz de um estalo ancestral que ainda ecoa pelo universo. Mesmo em meio ao silêncio cósmico, estruturas como essa provam que forças invisíveis continuam a desenhar formas impossíveis no tecido do espaço-tempo.

Talvez o universo, em sua linguagem circular, esteja apenas tentando nos contar sua própria história.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados