Pular para o conteúdo
Notícias

Mães solo no DF vivem sem apoio: por que o Estado ainda falha tanto?

Quando uma mãe diz que cria o filho “com a força dela e de Deus”, não é metáfora — é diagnóstico. No Distrito Federal, mais de 122 mil mulheres enfrentam a maternidade sozinhas, muitas vezes sem apoio financeiro, emocional ou institucional. O número só cresce, mas as políticas públicas não acompanham essa realidade.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O cenário invisível: mães solo representam 15,5% das famílias do DF

Os dados do IBGE mostram: 15,5% das famílias do DF são chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos. É mais do que a média nacional de 13,5%, um universo de 7,8 milhões de famílias.

No dia a dia, isso significa jornadas exaustivas, falta de suporte e dificuldades que se acumulam. A auxiliar do lar Clemilda Alves, 48, resume bem:

“Minha filha é criada por mim e por Deus.”

O pai não paga pensão, ela já enfrentou desemprego e dependência de benefícios sociais — que, segundo ela, nunca foram suficientes. Mesmo usando escola pública e SUS, Clemilda afirma sentir falta de acolhimento do Estado, especialmente nos momentos mais críticos.

A socióloga Hayesca Barroso, da UnB, reforça o ponto:

“Quando falamos de mãe solo, falamos de ausência institucional. O desamparo é cultural, estrutural e atravessado por classe, raça e gênero.”

Esse é o coração do problema: não é só falta de rede de apoio — é falta de Estado.

Descubra como o Estado tenta agir — e por que ainda é insuficiente

Mães solo no DF vivem sem apoio: por que o Estado ainda falha tanto?
© Pexels

A Secretaria de Desenvolvimento Social do DF diz priorizar mães solo em seus principais programas: Cartão Gás, DF Social e Cartão Prato Cheio, todos voltados a famílias com crianças até seis anos.

Existem 263 mil famílias vulneráveis chefiadas por mães solo registradas no Cadastro Único — mais que o dobro do número apontado pelo IBGE.

Há também a Bolsa Maternidade, uma mochila com itens essenciais para recém-nascidos, distribuída nos 32 CRAS do DF. O número de kits entregues subiu 474% em quatro anos.

Mas, apesar dos avanços, a rede ainda é fragmentada. Hayesca explica que as políticas chegam “picadas”, sem articulação entre saúde, educação, assistência social e apoio à primeira infância.

Para muitas mulheres, como Rozângela Barbosa, 38, a falta de informação dificulta até acessar creche pública. Ela só conseguiu vaga para o terceiro filho porque recebeu orientação enquanto atualizava o Bolsa Família.

“O apoio existe, mas precisa chegar na hora certa e de forma integrada”, diz a especialista.

Entenda o peso da maternidade solo: sobrecarga, precarização e desigualdade

Ser mãe solo no Brasil é enfrentar um turbilhão de responsabilidades — todas ao mesmo tempo. Hayesca resume:

“É uma sobrecarga mental desumana.”

Sem rede de apoio, as mulheres acumulam:

  • cuidado integral dos filhos;
  • tarefas domésticas;
  • sustento financeiro;
  • gestão emocional e escolar;
  • trabalho precário ou informal por falta de alternativas.

Essa sobrecarga compromete saúde mental, carreira, renda e qualidade de vida. E, quando os serviços do Estado falham, as consequências se multiplicam.

A responsabilidade paterna que nunca chega — e o Estado que pouco cobra

O especialista em política social Erci Ribeiro, da UnB, traz um ponto central que costuma ser ignorado:

A política pública olha para mãe e criança, mas não olha para o pai ausente.

Ele afirma que, por décadas, o Estado tentou substituir a ausência paterna com benefícios materiais — mas ignorou o impacto emocional e psicológico dessa ausência.

E mais:

“Há falha na articulação para a busca ativa desses pais que abandonam material e emocionalmente.”

Para ele, a defesa das mães solo exige:

  • cobrança efetiva de pensão;
  • punição para abandono paterno;
  • creches e escolas integrais em territórios vulneráveis;
  • fortalecimento da saúde mental;
  • mais equipamentos públicos de cuidado;
  • rede de proteção para crianças e adolescentes.

Sem isso, diz Ribeiro, “a maternidade solo se torna perversamente desigual”.

Juventude, futuro e dignidade: o que está realmente em jogo

A especialista Hayesca lembra que garantir direitos não significa apenas oferecer escola e comida. É preciso garantir dignidade às mães e aos jovens.

Sem apoio, mães solo:

  • aceitam trabalhos precarizados;
  • têm trajetórias profissionais interrompidas;
  • abandonam estudos;
  • vivem em ciclo permanente de vulnerabilidade.

“A mãe solo carrega o peso de uma sociedade que falha na garantia dos direitos humanos”, resume Hayesca.

As histórias de Clemilda e Rozângela mostram o que os números não revelam: mães solo não querem heroísmo — querem política pública articulada, eficiente e contínua. Com 15,5% das famílias do DF nessa condição, o Estado precisa assumir seu papel de forma urgente. Agora fica a pergunta: vamos continuar invisibilizando essas mulheres ou transformar o debate em mudanças reais?

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados