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Ciência

Mais de 12 mil anos sob a terra: cientistas identificam a doença genética mais antiga já registrada em humanos — e ela revela como condições raras atravessam gerações

Dois esqueletos femininos enterrados juntos no sul da Itália guardavam um segredo impressionante. Com técnicas modernas de DNA antigo, pesquisadores conseguiram diagnosticar uma patologia óssea rara em mãe e filha pré-históricas — o registro genético mais antigo desse tipo já documentado, abrindo uma nova janela para entender a herança de doenças ao longo da história humana.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, arqueólogos sabiam que aqueles restos eram especiais. Mas só agora, graças aos avanços da paleogenômica, foi possível ir além da anatomia e acessar diretamente o código genético dessas mulheres que viveram há mais de 12 mil anos. O resultado não apenas resolve um mistério antigo como também mostra que doenças hereditárias acompanham nossa espécie desde o Paleolítico.

O estudo, liderado pela Universidade de Viena e publicado no New England Journal of Medicine, descreve o caso mais antigo conhecido de displasia acromesomélica tipo Maroteaux — uma condição genética extremamente rara que afeta o crescimento dos ossos.

Um achado excepcional na Grotta del Romito

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© Earth Touch News.

A caverna, localizada na região da Calábria, no sul da Itália, foi descoberta em 1963 e desde então intriga pesquisadores. Em uma das sepulturas, dois corpos femininos foram encontrados lado a lado, em uma posição que sugere um abraço. Estudos recentes confirmaram que se tratava de mãe e filha.

A jovem, conhecida como Romito 2, media cerca de 110 centímetros e apresentava um encurtamento acentuado dos braços e pernas. A mulher adulta, Romito 1, tinha aproximadamente 145 centímetros — também baixa estatura para os padrões da época — e foi enterrada sustentando a filha. Análises osteológicas descartaram traumas ou lesões externas, indicando que as diferenças físicas não eram resultado de acidentes.

A chave para o diagnóstico veio do osso temporal, mais especificamente da sua porção petrosa, uma das regiões do corpo que melhor preserva DNA ao longo de milênios. A partir desse material, a equipe reconstruiu parte do genoma das duas mulheres.

O diagnóstico que atravessou milênios

A análise revelou alterações no gene NPR2, essencial para o desenvolvimento ósseo. Na filha, os cientistas encontraram a mutação em homozigose, o que confirma a displasia acromesomélica tipo Maroteaux. Já a mãe carregava a mutação em heterozigose: era portadora da condição, o que explica sua estatura reduzida em grau mais leve.

Segundo o pesquisador Ron Pinhasi, da Universidade de Viena, agora é possível identificar mutações específicas em indivíduos pré-históricos e rastrear a origem de doenças genéticas raras com uma precisão antes impensável. Para Daniel Fernandes, da Universidade de Coimbra, o caso é particularmente valioso por documentar, pela primeira vez, a transmissão hereditária direta de uma patologia desse tipo na pré-história.

Adrian Daly, do Hospital Universitário de Lieja, destaca que o achado confirma algo que a medicina moderna já suspeitava: doenças genéticas raras não são fenômenos recentes — elas acompanham a humanidade desde seus primórdios.

Solidariedade no Paleolítico e novas pistas para a medicina

Homo Sapiens2
© YouTube – El robot de Platón

Talvez o aspecto mais comovente da descoberta esteja fora do laboratório. Apesar das limitações físicas severas, Romito 2 sobreviveu até a adolescência ou mesmo início da vida adulta. Em um ambiente duro, sem recursos médicos, isso só teria sido possível com apoio constante da comunidade — ajuda para se locomover, se alimentar e se proteger.

A própria disposição da sepultura reforça essa leitura: o gesto de enterrar mãe e filha juntas sugere laços afetivos fortes e uma estrutura social capaz de cuidar de seus membros mais vulneráveis.

Do ponto de vista científico, o impacto é amplo. A combinação de paleogenômica com métodos clínicos modernos permite ligar variantes genéticas antigas a sintomas conhecidos hoje, ajudando a compreender como essas condições surgiram, persistiram e se espalharam ao longo do tempo. Esse tipo de abordagem também pode melhorar o diagnóstico precoce de doenças raras na atualidade, ao ampliar o repertório de mutações já documentadas.

Com a colaboração de instituições da Itália, Portugal, Bélgica e Áustria, o projeto mostra como a ciência contemporânea pode iluminar histórias profundamente humanas enterradas há milhares de anos — e, ao mesmo tempo, oferecer novas ferramentas para cuidar das gerações futuras.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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