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Ciência

Marte pode ter escondido água líquida por muito mais tempo do que imaginávamos, e um rover chinês encontrou uma pista intrigante

Estranhas formações minerais encontradas por um rover chinês podem obrigar cientistas a rever parte da história de Marte e revelam um passado potencialmente mais complexo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Marte parece hoje um mundo frio, seco e hostil, mas seu passado continua produzindo surpresas. Durante décadas, cientistas trabalharam com uma linha do tempo relativamente estabelecida para o desaparecimento da água líquida de sua superfície. Agora, dados coletados por uma missão chinesa apontam para um cenário diferente. Pequenos cristais encontrados em uma planície marciana podem indicar que algo extraordinário aconteceu ali muito mais recentemente.

Uma descoberta que desafia a cronologia de Marte

Marte pode ter escondido água líquida por muito mais tempo do que imaginávamos, e um rover chinês encontrou uma pista intrigante
© Pexels

Durante muito tempo, uma das principais interpretações sobre a evolução de Marte sustentou que sua superfície teria congelado há aproximadamente 3 bilhões de anos. A partir desse período, grandes quantidades de água líquida deixariam de permanecer de forma estável sobre o planeta.

Parte dessa água pode ter escapado para o espaço, enquanto outra quantidade teria ficado aprisionada no subsolo ou congelada. É justamente essa cronologia que uma nova análise dos dados da missão chinesa Zhurong coloca em discussão.

Pesquisadores liderados por Jiacheng Liu, da Universidade de Hong Kong, voltaram a examinar informações obtidas pelo rover e identificaram evidências minerais que podem ser difíceis de explicar pelos modelos tradicionais.

O estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy, concentra-se em uma região específica de Utopia Planitia, enorme planície localizada no hemisfério norte de Marte.

O Zhurong pousou ali em maio de 2021. Durante sua exploração, o rover fotografou estruturas rochosas planas e brilhantes emergindo da areia marciana. Seus instrumentos também detectaram sinais compatíveis com minerais contendo água.

Naquele momento, porém, as imagens disponíveis não permitiram determinar com precisão o que havia nas rochas.

A resposta começou a aparecer quando os cientistas decidiram observar algo muito menor.

Pequenos cristais guardavam uma pista inesperada

Ao reexaminar os dados do Zhurong com maior nível de detalhe, a equipe concentrou a atenção em pequenos cristais localizados logo abaixo da superfície das formações rochosas.

Eles apresentavam formatos bastante particulares. Algumas estruturas eram curvas e lembravam folhas de repolho, enquanto outras exibiam ramificações semelhantes às de pequenas árvores de Natal.

A aparência chamou atenção, mas foi a análise química que tornou a descoberta especialmente interessante.

Combinando informações obtidas pelos instrumentos de espectroscopia a laser e infravermelho do rover, os pesquisadores concluíram que aquelas estruturas provavelmente foram produzidas por selenita, uma variedade cristalina da gipsita.

Esse mineral é importante porque sua formação exige condições bastante específicas. A selenita identificada pelos cientistas teria cristalizado diretamente a partir de água salgada altamente concentrada.

Isso significa que não bastaria explicar sua presença apenas com gelo ou pequenas quantidades de umidade no solo. Segundo a interpretação apresentada pela equipe, seria necessário algum tipo de ambiente no qual água líquida pudesse permanecer acumulada.

E os cálculos sugerem que não se tratava de uma quantidade insignificante.

A partir da espessura da camada mineral encontrada, os pesquisadores estimaram que sua formação teria exigido o equivalente a uma lâmina acumulada de água com aproximadamente 6,25 a 25 metros de profundidade ao longo do processo.

Mas o dado mais surpreendente surgiu quando eles tentaram descobrir quando aquilo teria acontecido.

A idade do terreno pode mudar parte da história marciana

Uma das maneiras utilizadas para estimar a idade de regiões planetárias é analisar a quantidade e a distribuição das crateras de impacto. Em geral, superfícies mais antigas acumularam mais crateras ao longo do tempo.

Aplicando essa metodologia à região estudada, a equipe estimou que o terreno teria aproximadamente 757 milhões de anos.

Caso a interpretação esteja correta, isso colocaria a presença de água líquida superficial em Marte centenas de milhões de anos mais perto do presente do que sugerem muitos dos modelos utilizados atualmente.

Os pesquisadores também propuseram uma possível explicação para a origem dessa água.

A hipótese é que existissem salmouras subterrâneas, ou seja, reservatórios de água extremamente salgada abaixo da superfície. O calor produzido por atividade vulcânica poderia ter derretido esse material e empurrado a solução para regiões superiores.

Quando a água começou a congelar novamente, possivelmente de cima para baixo, os sais teriam ficado cada vez mais concentrados no líquido restante. Esse ambiente poderia então ter criado as condições necessárias para a formação dos cristais encontrados pelo Zhurong.

É uma reconstrução que ainda precisará ser testada. Se confirmada, porém, suas consequências podem ir muito além de simplesmente alterar uma data na cronologia de Marte.

Esses cristais podem virar alvo de futuras missões

Descobrir por quanto tempo Marte manteve ambientes com água líquida é fundamental para compreender a evolução do planeta e avaliar em quais períodos ele poderia ter apresentado condições potencialmente favoráveis à vida.

Os cristais de selenita acrescentam outro elemento particularmente interessante a essa investigação.

Durante sua formação, esse tipo de cristal pode aprisionar pequenas bolsas do líquido existente no ambiente. Em princípio, essas inclusões podem preservar informações químicas sobre a água a partir da qual o mineral se formou.

Isso transforma a região explorada pelo Zhurong em um possível alvo para missões futuras.

Rovers equipados com instrumentos mais sofisticados poderiam analisar diretamente essas estruturas e procurar pistas sobre a composição química daquele antigo ambiente marciano.

Por enquanto, os resultados não significam que rios ou grandes lagos necessariamente existiam em Marte há 757 milhões de anos. A interpretação depende da confirmação da composição dos minerais e do mecanismo responsável por sua formação.

Ainda assim, a descoberta abre uma possibilidade fascinante: Marte pode não ter se tornado completamente seco tão cedo quanto imaginávamos. Sob a paisagem aparentemente imóvel de Utopia Planitia, pequenos cristais podem estar preservando os vestígios de um capítulo muito mais recente da história da água no Planeta Vermelho.

[Fonte: Olhar digital]

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