Pular para o conteúdo
Ciência

Matéria escura e energia escura podem ter a mesma origem, segundo nova hipótese

Novas observações estão levando físicos a questionar uma das bases da cosmologia moderna. E uma ideia considerada especulativa até pouco tempo atrás começa a ganhar atenção.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Há décadas, os cientistas tentam entender dois dos maiores enigmas do universo. Juntos, eles representam cerca de 95% de tudo o que existe, mas permanecem invisíveis e praticamente desconhecidos. Um deles parece manter galáxias unidas. O outro estaria acelerando a expansão do cosmos. Durante muito tempo, foram tratados como problemas separados. Agora, novas evidências sugerem que essa divisão talvez esteja errada desde o início.

Os dados mais recentes estão abalando uma ideia considerada sólida

Tudo o que conseguimos observar diretamente — estrelas, planetas, nebulosas, galáxias e até nós mesmos — corresponde a apenas uma pequena fração do universo. A maior parte do cosmos continua escondida em componentes que os cientistas ainda não conseguem detectar diretamente.

Durante décadas, o modelo cosmológico dominante assumiu que a chamada energia escura era uma constante do espaço, exercendo sempre a mesma influência ao longo da história do universo. Essa hipótese ajudou a explicar por que a expansão cósmica está acelerando.

Mas observações recentes começaram a desafiar essa visão.

Os resultados obtidos pelo projeto DESI (Dark Energy Spectroscopic Instrument), um dos maiores levantamentos astronômicos já realizados, indicam que a energia escura talvez não seja tão constante quanto se imaginava. Ao analisar milhões de galáxias e quasares distribuídos pelo cosmos, os pesquisadores encontraram sinais de que sua influência pode ter mudado ao longo do tempo.

Os dados ainda não são suficientes para confirmar uma descoberta definitiva. O modelo tradicional continua compatível com parte das observações. Mesmo assim, o surgimento dessas discrepâncias está obrigando os físicos a considerar cenários que, até poucos anos atrás, eram vistos como altamente especulativos.

Uma das interpretações mais intrigantes sugere que a energia escura não estaria evoluindo sozinha. Talvez ela esteja ligada a outro dos grandes mistérios do universo: a matéria escura.

Essa possibilidade abre uma nova forma de enxergar o problema. Em vez de dois fenômenos independentes, os cientistas poderiam estar observando manifestações diferentes de um mesmo mecanismo físico ainda desconhecido.

E se matéria escura e energia escura forem partes da mesma história?

A hipótese de uma interação entre matéria escura e energia escura não é totalmente nova, mas ganhou força diante das recentes observações.

Segundo alguns modelos teóricos, esses dois componentes invisíveis poderiam trocar energia ou influenciar mutuamente suas propriedades ao longo do tempo. Caso isso aconteça, parte do comportamento atribuído à energia escura poderia, na verdade, ser consequência de mudanças ocorrendo na matéria escura.

Essa ideia ajuda inclusive a enfrentar outro problema importante da cosmologia moderna: a chamada tensão de Hubble, uma divergência persistente entre diferentes medições da velocidade de expansão do universo.

Mas existe uma proposta ainda mais surpreendente.

Alguns físicos ligados à teoria das cordas sugerem que a explicação pode estar escondida em uma dimensão adicional do espaço. Diferentemente das dimensões extras microscópicas normalmente previstas por essas teorias, essa dimensão teria uma escala relativamente grande para os padrões da física fundamental, embora ainda invisível aos nossos sentidos.

Nesse cenário, partículas hipotéticas associadas à gravidade poderiam se mover através dessa dimensão oculta e adquirir propriedades que, vistas de nosso universo, se comportariam como matéria escura. Ao mesmo tempo, a própria energia escura dependeria das características dessa dimensão extra.

Se ela mudasse lentamente ao longo de bilhões de anos, tanto a matéria escura quanto a energia escura evoluiriam juntas.

Ainda não existe qualquer prova de que essa dimensão realmente exista. Tampouco há confirmação definitiva de que a energia escura esteja mudando com o tempo. No entanto, a importância dessa hipótese está em outro ponto: ela gera previsões observáveis.

Futuros telescópios e levantamentos astronômicos poderão procurar pequenas assinaturas gravitacionais que indiquem uma interação entre os dois componentes invisíveis do universo.

A resposta para o título é justamente essa: uma dimensão oculta poderia oferecer uma explicação comum para matéria escura e energia escura, transformando dois dos maiores mistérios da física em partes de um mesmo quebra-cabeça cósmico.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados