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Ciência

Após cortes de Trump, cientistas recorrem ao OnlyFans para manter vivo um estudo de décadas

Um dos estudos de mamíferos mais duradouros do mundo ficou ameaçado após perder financiamento. Para mantê-lo vivo, pesquisadores da UCLA recorreram a uma plataforma bastante inesperada.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Acompanhar os mesmos animais durante décadas permite responder perguntas que experimentos curtos jamais conseguiriam esclarecer. Mas esse tipo de ciência depende de algo igualmente constante: financiamento. Quando um projeto americano com 64 anos de história perdeu apoio financeiro, seus pesquisadores precisaram improvisar. A solução encontrada mistura humor, internet e uma plataforma conhecida por conteúdos muito diferentes da pesquisa acadêmica. No centro de tudo estão algumas marmotas das Montanhas Rochosas.

Um experimento científico atravessou mais de seis décadas

Após cortes de Trump, cientistas recorrem ao OnlyFans para manter vivo um estudo de décadas
© Caio Cezar – Pexels

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) acompanham há décadas marmotas-de-ventre-amarelo que vivem nas Montanhas Rochosas do Colorado.

O projeto possui 64 anos de história e acumulou uma quantidade excepcional de informações sobre sucessivas gerações desses animais.

Sua longevidade o transformou no segundo estudo mais antigo do mundo dedicado a mamíferos identificados individualmente.

Esse detalhe é importante.

Em vez de simplesmente contar quantas marmotas existem em determinada região, pesquisadores conseguem reconhecer indivíduos específicos e acompanhar acontecimentos ao longo de suas vidas.

Isso permite observar relações sociais, reprodução, sobrevivência, comportamento, mudanças populacionais e respostas às transformações ambientais.

Dados coletados continuamente durante décadas também ajudam cientistas a identificar tendências que seriam praticamente invisíveis em pesquisas realizadas durante poucos anos.

Mas justamente quando o projeto já havia atravessado mais de seis décadas, sua continuidade ficou ameaçada.

Os cortes de financiamento colocaram a pesquisa em risco

O grupo liderado pelo biólogo Daniel Blumstein dependia do apoio da Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSF) para manter parte de suas atividades.

A situação mudou após cortes promovidos durante o governo do presidente Donald Trump.

Com a retirada do financiamento, os pesquisadores enfrentaram um problema particularmente delicado.

Interromper um estudo longitudinal não significa simplesmente fazer uma pausa e retomá-lo posteriormente. Uma temporada sem observações pode abrir uma lacuna permanente na série histórica.

Animais morrem, novos indivíduos nascem, grupos mudam e condições ambientais se transformam.

Informações que deixam de ser registradas naquele momento não podem ser reconstruídas anos depois.

Por isso, preservar a continuidade é especialmente importante em projetos que acompanham populações durante períodos tão extensos.

Diante da necessidade de encontrar novas fontes de recursos, a equipe decidiu procurar financiamento diretamente na internet.

E escolheu uma plataforma que dificilmente seria associada à pesquisa de campo sobre mamíferos.

Foi assim que nasceu a conta “OnlyMarms”

Após cortes de Trump, cientistas recorrem ao OnlyFans para manter vivo um estudo de décadas
© Camerauthor Photos – Unsplash

Desde o final de maio, a equipe passou a buscar assinantes por meio do OnlyFans, serviço de assinatura conhecido principalmente por hospedar conteúdo adulto, embora também seja utilizado por criadores de outras categorias.

A conta recebeu um nome cuidadosamente escolhido: OnlyMarms.

A brincadeira não termina aí.

Os pesquisadores promovem o perfil com referências bem-humoradas ao tipo de conteúdo pelo qual a plataforma se tornou famosa, prometendo aos assinantes “conteúdo de marmotas sem censura”.

Em vez das imagens normalmente associadas ao OnlyFans, porém, os assinantes encontram cenas da vida cotidiana das marmotas-de-ventre-amarelo observadas pelos pesquisadores no Colorado.

Algumas delas possuem até nomes facilmente reconhecíveis, como Jamba Juice e Egg.

A estratégia transforma os próprios animais em protagonistas de uma campanha para preservar a pesquisa que os acompanha há décadas.

Marmotas viraram criadoras de conteúdo para financiar ciência

Por trás da piada existe uma mudança interessante na maneira como alguns projetos científicos procuram sobreviver.

Tradicionalmente, pesquisas acadêmicas de longa duração dependem de universidades, agências governamentais, fundações e instituições privadas.

Quando uma dessas fontes desaparece repentinamente, encontrar substitutos pode ser difícil, especialmente para projetos que precisam manter equipes trabalhando continuamente no campo.

O OnlyMarms tenta inverter essa lógica.

Em vez de depender exclusivamente de grandes financiadores, o projeto oferece ao público a possibilidade de contribuir diretamente por meio de pequenas assinaturas.

Ao mesmo tempo, os apoiadores ganham acesso a uma perspectiva incomum da pesquisa científica: podem acompanhar os animais que estão gerando os dados utilizados pelos pesquisadores.

O humor também ajuda a chamar atenção para uma questão que normalmente teria dificuldade para ultrapassar os círculos acadêmicos.

Uma notícia sobre a perda de financiamento de um estudo ecológico poderia passar despercebida. Cientistas colocando marmotas no OnlyFans, por outro lado, é uma história muito mais difícil de ignorar.

O que parece uma brincadeira protege dados científicos insubstituíveis

A importância do projeto vai muito além das imagens simpáticas dos animais.

Estudos de longa duração são raros justamente porque exigem estabilidade institucional, financiamento constante e sucessivas gerações de pesquisadores comprometidos com a coleta dos mesmos tipos de informação.

Quanto maior a série histórica, mais valiosa ela pode se tornar.

Sessenta e quatro anos de observações permitem comparar animais vivendo em períodos ambientais muito diferentes e analisar como uma população responde lentamente a transformações que ocorrem ao longo de décadas.

É uma janela científica que não pode ser recriada artificialmente.

Se um projeto semelhante começasse hoje, seria necessário esperar até 2090 para acumular uma série temporal comparável.

É por isso que a perda de financiamento representa um risco tão grande.

O OnlyMarms pode parecer apenas uma campanha criativa nas redes, mas existe algo muito sério por trás das brincadeiras e dos nomes curiosos das marmotas.

Os pesquisadores estão tentando evitar que uma das séries científicas mais longas sobre mamíferos individualmente identificados termine simplesmente porque o dinheiro acabou.

E talvez essa seja a parte mais curiosa de toda a história: em uma época de cortes no financiamento científico, um projeto iniciado décadas antes da existência da internet pode acabar sobrevivendo graças a assinaturas em uma plataforma que seus fundadores jamais poderiam ter imaginado.

[Fonte: TV]

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