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Ciência

Fungo mortal resistente a medicamentos pode se esconder na pele — e cientistas descobriram como

A Candida auris é considerada uma séria ameaça à saúde pública por sua capacidade de resistir a medicamentos e se espalhar em hospitais. Agora, cientistas descobriram como o fungo consegue permanecer escondido nos folículos da pele.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um dos fungos emergentes mais preocupantes do mundo parece ter desenvolvido uma estratégia sofisticada para sobreviver no corpo humano. A Candida auris consegue colonizar a pele, esconder-se nos folículos pilosos e, aparentemente, manipular a resposta do sistema imunológico para permanecer ali.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF) investigaram o comportamento do fungo em experimentos de laboratório e com camundongos.

Os resultados, publicados na revista Science, revelaram uma resposta imunológica bastante diferente daquela provocada por outras espécies de Candida.

A descoberta pode abrir caminho para tratamentos capazes de eliminar o fungo da pele antes que ele provoque infecções potencialmente fatais.

Candida auris se tornou uma ameaça mundial

A Candida auris foi identificada pela primeira vez em 2009, após ser encontrada no ouvido de uma paciente no Japão.

Desde então, o fungo se espalhou por diferentes países e tornou-se especialmente preocupante em hospitais e instituições de cuidados prolongados.

Uma das principais razões é sua capacidade de desenvolver resistência aos medicamentos antifúngicos utilizados atualmente.

Algumas linhagens já apresentaram resistência simultânea a diferentes classes desses medicamentos, dificultando significativamente o tratamento de infecções graves.

Existe ainda outra característica incomum.

Ao contrário de várias outras espécies de Candida, a C. auris consegue colonizar com facilidade a pele de pessoas saudáveis.

Para a maioria dos indivíduos, isso não provoca doença. O problema aparece principalmente quando o sistema imunológico está enfraquecido ou quando o fungo consegue entrar na corrente sanguínea.

Nesses casos, a infecção pode se tornar grave e potencialmente fatal.

O esconderijo está nos folículos pilosos

Os pesquisadores da UCSF queriam descobrir por que a Candida auris consegue permanecer durante tanto tempo na pele.

Para isso, compararam o fungo com a Candida albicans, outra espécie capaz de causar infecções humanas, mas que não possui a mesma habilidade para colonizar persistentemente a superfície do corpo.

Os experimentos mostraram que a C. auris possui uma preferência particular pelos folículos pilosos.

Mas a maior surpresa apareceu quando os cientistas observaram a resposta imunológica.

A Candida albicans estimulava níveis maiores de interleucina-17, conhecida como IL-17, uma proteína que desempenha papel importante na defesa contra infecções fúngicas.

A Candida auris provocava uma reação diferente.

O fungo parece confundir o sistema imunológico

Em vez de favorecer a resposta associada à IL-17, a C. auris estimulava a produção de interferon-gama, uma molécula muito conhecida por sua participação nas defesas imunológicas contra diferentes patógenos.

Nesse contexto, porém, essa resposta acabava favorecendo a permanência do fungo.

Segundo os pesquisadores, o aumento do interferon-gama reduzia a resposta envolvendo IL-17 e também parecia desacelerar a renovação das células dos folículos pilosos.

O resultado criava condições mais favoráveis para que a Candida auris permanecesse instalada naquele ambiente.

Experimentos adicionais revelaram como o fungo poderia desencadear essa reação.

Ao detectar condições presentes na pele, a C. auris remodelaria sua parede celular, expondo maiores quantidades de quitina, uma molécula resistente encontrada em fungos e também no exoesqueleto de insetos e outros invertebrados.

Essa transformação parece contribuir para direcionar o sistema imunológico para uma resposta menos eficiente na eliminação do fungo.

Descoberta pode ajudar a impedir futuras infecções

Dean Merrill, dermatologista da UCSF e principal autor do estudo, destaca que a Candida auris não representa uma ameaça grave para a maioria das pessoas que simplesmente carregam o fungo na pele.

O maior problema está em ambientes com pacientes vulneráveis.

Uma pessoa colonizada pode transmitir o fungo por contato direto, equipamentos médicos ou superfícies contaminadas. Em indivíduos debilitados, ele pode posteriormente provocar infecções invasivas.

Por isso, impedir ou eliminar a colonização da pele poderia ser uma estratégia importante.

Os pesquisadores acreditam que compreender como a Candida auris manipula as defesas locais pode revelar novos alvos terapêuticos.

Uma possibilidade futura seria desenvolver intervenções capazes de estimular a resposta imunológica mais adequada na pele. Outra seria impedir que o fungo modifique sua parede celular e engane o sistema de defesa.

Essas estratégias ainda são hipóteses e precisarão ser testadas, inclusive em estudos com seres humanos.

Enquanto novos antifúngicos e possíveis vacinas são desenvolvidos, compreender os mecanismos utilizados pela Candida auris pode oferecer outra linha de defesa.

E descobrir como esse fungo consegue transformar um simples folículo piloso em esconderijo pode ser um passo importante para impedir que um passageiro aparentemente inofensivo da pele se transforme em uma infecção difícil de tratar.

 

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