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Ciência

Milhões de pessoas registraram a natureza sem saber que estavam ajudando a revelar um segredo científico

Uma pesquisa revelou que milhões de observações feitas por pessoas comuns escondem informações valiosas sobre a natureza. A inteligência artificial está transformando esses registros em descobertas científicas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Fotografar um pássaro, observar uma borboleta pousando em uma flor ou registrar o comportamento de um animal pode parecer apenas um passatempo. Entretanto, milhões dessas observações escondem informações que os cientistas dificilmente conseguiriam reunir sozinhos. Agora, pesquisadores descobriram como utilizar inteligência artificial para transformar comentários publicados por amantes da natureza em dados científicos capazes de revelar mudanças nos ecossistemas e ajudar a proteger a biodiversidade.

A descoberta que transforma observadores amadores em aliados da ciência

Milhões de pessoas registraram a natureza sem saber que estavam ajudando a revelar um segredo científico
© Pexels

Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, desenvolveram uma metodologia que utiliza inteligência artificial para analisar milhões de comentários publicados em plataformas de observação da natureza.

O estudo, divulgado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), demonstra que informações aparentemente simples podem revelar relações ecológicas importantes.

A pesquisa se concentrou em duas plataformas populares: eBird, dedicada principalmente ao registro de aves, e iNaturalist, utilizada para documentar plantas, animais e outros organismos.

Esses serviços permitem que qualquer pessoa compartilhe fotografias, localização geográfica, datas e comentários sobre espécies encontradas durante caminhadas, viagens ou atividades cotidianas.

O problema é que muitas informações relevantes permanecem escondidas nos textos escritos pelos usuários.

Uma fotografia pode identificar determinada ave, mas o comentário associado talvez descreva uma disputa por alimento, uma interação entre espécies ou um comportamento incomum.

Analisar manualmente milhões desses registros seria praticamente impossível.

Foi nesse ponto que a inteligência artificial entrou em ação.

Como ChatGPT e Claude conseguiram encontrar informações escondidas

Milhões de pessoas registraram a natureza sem saber que estavam ajudando a revelar um segredo científico
© Pexels

A equipe liderada pelo pesquisador Hengxing Zou utilizou grandes modelos de linguagem, incluindo ChatGPT e Claude, para identificar comentários que descreviam interações entre organismos.

Os pesquisadores organizaram dois estudos de caso.

O primeiro analisou registros da borboleta Vanessa annabella, encontrada no oeste dos Estados Unidos e no México, procurando informações sobre suas interações com plantas.

O segundo investigou comentários publicados no eBird sobre aves observadas no estado americano de Michigan.

Nesse caso, a inteligência artificial identificou descrições de comportamentos como formação de bandos, competição por alimento e interações entre diferentes espécies.

Para avaliar a eficiência do método, os pesquisadores compararam o trabalho automatizado com uma análise humana.

A estudante Olivia Stein examinou manualmente uma amostra de quase 500 comentários, levando aproximadamente oito horas para concluir a classificação.

O Claude realizou a mesma tarefa em apenas seis minutos.

O resultado demonstra o potencial da tecnologia para acelerar processos que exigiriam grandes equipes e muito tempo.

Entretanto, velocidade não significa precisão absoluta. Os resultados ainda precisam ser verificados, especialmente quando envolvem observações ambíguas ou informações incompletas.

Uma surpresa apareceu entre os registros de borboletas

A análise também permitiu identificar possíveis sinais da presença de plantas não nativas em ecossistemas da costa oeste americana.

Esses registros podem ajudar pesquisadores a investigar mudanças na distribuição de espécies e possíveis alterações nas relações ecológicas.

Segundo Zou, o objetivo não é substituir o trabalho científico, mas transformar observações dispersas em conjuntos de dados organizados.

O professor Kai Zhu, também da Universidade de Michigan, destacou que a metodologia permite examinar relações entre espécies em escalas geográficas e temporais difíceis de alcançar por métodos tradicionais.

Isso pode ser particularmente útil para compreender os efeitos das mudanças climáticas, da urbanização e da introdução de espécies exóticas.

Ainda assim, a identificação de uma planta não nativa não significa necessariamente que ela seja invasora ou esteja provocando danos ambientais.

Essas conclusões dependem de investigações complementares.

O Brasil também pode se beneficiar dessa tecnologia

A descoberta possui aplicações importantes para países com elevada biodiversidade, como o Brasil.

Na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica, milhares de espécies interagem em ambientes extensos e frequentemente difíceis de monitorar.

Observações feitas por moradores, turistas, estudantes e naturalistas podem complementar os levantamentos realizados por instituições científicas.

Segundo o iNaturalist, em sua apresentação sobre o impacto científico da plataforma, a comunidade já reúne mais de 300 milhões de observações verificáveis e ultrapassou quatro milhões de participantes em diferentes países.

Esses registros contribuem para estudos sobre distribuição geográfica, descoberta de espécies, mudanças climáticas e conservação ambiental.

Uma pesquisa publicada em 2025 na revista BioScience também demonstrou que o uso científico de dados do iNaturalist cresceu mais de dez vezes em cinco anos.

A combinação dessas informações com modelos de inteligência artificial pode ampliar ainda mais seu valor para pesquisadores brasileiros.

O futuro da pesquisa ambiental pode estar nas mãos de qualquer pessoa

A ciência cidadã não é uma novidade, mas a inteligência artificial está permitindo explorar informações que anteriormente permaneciam praticamente inacessíveis.

Além das interações entre espécies, os pesquisadores acreditam que a metodologia poderá ajudar a investigar migrações, períodos de reprodução, mudanças no comportamento animal e alterações sazonais.

Existem, porém, desafios importantes.

Registros realizados por voluntários não possuem distribuição uniforme. Regiões urbanas e destinos turísticos costumam concentrar mais observações do que áreas remotas.

Também podem ocorrer erros de identificação e descrições imprecisas.

Por isso, a inteligência artificial deve funcionar como ferramenta de organização e apoio, mantendo a validação científica como parte fundamental do processo.

O avanço mais interessante talvez esteja justamente nessa colaboração.

Uma observação aparentemente insignificante, publicada por alguém durante uma caminhada, pode conter informações que ajudam pesquisadores a compreender melhor o funcionamento dos ecossistemas.

E, com milhões de pessoas registrando a natureza diariamente, a próxima descoberta científica pode estar escondida em uma fotografia ou comentário que ninguém havia examinado com atenção.

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