O retorno de um parasita que se alimenta de tecidos vivos está deixando de ser apenas um problema para a pecuária. A mosca-da-bicheira-do-Novo-Mundo (Cochliomyia hominivorax) voltou a avançar pela América do Norte e já provocou centenas de infestações em humanos no México.
Pesquisadores mexicanos analisaram casos registrados desde o reaparecimento do parasita no país. Entre abril de 2025 e março de 2026, foram identificadas 204 infestações humanas. Seis pacientes morreram posteriormente, sendo uma dessas mortes atribuída diretamente à infestação.
Dados mais recentes do Ministério da Saúde do México indicam que o número acumulado já ultrapassou 500 casos humanos desde o retorno da mosca.
Os resultados foram publicados na revista científica Emerging Infectious Diseases e reforçam a necessidade de uma resposta conjunta envolvendo saúde humana, veterinária, agricultura e monitoramento da vida selvagem.
Como a mosca-da-bicheira ataca suas vítimas
Ao contrário das larvas de muitas espécies de moscas, que se alimentam principalmente de matéria orgânica em decomposição, as larvas da Cochliomyia hominivorax atacam tecidos vivos de animais de sangue quente.
As moscas adultas depositam seus ovos em feridas abertas ou próximas às mucosas do hospedeiro.
Quando os ovos eclodem, as larvas começam a penetrar no tecido. Seus corpos possuem estruturas que ajudam na movimentação dentro da ferida, enquanto ganchos bucais permitem que se alimentem da carne.
Esse processo pode provocar lesões extensas e aumentar o risco de infecções secundárias graves. Sem tratamento adequado, uma infestação intensa pode colocar a vida do hospedeiro em risco.
A infestação de tecidos por larvas de moscas é conhecida como miíase.
Embora bovinos e outros animais sejam os hospedeiros mais frequentes, humanos também podem ser afetados.
México registrou centenas de casos em humanos
Durante décadas, programas de erradicação conseguiram eliminar a mosca de grande parte da América do Norte e Central.
Uma das principais estratégias foi criar uma barreira biológica no Panamá, impedindo que populações provenientes da América do Sul avançassem novamente em direção ao norte.
Nos últimos anos, porém, essa barreira perdeu eficiência e o parasita começou a recuperar território.
O México havia sido declarado livre da mosca-da-bicheira em 2003. No final de 2024, entretanto, novos casos começaram a aparecer em animais.
Pouco depois surgiram também infestações humanas.
Entre abril de 2025 e março de 2026, pesquisadores registraram 204 casos em pessoas. A maioria ocorreu entre homens, e os membros inferiores estavam entre as regiões do corpo mais frequentemente afetadas.
Seis pessoas morreram após as infestações. Segundo o estudo, uma dessas mortes foi diretamente atribuída à bicheira.
Dados posteriores de vigilância sanitária elevaram para mais de 500 o número de casos humanos identificados no México desde o ressurgimento do parasita.
Parasita também voltou aos Estados Unidos
A preocupação aumentou depois que a mosca reapareceu oficialmente nos Estados Unidos em junho.
Até 9 de agosto, autoridades haviam identificado 45 casos no Texas e no Novo México.
Até aquele momento, nenhum caso humano havia sido registrado no país, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Para a população em geral, o risco continua sendo considerado muito baixo.
Ainda assim, a experiência mexicana serve como alerta.
Os pesquisadores observaram que regiões com maior número de infestações em animais também tendem a registrar mais casos humanos. Além disso, as ocorrências em pessoas aumentaram no México no início de 2026.
Isso sugere que acompanhar a disseminação entre animais pode ajudar autoridades a antecipar regiões nas quais seres humanos também podem ficar expostos.
Moscas estéreis podem ajudar a conter o avanço
Nos Estados Unidos, autoridades estão adotando medidas de contenção ao redor das áreas onde o parasita foi identificado.
Uma das principais armas parece curiosa: liberar enormes quantidades de moscas machos estéreis.
A técnica já foi fundamental para combater a espécie no passado. Os machos produzidos em instalações especializadas são esterilizados e liberados no ambiente.
Quando uma fêmea selvagem acasala com um desses indivíduos, seus ovos não produzem descendentes. Como as fêmeas dessa espécie normalmente acasalam apenas uma vez, liberações em grande escala podem reduzir drasticamente a população ao longo das gerações.
A estratégia ajudou a eliminar a mosca-da-bicheira de grandes regiões das Américas décadas atrás.
Agora, autoridades tentam descobrir se ela conseguirá novamente impedir o avanço do parasita.
Os pesquisadores defendem que vigilância, diagnóstico, controle da movimentação de animais e medidas para reduzir as populações da mosca sejam adotados antes que apareçam casos humanos.
O retorno da Cochliomyia hominivorax mostra que o problema não termina nas fazendas. Onde essa mosca consegue recuperar território, animais e seres humanos podem acabar expostos ao mesmo parasita.