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Tecnologia

Os Estados Unidos apostam em um microreator nuclear para alimentar centros de dados

Um novo projeto chamou atenção por unir energia nuclear, transporte militar e inteligência artificial. A proposta promete levar eletricidade para qualquer lugar, mas os maiores desafios ainda estão por vir.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O crescimento acelerado da inteligência artificial vem criando uma demanda inédita por energia elétrica. Enquanto governos e empresas procuram novas formas de abastecer centros de dados e instalações estratégicas, uma tecnologia que parecia restrita às grandes usinas começa a ganhar uma versão compacta. O projeto mais recente impressiona pelo tamanho, pela velocidade de desenvolvimento e pela promessa de levar energia nuclear para locais onde ela nunca foi considerada viável.

Um microreator que pode ser transportado de avião

Os Estados Unidos deram mais um passo na corrida pelo desenvolvimento de reatores nucleares compactos e transportáveis. O destaque é um novo microreator desenvolvido pela empresa californiana Valar Atomics, criado para fornecer energia a centros de dados, instalações industriais e bases militares localizadas longe das redes elétricas tradicionais.

O avanço mais importante ocorreu em junho de 2026, quando o Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou que o equipamento atingiu a chamada criticidade em potência zero. Em termos práticos, isso significa que o reator conseguiu manter uma reação nuclear em cadeia de forma estável e controlada, embora ainda sem produzir calor ou eletricidade em níveis significativos.

Essa etapa representa um marco importante antes dos testes em potência mais elevada, que deverão comprovar se o sistema realmente pode operar de forma contínua.

Outro aspecto que chamou atenção foi a velocidade do projeto. Apenas nove meses antes, o local de testes, no estado de Utah, ainda estava vazio. Para efeito de comparação, uma usina nuclear convencional costuma levar mais de uma década entre planejamento, licenciamento e construção.

O equipamento pertence à categoria dos reatores refrigerados a gás de alta temperatura. Em vez de utilizar água como refrigerante, o sistema emprega hélio e grafite, além do combustível nuclear conhecido como TRISO, formado por pequenas partículas de urânio protegidas por múltiplas camadas cerâmicas.

Esse tipo de combustível foi desenvolvido para suportar temperaturas extremamente elevadas e manter os materiais radioativos confinados mesmo em condições severas de operação. Já o hélio oferece vantagens importantes, como não entrar em ebulição, apresentar baixa reatividade química e praticamente não se tornar radioativo durante o funcionamento do reator.

A proposta é levar energia para onde ela for mais necessária

Um dos diferenciais do projeto está na mobilidade. Em fevereiro de 2026, módulos do equipamento foram transportados da Califórnia para Utah a bordo de um avião militar C-17.

É importante destacar que o transporte ocorreu sem combustível nuclear instalado. O material radioativo só foi inserido posteriormente, já no laboratório de testes conhecido como San Rafael Energy Lab.

O conjunto completo possui dimensões semelhantes às de uma van e foi projetado para ser fabricado em módulos. A ideia da empresa é produzir diversas unidades em série, transportá-las prontas até o destino e realizar apenas a montagem final no local de operação.

Segundo a Valar Atomics, a futura versão comercial deverá produzir até cinco megawatts de energia elétrica, quantidade suficiente para abastecer milhares de residências ou alimentar instalações de grande consumo energético.

Entre os principais clientes em potencial estão os centros de dados voltados à inteligência artificial, que operam continuamente durante as 24 horas do dia e exigem fornecimento estável de energia.

Bases militares também aparecem entre os principais interessados. Um microreator desse tipo poderia reduzir a dependência de geradores movidos a diesel e diminuir a necessidade de longas operações logísticas para transporte de combustível até regiões isoladas.

Após alcançar a criticidade, os engenheiros iniciaram uma série de testes para aumentar gradualmente a potência do reator. Em uma das demonstrações, o calor produzido foi utilizado para gerar eletricidade suficiente para alimentar um pequeno sistema da Nvidia. Apesar disso, o experimento ainda ficou muito distante da capacidade prometida para a versão comercial.

O maior desafio começa justamente agora

Apesar dos avanços, o projeto ainda permanece em fase experimental.

A empresa espera iniciar a venda de energia em caráter de demonstração ao longo de 2027 e alcançar operação comercial em 2028. Até lá, será necessário comprovar que o reator consegue funcionar com segurança, confiabilidade e custos competitivos durante longos períodos.

Especialistas também apontam diversas questões que ainda precisam ser respondidas. Entre elas estão o custo real da eletricidade produzida, a proteção física das instalações, o transporte seguro do combustível nuclear e a gestão dos resíduos radioativos gerados durante a operação.

Outro ponto levantado por críticos é que transportar um reator desmontado e sem combustível demonstra apenas a viabilidade logística do projeto, mas não elimina os desafios relacionados ao uso de tecnologia nuclear em regiões remotas ou instalações militares.

Mesmo assim, o conceito desperta enorme interesse porque propõe uma mudança importante na forma como a energia nuclear poderá ser utilizada no futuro. Em vez de depender exclusivamente de grandes usinas, pequenas unidades modulares poderiam ser instaladas próximas aos locais de consumo, reduzindo a necessidade de grandes obras de infraestrutura.

Isso responde ao título desta reportagem. O microreator realmente foi projetado para ser transportado como um equipamento compacto e poderá abastecer centros de dados de inteligência artificial e bases militares. No entanto, antes de transformar essa promessa em realidade, ainda precisará demonstrar que consegue produzir energia de forma segura, economicamente viável e confiável em larga escala.

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