Nos últimos meses, um hábito curioso passou a ocupar espaço nas rotinas noturnas exibidas no TikTok: dormir com a boca vedada por uma fita adesiva. Conhecido como mouth taping, o método ganhou status de tendência estética e de autocuidado, embalado por vídeos bem produzidos, iluminação suave e promessas de acordar “melhor por dentro e por fora”. Mas, fora das redes, a ciência começa a olhar para o fenômeno com bem mais cautela.
Uma revisão publicada no American Journal of Otolaryngology, revista científica da área de otorrinolaringologia, analisou de forma crítica o que realmente se sabe sobre a prática. O resultado desmonta boa parte do hype e levanta dúvidas importantes sobre segurança, eficácia e o papel das redes sociais na popularização de hábitos sem base sólida.
O que é o mouth taping e por que ele viralizou
🧵Sleep and lung doctor here!
Let's talk about mouth taping
Mouth taping is not this👇 –unless you are a kidnapper or terrorists. pic.twitter.com/1tbg3lXMEV
— Peter Edmonds MD (@pjedmonds) April 1, 2025
A ideia por trás do mouth taping é simples: selar os lábios durante o sono para forçar a respiração nasal. Defensores afirmam que isso melhoraria a qualidade do sono, reduziria o ronco e ainda traria benefícios estéticos, como uma mandíbula mais definida e uma pele mais saudável.
Essas promessas se encaixam perfeitamente na lógica do TikTok, onde rotinas de autocuidado visualmente agradáveis e soluções rápidas para “otimizar” o corpo têm alto potencial de engajamento. O problema é que popularidade não é sinônimo de comprovação científica.
O que a pesquisa realmente analisou
Os pesquisadores revisaram 177 estudos científicos relacionados ao tema. Desse total, apenas nove investigavam diretamente o impacto do mouth taping durante o sono. Em paralelo, o estudo também analisou os 50 vídeos mais populares do TikTok sobre a prática, buscando entender como as mensagens foram construídas e por que se espalharam tão rapidamente.
A conclusão foi direta: a tendência cresceu impulsionada por relatos pessoais e apelos estéticos, não por evidências médicas consistentes.
Muitas promessas, pouca evidência
Nos vídeos analisados, os supostos benefícios atribuídos ao mouth taping são numerosos. Entre os mais comuns estão melhora do sono, redução do ronco, mais energia ao acordar, prevenção de cáries e mau hálito, além de efeitos estéticos como pele melhor e mandíbula mais marcada.
Segundo a revisão, 36% dos vídeos afirmam que a prática melhora significativamente o sono, enquanto cerca de um quarto associa o método a benefícios para a saúde bucal. Há ainda conteúdos que sugerem mudanças no formato do rosto e até melhora da “oxigenação” do corpo.
Ao confrontar essas alegações com os estudos disponíveis, porém, os autores não encontraram evidências científicas que sustentem a maioria dessas promessas. Não há comprovação de melhora da pele, definição facial, fortalecimento da mandíbula, aumento de energia, melhora de humor, imunidade ou saúde bucal. Os poucos resultados positivos aparecem apenas em contextos muito específicos, como alguns casos de apneia leve e de pessoas que respiram predominantemente pela boca — e mesmo assim, com cautela.
Riscos quase ignorados nas redes sociais

Um dos pontos mais preocupantes da análise é a forma como os riscos são minimizados. Apenas 20% dos vídeos mencionam qualquer possível efeito negativo da prática. Isso cria a percepção de que o mouth taping é inofensivo, por ser simples e “natural”.
A revisão científica, no entanto, lista diversos riscos potenciais, especialmente para pessoas com apneia do sono (diagnosticada ou não), rinite, alergias, sinusite, desvio de septo, asma ou dificuldade de respirar pelo nariz. Entre os problemas apontados estão redução da oxigenação durante o sono, sensação de sufocamento, aumento da ansiedade, irritações na pele e até piora do ronco em alguns casos.
Há também vídeos que afirmam que o método “cura apneia”, uma alegação que os pesquisadores classificam como infundada e potencialmente perigosa.
Quando estética fala mais alto que ciência
Segundo os autores, grande parte dos conteúdos é produzida por pessoas sem formação médica, mas com um discurso de autoridade. Depoimentos pessoais acabam soando mais convincentes do que dados científicos, sobretudo em plataformas que privilegiam emoção, identificação e estética.
A análise mostrou ainda que apenas dois dos vídeos mais populares citavam estudos científicos reais — um retrato claro do abismo entre a narrativa viral e o conhecimento acadêmico.
O que a ciência conclui até agora
Apesar do entusiasmo nas redes, a evidência científica disponível sobre mouth taping é limitada, fragmentada e insuficiente. Os estudos existentes têm amostras pequenas, metodologias variadas e resultados inconsistentes.
A conclusão da revisão é clara: ainda é cedo demais para recomendar o mouth taping como uma prática segura ou eficaz para a população geral. Antes de transformar uma tendência estética em hábito noturno, a ciência pede mais dados — e muito mais cautela.
[ Fonte: CNN Brasil ]