O chocolate é um dos alimentos mais populares do planeta, mas sua importância vai muito além das prateleiras dos supermercados. Cerca de 6 milhões de pequenos agricultores dependem do cultivo de cacau, enquanto as mudanças climáticas tornam sua produção cada vez mais imprevisível.
Os consumidores já começaram a sentir os efeitos. Em 2024, o preço do cacau cru triplicou, levando fabricantes a aumentar preços, reduzir o tamanho de produtos ou modificar algumas receitas.
Agora, um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences identificou uma ameaça climática que vinha recebendo menos atenção. Segundo os pesquisadores, chuvas excessivas podem representar o maior risco climático para a produtividade do cacau nas principais regiões produtoras.
O problema pode ser água demais
O cacau é cultivado principalmente em regiões tropicais úmidas. As árvores estão acostumadas a temperaturas elevadas, períodos de chuva abundante e pequenas estações secas.
O problema aparece quando essas condições chegam aos extremos.
Durante muito tempo, calor intenso e seca foram considerados algumas das principais ameaças climáticas à produção. Anna Lea Albright, pesquisadora que liderou o novo trabalho durante seu período no Centro para o Meio Ambiente da Universidade Harvard, e seus colegas decidiram analisar o problema de outra forma.
A equipe comparou registros de produção de cacau em diferentes distritos de Gana com dados diários de temperatura e precipitação.
O resultado surpreendeu: as chuvas intensas apresentaram a relação mais forte com a redução da produtividade.
Água demais pode interferir na floração e no desenvolvimento das vagens jovens. Além disso, ambientes excessivamente úmidos favorecem doenças provocadas por fungos.
O momento da chuva faz toda a diferença
Não é apenas a quantidade de água que importa. O período em que ela cai pode ser ainda mais importante.
As plantas de cacau apresentam diferentes níveis de sensibilidade ao longo do ano. Chuvas muito fortes durante a floração ou no início do desenvolvimento das vagens podem causar danos maiores do que a mesma quantidade de água em outra fase.
Em Gana, por exemplo, o período mais delicado ocorre entre abril e junho. É justamente nessa estação chuvosa que as árvores florescem e as primeiras vagens começam a se formar.
Mais tarde, entre novembro e fevereiro, surge o problema oposto. Durante a estação seca, pouca chuva também pode prejudicar o desenvolvimento das vagens.
Os pesquisadores encontraram padrões semelhantes no Equador e na Indonésia. Em ambos os países, anos marcados por chuvas mais intensas durante a estação úmida estiveram associados a maiores perdas na produção.
Mudanças climáticas podem intensificar as chuvas
O aquecimento global está modificando tanto a intensidade quanto a distribuição das chuvas nas regiões produtoras.
A cada aumento de aproximadamente 1 °C na temperatura global, a atmosfera consegue armazenar cerca de 7% mais vapor de água. Isso não significa que choverá mais em todos os lugares, mas aumenta a possibilidade de episódios de precipitação intensa.
A situação preocupa especialmente na África Ocidental, responsável por cerca de 70% do cacau produzido mundialmente.
Nas últimas décadas, os episódios mais intensos de chuva durante a estação úmida ficaram ainda mais fortes em partes da região.
Fenômenos naturais como o El Niño também interferem nesse cenário, mas de maneiras diferentes dependendo do local. Na África Ocidental, ele tende a diminuir o risco de chuvas excessivas e aumentar a possibilidade de seca. No Equador, por outro lado, costuma favorecer condições mais úmidas.
Prever a chuva pode ajudar a salvar parte da produção
Existe uma vantagem importante em identificar a chuva intensa como um dos principais riscos: ela pode ser prevista com alguma antecedência.
Se agricultores souberem que grandes volumes de chuva chegarão durante a floração ou o desenvolvimento inicial das vagens, podem reforçar sistemas de drenagem e adotar medidas preventivas contra doenças.
O desafio de longo prazo é maior.
Modelos climáticos ainda apresentam dificuldades para representar com precisão os padrões de chuva da África Ocidental. Isso torna mais complicado prever exatamente como a produção responderá às próximas décadas de aquecimento.
Além disso, o cacau é uma cultura perene. Diferentemente de plantações que podem ser substituídas de uma temporada para outra, os cacaueiros permanecem produzindo durante muitos anos.
Por isso, decisões tomadas hoje podem determinar a produtividade das próximas décadas. Se episódios extremos de chuva se tornarem mais frequentes, os agricultores precisarão descobrir como adaptar suas plantações rapidamente.
Para quem gosta de chocolate, a conclusão também importa: o futuro desse alimento pode depender não apenas de quanto o planeta esquenta, mas também de quando — e com que intensidade — a chuva cai sobre as regiões onde o cacau é cultivado.