Pular para o conteúdo
Ciência

Mulher de 50 anos recebe terapia inovadora contra o Parkinson no Japão: o que acontece agora?

Uma paciente recebeu alta após um procedimento experimental que busca recuperar funções perdidas pelo cérebro. O avanço abre novas possibilidades, mas ainda precisa superar uma etapa decisiva.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, os tratamentos para a doença de Parkinson se concentraram principalmente em aliviar os sintomas provocados pela perda progressiva de neurônios. Agora, uma abordagem desenvolvida no Japão tenta enfrentar o problema de outra maneira. Uma mulher na faixa dos 50 anos passou por um procedimento que representa um novo capítulo da medicina regenerativa. A cirurgia foi concluída e a paciente deixou o hospital, mas o resultado mais importante ainda não pode ser medido.

Uma cirurgia no Japão marca uma nova etapa no tratamento do Parkinson

O Hospital Universitário de Kyoto realizou, em outubro de 2026, um transplante de células derivadas de células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como células iPS.

O procedimento foi confirmado pela instituição em 30 de outubro e faz parte de um programa clínico iniciado após a autorização condicional de uma nova terapia.

A paciente, uma mulher com aproximadamente 50 anos, apresentou evolução pós-operatória favorável e recebeu alta hospitalar.

Entretanto, isso não significa que seus sintomas tenham melhorado.

O tratamento, chamado Amchepry, foi desenvolvido pela farmacêutica Sumitomo Pharma em colaboração com instituições científicas japonesas.

Em 6 de março de 2026, as autoridades do Japão concederam uma autorização condicional à terapia, permitindo sua utilização em circunstâncias específicas enquanto novas evidências são coletadas.

A intervenção representa o primeiro transplante dentro dessa etapa posterior à autorização.

Não se trata, porém, do primeiro procedimento semelhante realizado em humanos: pesquisadores japoneses já haviam testado a tecnologia em sete pacientes durante um estudo clínico anterior.

O objetivo é substituir células cerebrais que desaparecem com a doença

O Parkinson está associado à degeneração progressiva de neurônios responsáveis pela produção de dopamina, substância essencial para o controle dos movimentos.

Com a redução desses neurônios, podem surgir tremores, rigidez muscular, lentidão e dificuldades para caminhar.

Os medicamentos disponíveis conseguem aliviar diversos sintomas, mas não recuperam diretamente as células nervosas perdidas.

A nova abordagem japonesa procura modificar essa situação.

Os cientistas utilizam células adultas reprogramadas para adquirir características de células-tronco pluripotentes.

Posteriormente, elas são transformadas em precursoras de neurônios produtores de dopamina.

Essas células são implantadas cirurgicamente no putâmen, região cerebral envolvida no controle motor.

A expectativa é que amadureçam, sobrevivam e contribuam para restaurar parte da atividade dopaminérgica.

Entretanto, a capacidade de produzir dopamina não garante, por si só, uma melhora clínica duradoura.

É justamente essa relação entre sobrevivência celular e recuperação funcional que os pesquisadores precisam demonstrar.

Um estudo anterior apresentou resultados animadores, mas ainda limitados

A nova etapa se apoia em uma pesquisa de fase I/II publicada na revista científica Nature, em abril de 2025.

Na ocasião, sete pacientes com idades entre 50 e 69 anos receberam transplantes de células derivadas de iPS.

Os participantes foram acompanhados durante dois anos.

Os pesquisadores não identificaram eventos adversos graves relacionados ao procedimento e observaram melhoras motoras em quatro dos seis pacientes avaliáveis por uma das escalas utilizadas.

Exames de imagem também indicaram aumento da atividade relacionada à produção de dopamina.

Esses resultados foram considerados promissores, principalmente por oferecerem sinais iniciais de segurança e possível benefício.

Contudo, o número reduzido de participantes impede conclusões definitivas sobre a eficácia do tratamento.

A verdadeira prova será acompanhar os pacientes durante anos

A autorização japonesa é limitada e condicionada, destinada a situações nas quais os sintomas motores não respondem adequadamente aos medicamentos disponíveis.

Isso não equivale à aprovação irrestrita de uma cura.

Segundo os planos divulgados pela Sumitomo Pharma, o acompanhamento posterior à autorização deverá incluir aproximadamente 35 pacientes nos próximos anos.

Os pesquisadores precisarão avaliar a evolução dos sintomas, a duração dos possíveis benefícios e a segurança das células transplantadas.

Também será necessário observar se os neurônios implantados permanecem funcionais ao longo do tempo.

A Fundação Michael J. Fox destacou a importância dessa autorização para a medicina regenerativa, mas ressaltou a necessidade de novas avaliações.

Por enquanto, a terapia não está amplamente disponível fora do Japão.

O avanço representa uma possibilidade importante: tratar não apenas as consequências da perda neuronal, mas tentar recuperar parte da função comprometida.

Ainda não existe comprovação de que o procedimento cure o Parkinson. A alta da primeira paciente dessa nova etapa confirma um resultado pós-operatório favorável, enquanto a eficácia de longo prazo continua em investigação.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados