Viajar de avião se tornou indispensável para o turismo, os negócios e o transporte de mercadorias. Mas existe um problema difícil de resolver: as aeronaves comerciais dependem de enormes quantidades de combustível e produzem emissões que contribuem para o aquecimento global. Enquanto aviões elétricos ainda enfrentam limitações tecnológicas, a Europa aposta em uma alternativa que já funciona nos motores atuais e apresenta resultados promissores.
O combustível que pode transformar a aviação já está sendo utilizado
A alternativa é conhecida como SAF (Sustainable Aviation Fuel), ou combustível sustentável de aviação.
Diferentemente do querosene convencional, produzido principalmente a partir do petróleo, o SAF pode ser fabricado utilizando matérias-primas alternativas e processos industriais específicos.
Entre os materiais empregados estão óleos de cozinha usados, gorduras residuais e determinados resíduos agrícolas e florestais.
Também existem rotas de produção de combustíveis sintéticos que combinam hidrogênio com dióxido de carbono capturado.
Uma das principais vantagens é a possibilidade de utilizar SAF em aeronaves existentes, desde que o produto cumpra as especificações técnicas e os limites autorizados de mistura.
Isso permite reduzir parte do impacto climático sem esperar pelo desenvolvimento de uma geração completamente nova de aviões.
Segundo o Relatório Técnico Anual ReFuelEU Aviation 2026, da Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), aproximadamente 1,1 milhão de toneladas de SAF foram utilizadas nos aeroportos europeus durante 2025.
Esse volume representou 2,79% do combustível de aviação declarado.
Embora ainda seja uma participação pequena, o crescimento demonstra que a tecnologia começou a ganhar escala comercial.
Como esse combustível consegue reduzir tanto as emissões?
O principal benefício do SAF aparece quando os pesquisadores analisam todo o ciclo de vida do combustível.
Isso inclui a origem das matérias-primas, o processamento industrial, o transporte e a utilização final nas aeronaves.
É importante destacar que aviões abastecidos com SAF continuam emitindo dióxido de carbono durante o voo.
Portanto, não se trata de um combustível que elimina automaticamente a poluição ou torna a aviação neutra em carbono.
A diferença está nas emissões totais associadas à produção e ao consumo.
De acordo com os dados da EASA, o SAF fornecido na União Europeia em 2025 apresentou uma redução média ponderada de aproximadamente 89% nas emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida, em comparação com o combustível convencional.
Essa utilização representou uma economia estimada de 3,77 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
Entretanto, o desempenho ambiental não é igual para todos os combustíveis sustentáveis.
Os resultados dependem das matérias-primas, da energia utilizada na fabricação e das características de cada processo produtivo.
A Europa estabeleceu metas ambiciosas para os próximos anos
A União Europeia pretende acelerar a adoção do SAF por meio do regulamento ReFuelEU Aviation.
A legislação estabelece percentuais mínimos progressivos de combustível sustentável no abastecimento da aviação.
Desde 2025, a exigência inicial é de 2%.
Esse percentual deverá subir para 6% em 2030 e alcançar 70% em 2050.
O objetivo é estimular investimentos, ampliar a capacidade industrial e reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis.
A Espanha já participa desse movimento.
Em 2024, a Repsol inaugurou uma instalação em Cartagena com capacidade de produzir 250 mil toneladas anuais de combustíveis renováveis, incluindo SAF e diesel renovável.
Companhias aéreas como Iberia, Vueling e Ryanair também estabeleceram acordos de fornecimento para ampliar a utilização dessas alternativas.
Apesar dos avanços, transformar o SAF em uma opção amplamente disponível ainda exige superar obstáculos consideráveis.

O maior problema é que o combustível sustentável custa muito mais caro
Os números divulgados pela EASA mostram uma diferença econômica significativa.
Em 2025, o preço médio de referência do SAF foi de aproximadamente 1.925 euros por tonelada.
No mesmo período, o combustível convencional custava cerca de 640 euros por tonelada.
Isso significa que a alternativa sustentável era aproximadamente três vezes mais cara.
Essa diferença dificulta sua adoção em larga escala, especialmente em um setor no qual o combustível representa uma parcela importante dos custos operacionais.
Outro desafio envolve a disponibilidade de matérias-primas.
Segundo o relatório, 85,1% das matérias-primas utilizadas na produção do SAF fornecido à União Europeia vieram de fora do bloco.
Essa dependência cria dificuldades relacionadas à segurança do abastecimento, aos custos logísticos e à expansão sustentável da produção.
O SAF pode ser o futuro da aviação?
O combustível sustentável representa uma das alternativas disponíveis atualmente para reduzir as emissões climáticas da aviação comercial.
Sua principal vantagem é permitir avanços utilizando grande parte da infraestrutura e das aeronaves existentes.
Entretanto, o SAF não elimina todas as emissões, tampouco resolve sozinho os impactos ambientais do transporte aéreo.
Para ampliar sua utilização, será necessário reduzir os custos de fabricação, diversificar as matérias-primas e desenvolver novas rotas de produção.
A experiência europeia mostra que essa transição já começou.
O desafio agora é transformar uma solução tecnicamente viável em uma alternativa economicamente acessível e disponível em quantidades suficientes para atender à demanda mundial.