Depois de observar um eclipse solar total, é difícil não pensar na extraordinária coincidência cósmica necessária para que ele aconteça. A Lua consegue encobrir praticamente todo o disco do Sol enquanto sua atmosfera externa, a coroa solar, permanece visível ao redor.
Parece algo perfeitamente calculado. Mas não é.
Na verdade, se as órbitas fossem círculos perfeitos, provavelmente não teríamos eclipses solares totais. É justamente a combinação das órbitas elípticas da Terra e da Lua que permite que, em determinados momentos, os dois astros apresentem praticamente o mesmo tamanho aparente no céu.
Na maior parte do tempo, a Lua é pequena demais

Vista do centro da Terra, a Lua apresenta um diâmetro aparente médio de aproximadamente 31,08 minutos de arco. O Sol chega a cerca de 31,99 minutos.
Em média, portanto, a Lua parece aproximadamente 3% menor.
A situação muda porque as distâncias não permanecem constantes. Ao longo da órbita terrestre, o tamanho aparente do Sol varia aproximadamente entre 31,45 e 32,52 minutos de arco.
Com a Lua, a diferença é ainda maior.
Quando está no apogeu, seu ponto mais distante da Terra, ela pode apresentar cerca de 29,37 minutos de arco. No perigeu, quando está mais próxima, pode alcançar aproximadamente 33,51.
É essa variação que decide o espetáculo.
Quando a Lua parece suficientemente grande, ocorre um eclipse total. Quando seu disco é pequeno demais para esconder completamente o Sol, surge um eclipse anular, deixando o famoso “anel de fogo” no céu.
Eclipses totais são minoria
Essa coincidência é tão delicada que eclipses solares totais representam apenas uma parcela dos eventos possíveis.
No catálogo de cinco milênios elaborado pelos astrônomos Fred Espenak e Jean Meeus aparecem 11.898 eclipses solares.
Desse total, aproximadamente 26,7% são eclipses totais. Outros 33,3% são anulares, enquanto os restantes correspondem principalmente a eclipses parciais e híbridos.
A diferença de poucos pontos percentuais entre os tamanhos aparentes do Sol e da Lua pode, portanto, transformar completamente aquilo que vemos da superfície terrestre.
Marte mostra como nossa situação é especial

Para entender melhor essa coincidência, basta olhar para Marte.
Visto da superfície marciana, o Sol parece menor do que na Terra. Seu tamanho aparente é de aproximadamente 0,35 grau, contra cerca de 0,53 grau observado daqui.
Em princípio, deveria ser mais fácil encobri-lo.
O problema são as luas marcianas.
Fobos, a maior das duas no céu de Marte, é pequena demais para cobrir completamente o disco solar. Quando passa diante do Sol, produz um trânsito extremamente rápido e bastante diferente dos eclipses totais observados na Terra.
Alguns desses eventos duram apenas cerca de 30 segundos.
Existem outros lugares do Sistema Solar onde satélites naturais conseguem ocultar completamente o Sol, incluindo regiões de sistemas como Júpiter e Saturno. Mesmo assim, reproduzir exatamente a experiência terrestre, com o disco solar coberto enquanto a coroa aparece ao redor, exige uma combinação muito específica de tamanho e distância.
Essa coincidência não vai durar para sempre
A configuração atual também tem prazo de validade.
A Lua está lentamente se afastando da Terra a uma velocidade média próxima de quatro centímetros por ano. Pode parecer insignificante, mas bilhões de anos transformam centímetros em enormes diferenças astronômicas.
No passado distante, a situação era completamente diferente.
Há cerca de 3,2 bilhões de anos, o disco lunar visto da Terra podia parecer mais de duas vezes maior que o Sol. Os eclipses daquela época seriam muito diferentes dos atuais: a Lua esconderia uma região muito maior ao redor do disco solar, dificultando inclusive a observação da coroa próxima ao Sol.
À medida que nosso satélite continua se afastando, acontecerá justamente o contrário.
Um dia acontecerá o último eclipse solar total
Chegará um momento em que a Lua estará distante demais para parecer suficientemente grande no céu.
Mesmo durante seus maiores tamanhos aparentes, ela já não conseguirá encobrir completamente o Sol. A partir daí, eclipses anulares ainda poderão acontecer, mas os eclipses solares totais desaparecerão.
As estimativas colocam essa mudança em uma escala de aproximadamente 1 bilhão de anos, com valores que variam dependendo dos modelos utilizados.
Não precisamos, portanto, começar uma contagem regressiva.
Mas existe algo fascinante nessa coincidência temporal. Vivemos em uma época da história da Terra na qual a Lua está distante o suficiente para deixar a coroa solar aparecer, mas ainda próxima o bastante para esconder o disco brilhante do Sol.
Marte ajuda a colocar isso em perspectiva.
Eclipses podem ser explicados perfeitamente pela geometria orbital. O extraordinário é termos aparecido justamente em uma época cósmica em que essa geometria produz um dos espetáculos mais impressionantes que podem ser vistos da superfície de um planeta.
[ Fonte: Xataka ]