Se você já tomou um comestível de cannabis ou uma taça de vinho para tentar dormir, não está sozinho. Segundo uma nova pesquisa da Universidade de Michigan, cerca de 22% dos jovens americanos entre 19 e 30 anos já recorreram à maconha ou ao álcool como auxílio para pegar no sono.
Os resultados, publicados na revista JAMA Pediatrics, reforçam uma tendência crescente: a de usar substâncias recreativas como atalhos para o descanso. Embora funcionem inicialmente, os cientistas alertam que o uso frequente pode agravar os distúrbios do sono e levar à dependência.
O estudo que mediu a insônia entre os jovens
A pesquisa utilizou dados do Monitoring the Future Panel Study, um projeto nacional que acompanha adolescentes e jovens adultos americanos desde os anos 1970. Nesta edição, foram analisadas respostas de quase 1.500 participantes.
Os resultados mostraram que 18% usaram cannabis e 7% recorreram ao álcool especificamente para dormir no último ano. Entre os usuários frequentes de maconha, 41% afirmaram utilizá-la ocasionalmente para induzir o sono, enquanto apenas 9% dos consumidores regulares de álcool relataram o mesmo.
A tendência é ainda mais forte entre aqueles que consomem essas substâncias diariamente — um sinal de que o hábito pode rapidamente se tornar uma necessidade.
Por que maconha e álcool ajudam — e depois atrapalham
Tanto o álcool quanto a cannabis podem ajudar a adormecer por seus efeitos sedativos e relaxantes. O problema é o que vem depois.
Com o uso contínuo, o corpo cria tolerância, exigindo doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito. Isso aumenta o risco de dependência química e perturbações no ciclo natural do sono, especialmente na fase REM, essencial para o descanso mental.
Além disso, ao interromper o uso, muitos relatam insônia de rebote — dificuldade para dormir justamente por abstinência. Ou seja, o remédio temporário se transforma em parte do problema.
Os pesquisadores lembram que a privação de sono é comum: cerca de 30% dos adultos nos Estados Unidos têm dificuldades para dormir, e entre jovens de 20 a 39 anos, o índice chega a 23%. Diante disso, o recurso a substâncias parece compreensível, mas é uma solução com efeito colateral garantido.
O que os médicos devem observar
Para os autores do estudo, é essencial que médicos e profissionais de saúde estejam atentos à relação entre uso de substâncias e distúrbios do sono.
“Conscientizar os clínicos sobre a interseção comum entre uso de drogas e problemas de sono entre jovens adultos é fundamental para o diagnóstico precoce e o desenvolvimento de intervenções eficazes”, escreveram os pesquisadores.
Eles defendem que o tema seja tratado como questão de saúde pública, e não apenas como comportamento recreativo. Entender por que tantas pessoas buscam substâncias para dormir pode ajudar a desenvolver terapias comportamentais e farmacológicas mais seguras.
Dormir sem depender de substâncias
Especialistas recomendam priorizar medidas de higiene do sono, como manter horários regulares, reduzir o uso de telas à noite e evitar cafeína e álcool nas horas que antecedem o descanso. Técnicas de relaxamento e respiração, meditação guiada e exercícios leves também podem contribuir para adormecer naturalmente.
Embora o uso de maconha e álcool para dormir possa parecer inofensivo, a ciência reforça: o alívio é passageiro — e o preço, alto.