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Tecnologia

A energia solar acaba de ganhar um território improvável: o fundo do mar

A luz desaparece rapidamente à medida que desce pelo oceano, mas pesquisadores encontraram uma maneira de aproveitar justamente a pequena parcela que consegue chegar mais fundo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine tentar produzir eletricidade em um lugar onde a própria fonte de energia começa a desaparecer poucos centímetros depois de entrar na água. É exatamente esse o desafio enfrentado por pesquisadores que desenvolveram uma nova célula solar pensada não para telhados ou usinas, mas para o ambiente submarino. O resultado surpreendeu nos testes: o dispositivo conseguiu produzir energia suficiente para alimentar e recarregar baterias de equipamentos submersos.

O problema começa assim que a luz entra na água

A luz solar não se comporta da mesma maneira dentro do oceano. Assim que atravessa a superfície, parte da radiação é absorvida e outra parte é espalhada pela água.

As diferentes cores também não conseguem avançar igualmente. A luz vermelha desaparece relativamente rápido, enquanto comprimentos de onda azulados e esverdeados conseguem penetrar muito mais profundamente.

Isso cria um problema para os painéis solares convencionais. Eles são projetados para aproveitar uma faixa ampla do espectro luminoso disponível na superfície, mas boa parte dessa energia simplesmente não existe mais alguns metros abaixo da água.

A solução, portanto, não seria necessariamente criar um painel mais potente. Seria criar um dispositivo capaz de trabalhar especificamente com a luz que ainda resta.

Foi justamente essa abordagem adotada por uma equipe liderada por Wen-Hua Zhang, da Universidade de Yunnan e da Escola de Pós-Graduação Conjunta do Sudoeste da China.

Os pesquisadores desenvolveram uma célula solar de perovskita de haleto de chumbo com uma banda proibida de aproximadamente 1,96 elétron-volt. A estrutura foi ajustada para aproveitar melhor o espectro azul-laranja que consegue atravessar a água.

Mas havia outro obstáculo: não bastava produzir energia. O dispositivo também precisava sobreviver a um ambiente extremamente agressivo.

Uma perovskita preparada para enfrentar o mar

As células de perovskita são promissoras para aplicações solares, mas a umidade é um de seus principais inimigos.

Para tentar resolver esse problema, os pesquisadores utilizaram um composto chamado cloridrato de polihexametilenoguanidina, ou PHMG. O aditivo modifica as propriedades elétricas do material e ajuda a melhorar a extração de elétrons.

Além disso, a estratégia reduz a migração de íons de haleto e diminui a quantidade de defeitos existentes na estrutura cristalina. Esses mecanismos são importantes porque podem retardar processos que degradariam rapidamente a célula em condições úmidas.

Primeiro, os pesquisadores recriaram em laboratório as condições de iluminação encontradas em diferentes profundidades utilizando filtros ópticos.

Em uma simulação equivalente a 10 metros de profundidade, a célula alcançou 34,71% de eficiência na conversão da luz que efetivamente chegava ao dispositivo.

Depois veio o teste que realmente colocaria a tecnologia à prova.

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© Freepik

O painel saiu do laboratório e foi para o mar

Os pesquisadores construíram módulos maiores e os instalaram em robôs submarinos. Os equipamentos foram testados em condições reais próximas às ilhas Weizhou, no mar da China Meridional.

Durante uma experiência de duas horas a 10 metros de profundidade, o módulo produziu 324 miliwatt-hora de eletricidade.

A quantidade pode parecer pequena quando comparada à produção de um painel solar convencional. Mas essa não é a comparação correta.

A proposta não é abastecer casas, fábricas ou grandes instalações. O objetivo é gerar pequenas quantidades de energia diretamente onde equipamentos submarinos precisam dela.

E os testes revelaram outro detalhe curioso.

Os dispositivos instalados a 2, 6 e 10 metros apresentaram comportamentos diferentes. Mais perto da superfície, as ondas provocavam variações maiores na iluminação e, consequentemente, na potência produzida.

A 10 metros havia menos luz disponível, mas a iluminação era mais uniforme devido à dispersão dentro da água. Para determinados equipamentos eletrônicos, essa estabilidade pode ser mais interessante do que simplesmente receber uma quantidade maior de energia.

Robôs, sensores e uma possível nova fonte de energia

Depois de 1.160 horas em condições simuladas equivalentes a 10 metros de profundidade, os dispositivos apresentaram pouca degradação.

Em outro experimento, após 300 dias armazenados em uma atmosfera de nitrogênio, eles mantiveram cerca de 96% da eficiência inicial.

Com base nos dados de degradação, os pesquisadores projetaram uma vida operacional de aproximadamente 5,5 anos, considerando como limite 80% do desempenho original.

É importante destacar que esse número é uma projeção estatística, e não significa que um painel já tenha funcionado continuamente durante cinco anos e meio no fundo do mar.

Na prática, a tecnologia poderia ser usada para alimentar sensores de temperatura, salinidade e oxigênio, câmeras, sistemas de comunicação, estruturas de aquicultura e pequenos veículos submarinos autônomos.

Isso poderia reduzir a necessidade de retirar equipamentos da água para trocar ou recarregar baterias.

O próximo desafio será descobrir até que profundidade essas células continuam sendo úteis e estabelecer métodos padronizados para comparar seu desempenho e durabilidade.

A grande inovação, portanto, não está em fazer um painel solar competir com os modelos tradicionais. Está em transformar a pouca luz que sobrevive debaixo d’água em uma fonte de energia utilizável, algo que pode mudar a autonomia de equipamentos que passam meses ou anos longe da superfície.

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