Durante anos, os celulares ficaram mais finos, elegantes e poderosos — mas também muito mais difíceis de consertar. Uma bateria desgastada ou uma porta USB quebrada pode transformar um aparelho perfeitamente funcional em lixo eletrônico. Agora, alguns fabricantes estão recuperando uma ideia que parecia abandonada: smartphones feitos para serem abertos, desmontados e reparados pelo próprio usuário. E alguns conseguem fazer isso com apenas uma chave de fenda.
A grande inovação agora é conseguir abrir o celular

A indústria passou anos tentando esconder parafusos.
Baterias foram coladas, tampas passaram a ser seladas e componentes ficaram integrados em estruturas cada vez mais difíceis de desmontar. O resultado é conhecido: determinadas reparações podem custar tanto que trocar o celular parece mais razoável.
Os smartphones reparáveis tentam inverter essa lógica.
Neles, bateria, câmera, tela e porta USB-C podem funcionar como módulos independentes. Em alguns casos, basta remover alguns parafusos para acessar praticamente todo o aparelho.
A proposta cobra seu preço. Esses modelos podem ser mais grossos e custar cerca de 20% a 30% mais que aparelhos convencionais equivalentes, segundo a reportagem original.
Mas a ideia é recuperar esse investimento com o tempo.
Quando a bateria perder capacidade, troca-se a bateria. Se a tela quebrar, substitui-se a tela.
Não o celular inteiro.
Um deles permite trocar 12 componentes

Um dos exemplos mais ambiciosos é o Fairphone Gen 6+.
O aparelho possui 12 módulos substituíveis pelo próprio usuário, incluindo bateria, tela, porta USB-C e tampa traseira. A fabricante afirma que alguns desses componentes podem ser trocados em menos de cinco minutos usando uma chave Torx T5.
A filosofia de longevidade também aparece no software.
O modelo tem suporte previsto até 2033, garantia de cinco anos e disponibilidade planejada de peças por mais de oito anos.
No hardware, traz Snapdragon 7s Gen 4, 12 GB de RAM e bateria removível de 4.415 mAh.
É quase o oposto do conceito tradicional de smartphone premium: em vez de esconder seu interior, ele foi projetado justamente para permitir que o usuário chegue até ele.
Há até um celular que abre com um único parafuso
O HMD Skyline leva a ideia por outro caminho.
Um parafuso Torx próximo à porta de carregamento permite liberar a parte traseira e acessar componentes como bateria, tela e USB-C.
A montagem da tela evita o uso excessivo de cola, facilitando sua substituição.
Há ainda o Samsung Galaxy XCover 7, criado principalmente para ambientes profissionais e situações mais exigentes.
Nesse caso, a solução lembra os celulares antigos: a tampa traseira pode ser retirada e a bateria removida sem ferramentas. O aparelho também possui proteção IP68 e certificação MIL-STD-810H.
A prioridade desses aparelhos não é ganhar a competição pelo celular mais fino.
É continuar funcionando por mais tempo.
Um modelo pode até desligar fisicamente câmera e microfone
Existe também uma vertente mais próxima da cultura maker e do software livre.
O SHIFTphone 8.1, por exemplo, possui construção modular e dois interruptores físicos capazes de interromper a alimentação elétrica das câmeras e dos microfones.
Isso significa que a desativação não depende apenas de uma opção dentro do sistema operacional.
O modelo combina essa abordagem com bateria intercambiável e iodéOS, versão modificada do Android com foco maior em privacidade.
Já o Murena Teracube 2s aposta em outra combinação: construção reparável, bateria removível e /e/OS, sistema baseado no Android que funciona sem os serviços tradicionais do Google.
São celulares pensados para um público que deseja controlar não apenas quais aplicativos instala, mas também as próprias peças do aparelho.
Até celulares ultrafinos podem entrar nessa história
Modularidade normalmente significa aparelhos mais espessos.
Mas essa regra também começa a ser desafiada.
Durante o Mobile World Congress 2026, a TECNO apresentou um conceito de smartphone modular com apenas 4,9 milímetros de espessura.
A traseira possui oito zonas magnéticas nas quais podem ser encaixados acessórios como bateria adicional, teleobjetiva, câmera de ação ou alto-falante.
O conceito ainda não está à venda. Mesmo assim, mostra uma possibilidade interessante: talvez celulares modulares não precisem necessariamente parecer equipamentos robustos ou experimentais.
O celular do futuro pode acabar lembrando o do passado
Existe uma ironia nessa tendência.
Durante anos, remover a bateria com as próprias mãos era algo absolutamente normal.
Depois, isso praticamente desapareceu dos smartphones modernos.
Agora, reparabilidade e longevidade estão voltando a ser argumentos de venda.
E existe uma razão ambiental importante: prolongar a vida útil de um aparelho significa adiar a fabricação e o descarte de outro.
Ainda existem obstáculos. Peças precisam continuar disponíveis durante anos, atualizações de software precisam acompanhar a longevidade física e os preços desses aparelhos precisam se tornar mais competitivos.
Mas modelos como o Fairphone mostram que já é possível construir um smartphone moderno no qual tela, bateria e porta de carregamento não precisam estar condenadas a permanecer juntas para sempre.
Talvez o avanço mais interessante dos próximos celulares não seja uma câmera com mais megapixels ou um processador ligeiramente mais rápido.
Pode ser algo muito mais simples: abrir a tampa, trocar a peça quebrada e continuar usando o mesmo aparelho.
[Fonte: Todobasquet]