A adolescência costuma ser apontada como uma das fases mais desafiadoras da vida. Mudanças emocionais, comportamentais e cognitivas transformam a maneira como os jovens enxergam o mundo e se relacionam com a família. Mas, segundo especialistas, o que acontece dentro de casa pode ter um peso ainda maior do que muitos pais imaginam. Um neurocientista alerta que certos comportamentos dos adultos exercem uma influência silenciosa, mas poderosa, sobre o cérebro em desenvolvimento dos adolescentes.
O que a ciência descobriu sobre o cérebro dos adolescentes

Durante décadas, acreditou-se que a adolescência terminava por volta dos 18 ou 20 anos. No entanto, pesquisas mais recentes vêm questionando essa ideia. Um estudo realizado pela Universidade de Cambridge e publicado na revista científica Nature Communications sugere que importantes transformações cerebrais continuam ocorrendo muito além dessa fase tradicional.
Os pesquisadores identificaram cinco grandes etapas no desenvolvimento do cérebro humano ao longo da vida. Entre elas, destacam-se dois momentos considerados cruciais para a reorganização da mente: um por volta dos 9 anos de idade e outro próximo dos 32 anos.
Essa descoberta ajuda a explicar por que muitos jovens adultos ainda apresentam comportamentos frequentemente associados à adolescência. O cérebro continua ajustando suas conexões neurais, refinando processos cognitivos e desenvolvendo mecanismos ligados à tomada de decisões, ao autocontrole e à gestão emocional.
Para alguns especialistas, essa espécie de “adolescência prolongada” pode ajudar a compreender mudanças culturais observadas nas últimas décadas, incluindo a relação intensa com a tecnologia e as redes sociais.
Nesse contexto, o papel dos pais e responsáveis ganha ainda mais importância. Afinal, o ambiente familiar continua exercendo influência sobre o cérebro durante um período muito mais longo do que se imaginava anteriormente.
O comportamento dos pais que mais chamou atenção dos especialistas
O neurocientista David Bueno, professor da Universidade de Barcelona e especialista em genética do desenvolvimento, acredita que muitos adultos estão focando no problema errado quando o assunto é tecnologia e adolescência.
Segundo ele, o impacto causado pelo comportamento dos pais pode ser maior do que o próprio tempo de tela dos filhos.
Durante participação no podcast El Consultori, Bueno afirmou que as horas que os adolescentes observam os adultos usando o celular diante deles podem influenciar mais o cérebro em desenvolvimento do que o número de horas que eles próprios passam conectados.
A observação chama atenção porque desloca o foco do debate. Em vez de olhar apenas para o acesso dos jovens aos dispositivos eletrônicos, o especialista sugere analisar como os adultos utilizam essas ferramentas na convivência diária.
Ele destaca situações cada vez mais comuns dentro das famílias. Muitos adolescentes chegam da escola e encontram pais ou responsáveis concentrados em mensagens, redes sociais ou aplicativos. Frequentemente, não há conversa, contato visual ou interação imediata.
Embora pareça um comportamento inofensivo, esse padrão pode transmitir uma mensagem poderosa para o cérebro dos jovens: a de que a conexão digital ocupa um espaço prioritário em relação às relações presenciais.
As mudanças cerebrais que transformam a relação entre pais e filhos
Para entender por que a adolescência costuma gerar tantos conflitos familiares, David Bueno aponta três regiões cerebrais que passam por mudanças profundas nesse período.
A primeira é a amígdala, estrutura ligada às emoções. Durante a adolescência, ela se torna mais sensível e reativa, aumentando a intensidade das respostas emocionais.
A segunda é o córtex pré-frontal, responsável por funções como planejamento, reflexão, tomada de decisões e controle emocional. Essa área ainda está em desenvolvimento durante muitos anos, o que ajuda a explicar comportamentos impulsivos ou mudanças bruscas de humor.
A terceira região é o estriado, associado às sensações de recompensa, prazer e bem-estar.
Segundo o neurocientista, essas transformações alteram até mesmo a forma como os adolescentes interpretam as interações familiares.
Ele explica que uma criança costuma associar a voz da mãe ou do pai a sensações de conforto e segurança. Já durante a adolescência, o mesmo estímulo pode ser processado de forma diferente, ativando mecanismos emocionais mais ligados à defesa e à percepção de ameaça.
Esse fenômeno ajuda a entender por que discussões aparentemente simples podem ganhar proporções inesperadas nessa fase da vida.
Por que a atenção dos pais continua sendo essencial
Apesar das dificuldades naturais da adolescência, os especialistas defendem que o afastamento não é a solução.
Pelo contrário. O período em que o cérebro continua reorganizando suas conexões neurais é justamente aquele em que a presença dos pais pode fazer mais diferença.
Os pesquisadores de Cambridge observam que o cérebro segue aprimorando sua eficiência até o final da terceira década de vida. Em muitos casos, esse refinamento cognitivo só se estabiliza por volta dos 29 anos.
Além disso, essa fase coincide com o período de maior vulnerabilidade ao surgimento de diversos transtornos de saúde mental. Ansiedade, depressão e outras condições frequentemente aparecem durante essa longa etapa de desenvolvimento.
Por isso, especialistas defendem que os pais estejam atentos não apenas ao comportamento dos filhos, mas também ao próprio exemplo que oferecem diariamente.
Mais do que controlar o uso do celular dos adolescentes, a ciência sugere que vale a pena observar quanto tempo dedicamos às telas quando estamos ao lado deles. Em muitos casos, uma conversa, um olhar atento ou alguns minutos de presença genuína podem exercer um impacto muito maior do que imaginamos.
[Fonte: Clarin]