Todo mundo conhece alguém que insiste em defender uma ideia mesmo diante de uma contradição evidente. Durante uma discussão, conseguimos identificar falhas no raciocínio alheio e nos perguntamos como a outra pessoa não percebe algo tão óbvio. Mas existe uma possibilidade desconfortável: talvez façamos exatamente a mesma coisa. A psicologia cognitiva descobriu que nossa capacidade de avaliar argumentos pode mudar dependendo de um detalhe aparentemente irrelevante: quem acredita que os escreveu.
Nosso cérebro tende a acreditar que somos mais objetivos do que os outros
Existe um fenômeno psicológico conhecido como viés do ponto cego, que ajuda a explicar por que percebemos os erros de outras pessoas com mais facilidade do que os nossos.
Em 2002, os pesquisadores Emily Pronin, Daniel Lin e Lee Ross publicaram estudos mostrando que os participantes frequentemente consideravam outras pessoas mais influenciadas por vieses cognitivos do que eles próprios.
Em outras palavras, reconhecemos que os seres humanos cometem erros de julgamento, mas costumamos imaginar que estamos relativamente protegidos deles.
Uma das explicações envolve a maneira como avaliamos nossas decisões.
Quando pensamos sobre nossas próprias escolhas, temos acesso às intenções, justificativas e pensamentos conscientes que as acompanharam.
Isso pode criar uma sensação de transparência: acreditamos compreender perfeitamente por que chegamos a determinada conclusão.
Entretanto, nem todos os processos que influenciam nossas decisões são conscientes.
Como não conseguimos observar diretamente essas influências, podemos interpretar sua ausência em nossos pensamentos como uma indicação de que estamos sendo imparciais.
Com outras pessoas, acontece algo diferente.
Não temos acesso às suas intenções internas da mesma maneira. Por isso, analisamos principalmente seus comportamentos, declarações e argumentos.
Essa diferença cria uma situação curiosa: podemos aplicar critérios mais rigorosos aos outros sem perceber que estamos sendo indulgentes conosco.
E um experimento conseguiu demonstrar isso de uma forma particularmente engenhosa.
Pessoas rejeitaram os próprios argumentos quando acreditaram que eram de outra pessoa
Em um estudo publicado na revista Cognitive Science, Emmanuel Trouche, Petter Johansson, Lars Hall e Hugo Mercier investigaram como as pessoas avaliam seus próprios raciocínios.
Os participantes precisavam resolver problemas e escrever argumentos justificando suas respostas.
Depois, recebiam argumentos supostamente produzidos por outros participantes e deveriam avaliar sua qualidade.
Mas os pesquisadores introduziram uma alteração importante.
Em determinadas situações, mostravam aos participantes seus próprios argumentos, apresentados como se tivessem sido escritos por outra pessoa.
O resultado revelou uma diferença surpreendente.
Entre aqueles que não perceberam a troca, 56% em um experimento e 58% em outro rejeitaram argumentos que eles mesmos haviam elaborado anteriormente.
Além disso, os participantes conseguiam distinguir melhor raciocínios válidos de inválidos quando acreditavam estar avaliando ideias alheias.
Ou seja, o problema não era necessariamente a incapacidade de reconhecer uma falha lógica.
A mesma pessoa conseguia identificá-la quando deixava de enxergar o argumento como algo próprio.
Os pesquisadores relacionaram esse comportamento ao conceito de preguiça seletiva do raciocínio.
A expressão descreve a tendência de sermos menos exigentes ao construir nossas justificativas e mais críticos quando precisamos examinar as justificativas de outras pessoas.
Mas por que nosso pensamento funcionaria dessa maneira?

Talvez o raciocínio humano tenha uma relação profunda com as discussões
Em 2011, os pesquisadores Hugo Mercier e Dan Sperber apresentaram uma hipótese conhecida como teoria argumentativa do raciocínio.
Segundo essa proposta, uma das funções importantes do raciocínio humano seria produzir argumentos para convencer outras pessoas e avaliar os argumentos que recebemos.
Sob essa perspectiva, faria sentido que nosso cérebro funcionasse de maneiras diferentes nessas duas situações.
Quando defendemos uma opinião, procuramos justificativas capazes de sustentá-la.
Quando ouvimos alguém defender outra posição, tendemos a procurar inconsistências, contradições e possíveis falhas.
Essa hipótese também ajuda a compreender o viés de confirmação, nossa tendência de favorecer informações que apoiam aquilo em que já acreditamos.
Isso não significa que a mente humana tenha evoluído exclusivamente para vencer discussões.
A teoria argumentativa continua sendo uma proposta científica debatida, e o raciocínio desempenha diversas funções além da persuasão.
Ainda assim, os experimentos sugerem que o contexto social pode influenciar profundamente nossa capacidade crítica.
Existe uma maneira de enxergar melhor os próprios erros
Uma consequência prática dessas descobertas é que pensar sozinho nem sempre representa a melhor estratégia para identificar falhas.
Ao apresentar nossas ideias a outras pessoas, podemos receber críticas que dificilmente surgiriam durante uma reflexão individual.
Outra possibilidade é realizar um exercício mental simples.
Imagine que o argumento que você está defendendo tenha sido apresentado por alguém com quem costuma discordar.
Você consideraria essa explicação igualmente convincente?
Também pode ajudar a procurar deliberadamente evidências contrárias à própria posição, em vez de reunir apenas informações que a confirmem.
Essas estratégias não eliminam completamente os vieses cognitivos, mas podem tornar nossas avaliações mais cuidadosas.
A conclusão é desconfortável justamente porque se aplica a todos nós.
Nossa capacidade de identificar erros não desaparece quando analisamos nossas próprias ideias. O que pode mudar é o rigor com que decidimos examiná-las.