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Ciência

Terremotos de magnitude 8,9 podem provocar tsunamis extremos — pesquisadores identificaram as áreas críticas

Centenas de simulações de terremotos revelaram cenários extremos para cidades do Pacífico sul-americano. Os resultados levantam dúvidas sobre a segurança de algumas rotas de evacuação.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine um terremoto tão intenso que o oceano avance sobre cidades costeiras com ondas mais altas que muitos edifícios. Embora pareça uma cena de filme, esse é um dos cenários investigados por cientistas que estudam a atividade sísmica na América do Sul. Ao simular grandes terremotos ao longo da costa do Pacífico, pesquisadores identificaram regiões especialmente vulneráveis e descobriram que algumas medidas tradicionais de segurança podem não ser suficientes nas situações mais extremas.

Centenas de terremotos simulados revelaram os pontos mais vulneráveis

A costa do Pacífico sul-americano está localizada sobre uma das regiões tectônicas mais ativas do planeta.

Ali, a placa de Nazca mergulha sob a placa Sul-Americana, em um processo conhecido como subducção.

Esse movimento acumula enormes quantidades de tensão geológica, que podem ser liberadas repentinamente durante terremotos de grande magnitude.

Quando o fundo do oceano sofre deslocamentos significativos, grandes volumes de água podem ser movimentados, dando origem a tsunamis.

Para compreender a dimensão desse risco, pesquisadores da Universidade do Chile desenvolveram um estudo publicado em 2021 na revista científica Pure and Applied Geophysics.

A pesquisa foi conduzida por Miguel Medina, Sebastián Riquelme, Mauricio Fuentes e Jaime Campos, integrantes do Programa de Risco Sísmico da instituição.

Os cientistas identificaram oito lacunas sísmicas distribuídas ao longo das costas da Colômbia, Equador, Peru e Chile.

Essas regiões correspondem a segmentos de falhas tectônicas que permanecem longos períodos sem liberar grandes quantidades de energia por meio de terremotos.

Para cada segmento, a equipe estimou a magnitude máxima plausível de um terremoto e desenvolveu 200 cenários de tsunami, considerando diferentes distribuições de deslizamento das falhas.

O objetivo não era prever o próximo desastre, mas compreender até onde poderiam chegar as ondas em situações particularmente severas.

E os resultados revelaram números impressionantes.

Peru e Chile aparecem entre os locais com cenários mais extremos

O cenário mais severo identificado pelo estudo aparece na costa central do Peru.

Um terremoto de magnitude 8,9 poderia provocar ondas de 25 a 45 metros na região de Callao, importante cidade portuária localizada ao lado de Lima.

No Chile, os resultados também chamam atenção.

Em Iquique, as simulações indicaram alturas entre 35 e 40 metros nos cenários mais extremos.

Em Valparaíso, os valores chegaram a 30 a 35 metros, enquanto Arica apresentou possibilidades superiores a 30 metros.

Mais ao norte, o Equador poderia enfrentar ondas de até 25 metros após um terremoto de magnitude 8,6.

Na Colômbia, um evento de magnitude 8,7 poderia produzir ondas de até 20 metros.

Esses números representam cenários extremos modelados, não previsões de alturas que necessariamente serão registradas em um futuro terremoto.

Para compreender sua dimensão, basta lembrar o tsunami provocado pelo terremoto de magnitude 9 que atingiu o Japão em 2011.

Naquela ocasião, a água alcançou alturas superiores a 40 metros em determinados pontos do litoral japonês.

Entretanto, a comparação exige cuidado: a altura das ondas e a elevação máxima atingida pela água em terra não são necessariamente a mesma medida.

A topografia costeira também influencia profundamente os impactos de cada tsunami.

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© Joachim Schnürle – Unsplash

Uma referência tradicional de evacuação pode ser insuficiente

Uma das conclusões mais relevantes do estudo envolve o planejamento de evacuações no Chile.

O país utiliza a chamada cota 30 como referência em determinadas orientações de segurança, indicando a busca por áreas situadas pelo menos 30 metros acima do nível do mar.

Entretanto, as simulações sugerem que, em algumas localidades e nos cenários mais extremos, essa elevação pode não oferecer proteção suficiente.

Isso não significa que todas as cidades costeiras enfrentarão ondas dessa magnitude.

Os pesquisadores destacam que estão analisando possibilidades severas, e não anunciando um terremoto iminente.

Ainda assim, os resultados podem contribuir para atualizar mapas de risco, identificar áreas vulneráveis e melhorar os planos de evacuação.

O pesquisador Sebastián Riquelme destacou a utilidade prática desse tipo de trabalho para políticas públicas de prevenção de desastres.

A história mostra por que esses cenários precisam ser estudados

A América do Sul já enfrentou terremotos capazes de provocar tsunamis devastadores.

Em 1960, o terremoto de Valdivia, no Chile, atingiu magnitude 9,5, sendo o mais forte já registrado instrumentalmente.

O tsunami gerado pelo evento atravessou o Pacífico e provocou mortes em regiões distantes, incluindo o Japão e o Havaí.

Mais recentemente, em julho de 2025, um terremoto de magnitude 8,8 próximo à península russa de Kamchatka provocou alertas de tsunami em países sul-americanos.

Esses episódios demonstram que grandes perturbações oceânicas podem afetar regiões situadas a milhares de quilômetros do epicentro.

Embora a ciência ainda não consiga determinar quando ocorrerá o próximo grande terremoto, consegue identificar áreas de risco e estudar suas possíveis consequências.

Conhecer as rotas oficiais de evacuação, seguir as orientações das autoridades e procurar imediatamente locais elevados após um terremoto forte ou prolongado perto da costa são medidas fundamentais de proteção.

O estudo chileno não anuncia uma catástrofe inevitável. Ele mostra por que compreender os piores cenários pode ser essencial para evitar que um fenômeno natural se transforme em uma tragédia ainda maior.

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