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Ciência

Um fungo que ataca o cérebro está aparecendo mais, e cientistas ainda não sabem por quê

Pesquisadores identificaram um aumento nas infecções por Cladophialophora bantiana confirmadas em um laboratório dos Estados Unidos. Embora os casos continuem raros, esse fungo pode provocar abscessos cerebrais e apresenta alta mortalidade. A falta de vigilância nacional dificulta saber quantas pessoas adoecem e o que explica a tendência.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um fungo pouco conhecido, capaz de infectar o cérebro de pessoas aparentemente saudáveis, está chamando a atenção de cientistas. Pesquisadores da Universidade de Washington e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, analisaram registros laboratoriais e encontraram um crescimento nos casos detectados durante a última década. O aumento se tornou especialmente evidente nos últimos anos, mas suas causas permanecem desconhecidas.

Um comportamento incomum entre os fungos

Infecções humanas causadas por fungos são menos comuns que as provocadas por vírus e bactérias. Quando atingem o cérebro, geralmente fazem parte de uma infecção que começou em outra região e se espalhou pelo organismo.

Além disso, as formas mais graves costumam afetar pessoas com o sistema imunológico enfraquecido.

Cladophialophora bantiana foge desse padrão. Dentro do corpo humano, parece ter uma preferência pelo cérebro, onde normalmente provoca abscessos: bolsas de pus que contêm o fungo, células de defesa e outros tecidos.

A mortalidade associada à doença varia entre 60% e 70%, mesmo com tratamento. Aproximadamente metade das infecções ocorre em pessoas consideradas imunologicamente saudáveis.

Segundo Joshua Lieberman, microbiologista e professor associado da Universidade de Washington, essa capacidade de atingir pessoas sem imunossupressão diferencia o fungo de outros agentes responsáveis por doenças fúngicas invasivas.

Os casos cresceram mais rápido que os exames

No trabalho publicado pelo CDC, a equipe analisou dados de um laboratório de referência da Universidade de Washington. Embora seja uma única unidade, ela recebe amostras de diferentes regiões dos Estados Unidos.

Entre janeiro de 2009 e julho de 2026, o laboratório identificou 48 casos confirmados e um provável. Os registros vieram de 21 estados e de Washington, D.C.

De 2009 a 2023, os pesquisadores detectaram entre um e cinco casos por ano. Em 2024, foram oito. Em 2025, o número chegou a 14.

Para investigar se isso refletia apenas um aumento nos exames, a equipe comparou os resultados positivos com o total de amostras enviadas para testes de infecções fúngicas do cérebro e do sistema nervoso central.

A frequência de detecção também cresceu, aproximadamente quatro vezes na comparação apresentada pelos pesquisadores. Segundo Lieberman, os casos aumentaram mais rapidamente que o volume de testes, sugerindo que a tendência pode ser real.

Ainda não sabemos onde ocorre a exposição

O fungo foi identificado pela primeira vez em 1911, em um abscesso cerebral. Mais de um século depois, questões básicas continuam sem resposta.

Os cientistas não conhecem claramente seu reservatório natural. Também não entendem completamente como as pessoas contraem a infecção.

Uma hipótese envolve a inalação de esporos, seguida pela passagem do fungo dos pulmões para o cérebro pela corrente sanguínea. Outra possibilidade é a entrada pela pele.

No levantamento, 12% das amostras eram provenientes de pulmões ou outros tecidos pulmonares. Esse resultado reforça a possibilidade de uma porta de entrada respiratória, mas não resolve a questão.

Também permanece desconhecido por que o microrganismo tem afinidade pelo cérebro e consegue causar doença em pessoas com defesas aparentemente normais.

A falta de registros impede medir o problema

Os Estados Unidos não mantêm uma vigilância nacional rotineira para Cladophialophora bantiana. Os médicos também não precisam comunicar todos os casos suspeitos ou confirmados às autoridades sanitárias.

Por isso, os números do laboratório não representam necessariamente o total de infecções no país.

Lieberman defende uma coleta sistemática de informações em laboratórios clínicos de diferentes regiões. Esses dados ajudariam a dimensionar a doença e investigar possíveis mudanças na exposição.

Os pesquisadores ainda consideram as infecções raras. O problema é que, sem registros mais abrangentes, permanece difícil saber exatamente quão raras são — e por que estão aparecendo com maior frequência.

 

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