Ondas de calor recordes, enchentes mortais e temperaturas inéditas de até 50°C em algumas regiões. Os últimos boletins climáticos acenderam novamente a dúvida: já fracassamos no objetivo central do Acordo de Paris, de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C? A resposta é mais complexa do que parece.
Temperaturas em alta sem precedentes

Segundo o programa europeu Copernicus, apenas quatro dos últimos 25 meses ficaram abaixo da marca de 1,5°C em comparação ao período pré-industrial. Julho de 2025, por exemplo, foi o quarto julho mais quente já registrado na Europa, com média de 21,12°C — 1,30°C acima da referência 1991–2020.
A Escandinávia chegou a enfrentar semanas seguidas com temperaturas de 30°C, algo inusitado para a região, enquanto na Turquia os termômetros alcançaram os 50°C. Ao mesmo tempo, países como Romênia e Itália sofreram, respectivamente, enchentes repentinas e ondas de calor fatais.
O que diz o Acordo de Paris?
O Acordo de Paris não define o limite de 1,5°C como um número absoluto em cada ano, mas como uma média de longo prazo. Segundo o cientista Julien Nicolas, do Copernicus, só se pode falar em descumprimento formal quando a temperatura global superar esse valor em uma média de 20 anos.
Isso significa que os recentes “picos” são alarmantes, mas ainda não configuram uma violação oficial. Modelos climáticos, no entanto, apontam que esse limite poderá ser alcançado já por volta de 2030 — quase duas décadas antes do que se imaginava quando o tratado foi assinado em 2015.
Flutuações naturais e tendência contínua
Especialistas destacam que parte da variação recente se deve a fenômenos naturais, como o El Niño. Em julho de 2025, por exemplo, a média global ficou em 1,25°C acima do pré-industrial, representando uma leve queda.
Ainda assim, a trajetória de longo prazo permanece clara: a acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera continua empurrando as temperaturas para patamares inéditos. Segundo os cientistas, cada recorde batido aumenta a probabilidade de eventos climáticos extremos.
Consequências já visíveis
Os impactos do aquecimento global não são projeções futuras — eles já estão acontecendo. O derretimento acelerado de geleiras, a elevação do nível do mar e os eventos extremos cada vez mais frequentes comprovam isso. “O fato de que as temperaturas médias globais tenham atingido recordes aumenta a probabilidade desses fenômenos”, alerta Nicolas.
A realidade, segundo ele, é que as consequências são irreversíveis em algumas frentes. Mesmo assim, limitar o aquecimento o máximo possível é crucial, já que “cada fração de grau importa”.
O debate político e econômico
Na União Europeia, cresce a polêmica sobre como alcançar as metas. Uma proposta recente da Comissão Europeia permite o uso de compensações internacionais de carbono para cumprir objetivos até 2040. Críticos afirmam que a medida abre caminho para a “externalização” das emissões, diluindo as ambições climáticas reais.
Enquanto isso, organizações ambientais pressionam por cortes diretos nas emissões e por políticas mais duras contra setores intensivos em carbono, como aviação, transporte marítimo e indústria pesada.
Ainda não é tarde — mas o tempo é curto
A mensagem dos cientistas é clara: mesmo que o limite de 1,5°C venha a ser ultrapassado oficialmente, isso não significa desistir. Pelo contrário, reforça a urgência de agir. A cada décimo de grau adicional, aumentam os riscos de impactos devastadores em ecossistemas, economias e vidas humanas.
Se o Acordo de Paris fracassará ou não ainda está em aberto. O que está fora de dúvida é que a próxima década será decisiva para definir se o planeta vai apenas “tocar” o limite ou atravessá-lo sem retorno.
[ Fonte: Euronews ]