Pular para o conteúdo
Mundo

O ar-condicionado pode colapsar a rede elétrica europeia em plena onda de calor

Com temperaturas recordes em várias cidades da Europa, a corrida para ligar o ar-condicionado pressiona uma infraestrutura energética já fragilizada. O desafio é manter as luzes acesas sem agravar ainda mais a crise climática — e especialistas alertam que o continente precisa agir rápido.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Neste verão, a Europa voltou a enfrentar um cenário que se repete com intensidade crescente: ondas de calor extremas, consumo recorde de energia e sistemas elétricos no limite. Em países como França, Croácia e Hungria, os termômetros já ultrapassaram os 40 °C, forçando milhões de pessoas a recorrerem a ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. O problema é que, ao mesmo tempo em que cresce a demanda, as próprias altas temperaturas prejudicam a capacidade de geração e transmissão de eletricidade.

A explosão do consumo de energia

Aire Acondicionado P
© Freepik

Segundo Pawel Czyzak, diretor de Política Energética para a Europa do think tank Ember, os últimos episódios mostram que as redes elétricas precisam estar prontas para extremos que já se tornaram rotina. Durante a onda de calor de julho, a demanda de eletricidade disparou: na Espanha, o consumo subiu cerca de 14%, enquanto na Alemanha e na França os horários de pico deixaram operadores em alerta.

Os dados refletem uma tendência estrutural. Em 1990, a União Europeia tinha menos de 7 milhões de aparelhos de ar-condicionado. Em 2030, o número deve ultrapassar 100 milhões. Hoje, a climatização representa apenas 0,6% do consumo energético residencial do bloco — mas esse peso tende a crescer rapidamente.

Entre os países, a Itália lidera de longe o uso: sozinha, responde por um terço de toda a energia elétrica destinada ao ar-condicionado nos 27 Estados-membros. Depois aparecem Grécia, França, Espanha e Alemanha.

Quando o calor paralisa as usinas

As ondas de calor não apenas aumentam a demanda, como reduzem a capacidade de geração de energia. Esse foi o caso da França, onde 17 das 18 usinas nucleares tiveram de cortar produção entre 28 de junho e 2 de julho. Em alguns casos, os reatores chegaram a ser desligados.

A explicação está no sistema de resfriamento: para controlar a temperatura dos reatores, a água de rios e mares é bombeada e depois devolvida ao ambiente em temperatura mais alta. Mas quando o calor extremo já aquece a água de entrada, o processo perde eficiência. E, se a descarga ultrapassa limites seguros, há risco direto para ecossistemas aquáticos.

O impacto não se restringe às usinas. A própria rede elétrica sofre: em julho, Roma, Florença, Bérgamo e Milão enfrentaram apagões devido à sobrecarga e ao superaquecimento de cabos subterrâneos. Sem investimentos para reforçar a infraestrutura, alertam especialistas, episódios como esses tendem a se tornar mais comuns.

Sol, aliado inesperado

Se por um lado o calor é inimigo da rede, por outro traz um reforço crucial: a energia solar. Junho de 2025 marcou a maior produção mensal de eletricidade solar da história da União Europeia, com destaque para Holanda e Grécia, que chegaram a gerar 40% e 35% de sua energia, respectivamente, a partir do sol.

Essa produção foi vital para aliviar a pressão em horários de maior consumo de ar-condicionado. “Enquanto térmicas enfrentaram apagões e nucleares lidaram com falhas de resfriamento, a energia solar ajudou a estabilizar as redes”, destacou Czyzak.

Limites das renováveis

Nem todas as fontes limpas tiveram o mesmo desempenho. Em países do norte, como Finlândia e Reino Unido, a produção eólica despencou durante as ondas de calor. Em território britânico, as turbinas responderam por apenas 5% da geração, enquanto o gás natural voltou a assumir mais de um terço da matriz energética.

Esse contraste reforça a urgência de diversificação e armazenamento. As energias renováveis são fundamentais, mas não bastam sozinhas: precisam estar apoiadas em redes inteligentes, baterias de larga escala e infraestrutura flexível.

Uma corrida contra o tempo

O verão europeu de 2025 mostrou que o clima já não é exceção, mas a nova regra. Entre recordes de calor, apagões urbanos e a dependência crescente de aparelhos de refrigeração, a Europa enfrenta um dilema: como manter a população fresca sem mergulhar em uma crise energética e climática ainda mais profunda.

A resposta, dizem os especialistas, passa por acelerar a transição energética, modernizar a rede e ampliar a resiliência do sistema. O risco é claro: sem adaptação, cada nova onda de calor pode significar não só mais desconforto, mas também mais escuridão.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados