Durante décadas, o caminho parecia óbvio: quem queria se informar ligava a TV, abria o jornal ou acessava o site de um grande veículo. Só que esse hábito está mudando depressa, e não apenas entre os mais jovens. Um novo levantamento internacional indica que a principal porta de entrada para as notícias já não é mais a mídia tradicional. No lugar dela, avançam redes sociais, vídeos curtos, streamings, influenciadores e até chatbots de inteligência artificial.
O novo centro das notícias está nas plataformas
O consumo de notícias entrou em uma nova fase no mundo. Segundo o mais recente Digital News Report, elaborado pelo Instituto Reuters em parceria com a Universidade de Oxford, as redes sociais e as plataformas de vídeo se tornaram, pela primeira vez, a principal fonte de informação global, superando canais tradicionais como a televisão e até os próprios sites de notícias.
O levantamento, realizado há 15 anos e baseado em quase 100 mil entrevistas em 48 países, mostra uma mudança que vinha sendo construída aos poucos, mas agora se consolidou. Hoje, 54% dos entrevistados dizem usar redes sociais e plataformas de vídeo para se informar, enquanto 51% recorrem a sites e aplicativos de veículos jornalísticos. Como parte do público usa as duas rotas, os percentuais se sobrepõem, mas o sinal é claro: o consumo de notícias está cada vez mais disperso em ambientes controlados por terceiros.
Essa virada também aparece no formato. Em 45 dos 48 países analisados, as pessoas já assistem a mais vídeos informativos online do que telejornais. Só três mercados ainda fogem dessa tendência: Alemanha, Dinamarca e Países Baixos. O dado ajuda a explicar por que o vídeo, especialmente o distribuído por redes e aplicativos, passou a ser uma peça central da disputa pela atenção.
A preferência por plataformas externas também fica evidente quando o relatório detalha os canais usados para consumir notícias sob demanda. YouTube aparece com 27%, Instagram com 26% e TikTok com 20%. No topo do ranking geral continua o Facebook, citado por 43% dos entrevistados como espaço de acesso a notícias. Ao mesmo tempo, cai o uso dos sites e aplicativos dos grandes veículos, o que pressiona ainda mais empresas de mídia que já vinham enfrentando perda de audiência e de receita.
Influenciadores, criadores e IA entram de vez na rotina informativa
Se as plataformas se tornaram o novo endereço das notícias, os criadores de conteúdo também ganharam um papel relevante nessa mudança. O relatório mostra que 27% dos entrevistados acompanham influenciadores ou criadores focados em notícias, enquanto 46% afirmam consumir informação por meio de criadores de conteúdo de qualquer tipo.
A explicação para esse avanço não está apenas no alcance. Segundo o estudo, muitos usuários enxergam esses criadores como mais divertidos, mais próximos e mais fáceis de entender do que os veículos tradicionais. Em compensação, eles também são percebidos como menos confiáveis e mais enviesados. Em outras palavras: ganham em linguagem, perdem em credibilidade.

Ainda assim, o relatório deixa claro que eles não substituíram completamente o jornalismo tradicional. Na maior parte dos casos, quem se informa com criadores também continua acompanhando veículos convencionais. Apenas 13% dizem cobrir a maior parte de suas necessidades informativas com criadores especializados em notícias, e só 3% afirmam se informar exclusivamente por eles.
Outro movimento que chama atenção é o crescimento dos chatbots de inteligência artificial como ferramenta de acesso a notícias. Embora ainda não dominem o consumo informativo, eles já aparecem como uma nova camada nessa disputa pela atenção. A informação agora não chega apenas por uma manchete ou por um vídeo no feed, mas também por respostas prontas, resumos automatizados e sistemas que reorganizam o noticiário em linguagem conversacional.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta uma tendência preocupante: o interesse por notícias está em queda. Desde 2021, a parcela de pessoas “muito” ou “extremamente” interessadas no noticiário caiu 13 pontos percentuais. Hoje, 25% dos entrevistados são consumidores ocasionais ou passivos de notícias, muitas vezes com contato esporádico, apenas uma vez por semana, e com pouco ou nenhum interesse pelo tema.
A confiança também se deteriorou. Em 29 dos 48 países analisados, ela caiu. No agregado, apenas 37% dizem confiar nas notícias, o pior patamar registrado desde o início da série histórica do estudo. E o problema, segundo o relatório, vai além dos erros da imprensa: envolve a crise de confiança em instituições, o desgaste de lideranças públicas e os ataques cada vez mais frequentes à mídia por parte de figuras políticas de grande visibilidade.
No Brasil, a mudança já aparece nas telas, nos streamings e até nos chatbots
No Brasil, o retrato desenhado pelo relatório mistura hábitos em transformação, queda de confiança e uma disputa cada vez mais acirrada pela atenção do público. O Digital News Report 2026 mostra que a mídia tradicional continua perdendo espaço como fonte de notícias, enquanto redes sociais, criadores de conteúdo e ferramentas de inteligência artificial ampliam sua presença no cotidiano de quem busca informação.
Um dos sinais mais claros dessa mudança está na relação entre redes sociais e televisão. Segundo o estudo, as plataformas sociais mantêm no Brasil uma vantagem de nove pontos percentuais sobre a TV como fonte semanal de notícias, confirmando que o noticiário já não circula prioritariamente pelos canais tradicionais. Ao mesmo tempo, mais da metade dos brasileiros usa redes sociais para se informar ao longo da semana, em um ambiente em que vídeo, recomendação algorítmica e linguagem de creator ganham cada vez mais peso.
Esse avanço vem acompanhado de novos intermediários. O relatório aponta que 33% dos brasileiros consomem conteúdo de criadores ou influenciadores focados principalmente em notícias, um dado que ajuda a explicar por que o debate público está cada vez mais espalhado entre perfis, canais e formatos que misturam informação, comentário e entretenimento. Em paralelo, os chatbots de IA também avançam: o uso semanal dessas ferramentas para acompanhar notícias chegou a 13% no país, reforçando que a disputa pela mediação do noticiário agora inclui plataformas conversacionais, resumos automatizados e respostas sob demanda.
Se por um lado surgem novos caminhos para acessar informação, por outro a confiança segue em terreno delicado. O relatório mostra que a confiança nas notícias no Brasil caiu para 36%, o menor nível em 12 anos, em um contexto marcado por polarização política persistente, escândalos e desgaste institucional. O movimento ajuda a entender também outro indicador importante: 47% dos brasileiros dizem evitar as notícias às vezes ou com frequência, um sinal de cansaço informativo que se soma à sobrecarga provocada por feeds incessantes, crises sucessivas e cobertura política permanente.
No campo econômico, o cenário é ambíguo. O pagamento por notícias online recuou e agora está em 15%, mostrando a dificuldade de converter audiência em receita recorrente. Ainda assim, o ecossistema digital não está parado. O relatório destaca que, mesmo com a pressão sobre o setor, o número de veículos online cresceu em 2025, enquanto a televisão tenta se reinventar com canais multiplataforma e modelos de distribuição por streaming gratuito com publicidade. Ao mesmo tempo, redações tradicionais continuam sob pressão para cortar custos, reorganizar equipes e disputar espaço em um mercado publicitário cada vez mais dividido com as plataformas digitais.
Há ainda uma camada estrutural importante nessa história. O Brasil segue convivendo com vazios de cobertura local em diferentes regiões e com a fragilidade econômica de parte do jornalismo, ao mesmo tempo em que o mercado digital cria novas figuras profissionais e acelera a influência dos criadores. Nesse ambiente, o noticiário deixa de ser apenas um produto consumido em sites, jornais ou telejornais e passa a circular em formatos híbridos, espalhado entre vídeos curtos, transmissões ao vivo, newsletters, podcasts, influenciadores e respostas de IA. O resultado é um sistema informativo mais amplo, mais veloz e mais fragmentado — e também muito mais difícil de controlar.
[Fonte: UNQ]