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Tecnologia

O calor dos servidores pode se tornar uma fonte estratégica para milhões de pessoas

O continente estuda unir uma fonte de energia quase contínua ao calor desperdiçado pelos servidores para criar um sistema capaz de alimentar a economia digital e aquecer cidades inteiras.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A inteligência artificial está transformando data centers em algumas das infraestruturas mais famintas por energia do planeta. Ao mesmo tempo, governos europeus tentam reduzir a dependência de combustíveis fósseis e cortar emissões. Diante desse desafio duplo, uma estratégia começa a ganhar força: combinar o calor armazenado nas profundezas da Terra com o calor produzido pelos próprios servidores, criando uma rede energética muito mais eficiente do que a atual.

A aposta subterrânea que pode mudar o papel dos data centers

Durante décadas, a energia geotérmica foi associada principalmente a regiões vulcânicas, onde o calor do subsolo está naturalmente próximo da superfície. Isso limitava bastante sua expansão. O cenário começou a mudar quando técnicas de perfuração desenvolvidas pela indústria de petróleo e gás passaram a ser adaptadas para projetos geotérmicos profundos.

Esses sistemas permitem perfurar vários quilômetros de rocha quente, injetar fluidos e recuperar calor mesmo em locais sem atividade vulcânica evidente. Com os avanços recentes, os custos da geotermia profunda caíram significativamente, tornando a tecnologia mais competitiva em relação às fontes fósseis.

Segundo análises do think tank Ember, a geotermia europeia já consegue produzir eletricidade em níveis comparáveis aos do gás natural em diversas regiões do continente. O potencial técnico estimado é suficiente para substituir uma parcela relevante da geração fóssil atual da União Europeia.

Mas o aspecto mais interessante não é apenas produzir eletricidade constante. É decidir onde produzi-la.

Os mapas de maior potencial geotérmico coincidem com alguns dos maiores polos europeus de data centers, incluindo áreas próximas a Paris, Amsterdã e Frankfurt. Esses mesmos centros urbanos já possuem extensas redes de aquecimento urbano, conhecidas como district heating, que distribuem água quente para residências, escritórios e edifícios públicos.

A ideia é criar uma integração direta entre essas três infraestruturas. A geotermia forneceria eletricidade estável para os servidores. Em seguida, o calor gerado tanto pela usina quanto pelos próprios data centers seria capturado e enviado para as redes de aquecimento urbano.

Na prática, os data centers deixariam de ser vistos apenas como grandes consumidores de energia e passariam a funcionar também como produtores de calor útil para as cidades.

A “tríplice vitória” que Bruxelas quer acelerar

Esse modelo já começou a sair do papel em algumas cidades do norte da Europa. Em Helsinque, por exemplo, sistemas industriais de recuperação térmica capturam o calor emitido por data centers e o elevam para temperaturas adequadas às redes urbanas, abastecendo dezenas de milhares de residências.

A lógica é poderosa: a mesma eletricidade que alimenta algoritmos e serviços digitais ajuda a gerar calor para apartamentos, escolas e hospitais. Menos energia é desperdiçada, menos combustíveis fósseis são queimados e a infraestrutura urbana torna-se mais eficiente.

Bruxelas passou a tratar essa combinação como uma prioridade estratégica. No fim de 2024, o Conselho e o Parlamento Europeu apoiaram a criação de uma Aliança Geotérmica Europeia para acelerar licenças, financiamento e implantação de projetos. Países como Espanha, Alemanha, França, Hungria e Polônia aparecem entre os principais candidatos para expansão dessa tecnologia.

O movimento também tem um componente geopolítico. Estados Unidos e Canadá avançam rapidamente com incentivos fiscais e forte investimento privado em geotermia profunda. Pesquisas citadas pela Ember indicam que essa fonte pode atender uma parte importante do crescimento da demanda elétrica dos data centers norte-americanos já no início da próxima década.

Para a Europa, portanto, a corrida não é apenas ambiental. É também industrial e tecnológica.

Se a estratégia funcionar, os data centers do futuro poderão operar de forma muito diferente da atual. Em vez de enormes instalações que apenas consomem eletricidade e dissipam calor na atmosfera, eles se transformariam em nós de uma rede circular: eletricidade contínua vinda do subsolo, calor reaproveitado para as cidades e menor dependência de combustíveis importados.

A nuvem digital, ironicamente, pode acabar se tornando uma das infraestruturas mais “terrestres” já construídas. E a energia que alimentará a próxima geração de inteligência artificial talvez esteja, literalmente, escondida sob nossos pés há milhões de anos.

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