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Ciência

O cérebro “canta” em silêncio e pesquisadores descobriram como encontrar suas pistas

Pesquisadores analisaram sinais diretamente do cérebro enquanto voluntários imaginavam músicas. O experimento ainda é limitado, mas conseguiu revelar uma estrutura que até então permanecia silenciosa.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Você consegue ouvir uma música inteira dentro da cabeça sem que qualquer som esteja tocando. O cérebro recupera notas, ritmos e sequências enquanto o mundo ao redor permanece em silêncio. Durante muito tempo, transformar essa experiência interna em informação mensurável parecia uma tarefa extremamente difícil. Agora, pesquisadores conseguiram avançar nessa direção ao reconstruir partes da estrutura de melodias que existiam apenas na imaginação dos participantes.

Uma música que ninguém podia ouvir deixou rastros no cérebro

O cérebro “canta” em silêncio e pesquisadores descobriram como encontrar suas pistas
© blocks – Unsplash

O estudo foi realizado na Coreia do Sul e publicado na revista científica eNeuro. A pesquisa foi conduzida por Jii Kwon e Chun Kee Chung, da Universidade Nacional de Seul, e divulgada pela Society for Neuroscience.

O objetivo não era simplesmente descobrir se alguém estava pensando em música.

Os cientistas tentaram algo mais ambicioso: identificar o chamado contorno melódico, ou seja, a sequência de subidas e descidas das notas que permite reconhecer uma melodia.

Essa distinção é importante porque nosso cérebro não precisa necessariamente recuperar a frequência exata de cada nota para identificar uma música.

“Parabéns pra você”, por exemplo, continua reconhecível quando é tocada em uma tonalidade mais aguda ou mais grave. As frequências mudam, mas as relações entre as notas permanecem.

Foi justamente essa característica que os pesquisadores decidiram explorar.

Em vez de tentar descobrir alturas absolutas, o modelo buscou decodificar classes de tons relativos, acompanhando como as notas se relacionavam ao longo da sequência musical.

A estratégia permitiu transformar algo aparentemente abstrato, uma música tocando silenciosamente dentro da cabeça, em padrões que poderiam ser analisados matematicamente.

O experimento precisou acessar o cérebro diretamente

O cérebro “canta” em silêncio e pesquisadores descobriram como encontrar suas pistas
© RDNE Stock project – Pexels

Participaram do estudo dez pacientes com epilepsia, sendo sete mulheres e três homens, com idade média de 27,3 anos.

A escolha desse grupo teve uma razão específica.

Os participantes já possuíam eletrodos posicionados sobre a superfície cerebral como parte de procedimentos clínicos para monitoramento da epilepsia. Isso permitiu aos pesquisadores utilizar a eletrocorticografia, conhecida pela sigla ECoG.

Diferentemente de exames realizados externamente, essa técnica registra diretamente a atividade elétrica da superfície do cérebro e oferece elevada resolução temporal.

O experimento foi dividido em três etapas.

Primeiro, os participantes escutavam o começo de uma música infantil conhecida. Em seguida, precisavam continuar mentalmente a melodia, sem produzir qualquer som. Finalmente, deveriam cantarolar aquilo que haviam imaginado.

Com os sinais registrados durante essas tarefas, os pesquisadores criaram modelos individualizados para identificar padrões cerebrais relacionados à imaginação musical.

O verdadeiro desafio estava na segunda etapa.

Quando alguém escuta uma música, existe um estímulo sonoro externo chegando aos ouvidos. Quando a pessoa apenas imagina a melodia, esse estímulo desaparece. O cérebro, porém, continua produzindo atividade relacionada à experiência musical.

E foi nessa atividade silenciosa que os cientistas encontraram informação suficiente para avançar.

O sistema ainda não consegue “ouvir” seus pensamentos

Os resultados exigem cautela.

Quando o modelo tentou identificar cada nota individualmente, a precisão foi considerada modesta. Ainda assim, o desempenho ficou consistentemente acima do que seria esperado pelo acaso.

Isso significa que os pesquisadores não desenvolveram uma tecnologia capaz de simplesmente ler uma música completa diretamente da mente.

A grande mudança apareceu quando deixaram de observar cada nota isoladamente e analisaram a sequência como um todo.

Ao combinar previsões feitas ao longo do tempo, o sistema conseguiu reconstruir o contorno geral das melodias imaginadas.

Esse detalhe diferencia o experimento de diversas pesquisas anteriores.

Outros trabalhos já haviam conseguido identificar sinais relacionados à imaginação musical ou reconhecer características gerais do processamento de música. O novo estudo tentou avançar um passo, recuperando elementos da própria estrutura da melodia.

A chave pode estar justamente em enxergar a música como uma sequência de relações, e não como uma coleção de frequências independentes.

A descoberta pode apontar para algo muito maior

O estudo ainda possui limitações importantes.

A amostra foi pequena, os participantes eram pacientes com epilepsia e as músicas utilizadas eram melodias infantis familiares. Portanto, os resultados não significam que qualquer música imaginada possa ser reconstruída.

Também não existe, por enquanto, uma aplicação clínica pronta para uso.

Trata-se de uma prova de conceito.

Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que a abordagem poderá ser ampliada futuramente para investigar músicas mais complexas e outras características, como ritmo, andamento e dinâmica.

Existe ainda uma possibilidade mais distante e particularmente interessante.

Tecnologias capazes de interpretar padrões mentais poderiam, no futuro, oferecer novas formas de comunicação para pessoas que não conseguem expressar verbalmente aquilo que imaginam.

Pacientes com condições como esclerose lateral amiotrófica, por exemplo, poderiam eventualmente se beneficiar de interfaces capazes de transformar determinados conteúdos internos em sinais compreensíveis externamente.

Ainda existe uma enorme distância entre esse cenário e o experimento atual.

Mas o estudo demonstra algo fundamental: quando uma música toca apenas dentro da nossa cabeça, ela não desaparece completamente do mundo físico.

O cérebro deixa rastros.

E, pela primeira vez, esses rastros começaram a revelar não apenas que existe uma música sendo imaginada, mas também parte da forma que ela possui.

[Fonte: Infobae]

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