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Ciência

O cérebro escondia algo sobre o TDAH que cientistas acabam de descobrir

Uma pesquisa internacional encontrou padrões cerebrais inesperados em crianças com TDAH e abriu caminho para tratamentos muito mais específicos no futuro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, o TDAH foi tratado quase como um único transtorno, dividido apenas entre desatenção, hiperatividade e impulsividade. Mas uma nova pesquisa internacional sugere que o cenário é muito mais complexo — e talvez mais surpreendente do que especialistas imaginavam. Ao analisar centenas de cérebros infantis, cientistas encontraram diferenças profundas que podem mudar a forma como o transtorno é diagnosticado e tratado nas próximas décadas.

O estudo que colocou em dúvida a visão tradicional do TDAH

O cérebro escondia algo sobre o TDAH que cientistas acabam de descobrir
© Unsplash

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade sempre foi descrito a partir de comportamentos observáveis. Crianças agitadas, dificuldade de concentração, impulsividade e problemas para seguir tarefas são alguns dos critérios usados mundialmente para fechar o diagnóstico.

Mas um estudo publicado em 2026 na revista científica JAMA Psychiatry resolveu olhar para outro lugar: o cérebro.

Pesquisadores da China, dos Estados Unidos e da Austrália analisaram imagens de ressonância magnética de mais de mil crianças e encontraram algo que pode mudar a psiquiatria infantil. Em vez de um único padrão cerebral ligado ao TDAH, surgiram três perfis neurobiológicos completamente diferentes.

Os cientistas chamaram esses grupos de “biotipos”.

O detalhe mais impressionante é que os agrupamentos foram feitos sem considerar comportamento, histórico médico ou sintomas relatados pelas famílias. O algoritmo observou apenas as estruturas cerebrais das crianças — e mesmo assim conseguiu formar grupos que depois mostraram características clínicas muito distintas.

Para muitos especialistas, isso reforça uma ideia que já vinha ganhando força silenciosamente: talvez o TDAH nunca tenha sido uma condição única.

Como os cientistas conseguiram separar os diferentes perfis

O cérebro escondia algo sobre o TDAH que cientistas acabam de descobrir
© Unsplash

A pesquisa utilizou exames de ressonância magnética estrutural, capazes de mostrar a anatomia cerebral em detalhes. Participaram 446 crianças com TDAH e 708 sem o transtorno no grupo principal. Depois, os resultados foram testados novamente em outro grupo independente com mais de 500 crianças diagnosticadas.

Os pesquisadores criaram mapas complexos de conexão entre regiões cerebrais para entender quais áreas cresciam e se desenvolviam de forma semelhante. Em seguida, compararam esses padrões com uma espécie de “curva de desenvolvimento cerebral”, semelhante às curvas de crescimento usadas por pediatras.

A partir disso, foi possível identificar desvios específicos no cérebro de cada criança.

Os resultados revelaram três grupos muito diferentes entre si.

O primeiro biotipo apareceu como o mais intenso. Essas crianças apresentavam alterações em regiões ligadas ao controle emocional, tomada de decisão e comportamento. Além da hiperatividade e da desatenção mais severas, havia algo que chamou ainda mais atenção: enorme dificuldade em controlar emoções como raiva, frustração e angústia.

Especialistas afirmam que esse perfil pode ajudar a explicar por que alguns pacientes respondem mal aos tratamentos tradicionais.

Já o segundo grupo apresentava predominância de hiperatividade e impulsividade. As alterações estavam associadas a áreas cerebrais ligadas ao controle de impulsos e à inibição de comportamentos. Diferente do primeiro grupo, essas crianças mostravam melhora emocional mais evidente ao longo do tempo.

O terceiro biotipo tinha um padrão mais focal. As alterações apareciam principalmente em regiões associadas à atenção sustentada e memória de trabalho. Nesse grupo, a desatenção era claramente o sintoma dominante.

A descoberta que pode mudar o tratamento no futuro

O ponto mais importante do estudo talvez não seja apenas a existência de três biotipos, mas o que isso significa para o futuro da psiquiatria.

Hoje, medicamentos como a Ritalina atuam principalmente em substâncias químicas ligadas à atenção e ao autocontrole, como dopamina e noradrenalina. O problema é que o novo estudo sugere que nem todos os cérebros com TDAH funcionam da mesma maneira.

Alguns perfis apresentaram alterações em serotonina, ligada ao humor e bem-estar. Outros mostraram mudanças em glutamato, um dos principais mensageiros químicos do cérebro. Houve ainda diferenças envolvendo sistemas relacionados à memória, sono e regulação emocional.

Na prática, isso levanta uma pergunta importante: será que todos os pacientes deveriam receber exatamente o mesmo tipo de tratamento?

Psiquiatras ouvidos pela pesquisa acreditam que não.

Segundo especialistas, alguns pacientes com forte desregulação emocional talvez precisem de abordagens diferentes, combinando medicamentos e estratégias terapêuticas mais específicas. Outros podem responder melhor a intervenções comportamentais do que aos remédios tradicionais.

Esse conceito faz parte do que pesquisadores chamam de “medicina de precisão”, uma tentativa de adaptar tratamentos ao perfil biológico individual de cada pessoa.

Por que os cientistas ainda pedem cautela

Apesar do entusiasmo, os próprios autores do estudo reforçam que ainda existem muitas limitações.

O trabalho analisou imagens cerebrais em um único momento da vida das crianças. Como o cérebro infantil continua em intensa transformação até a vida adulta, ainda não se sabe se esses biotipos permanecem estáveis com o passar dos anos.

Há também outro ponto importante: a maioria das crianças analisadas era do sexo masculino. Como meninas costumam apresentar sintomas diferentes de TDAH, ainda será necessário validar os resultados em grupos mais diversos.

Outro obstáculo envolve a própria realidade dos sistemas de saúde. Exames avançados de neuroimagem ainda são caros e pouco acessíveis fora de grandes centros de pesquisa.

Além disso, descobrir diferenças cerebrais não significa automaticamente que tratamentos personalizados já estejam prontos. Os cientistas alertam que serão necessários anos de estudos clínicos para comprovar quais intervenções realmente funcionam melhor em cada perfil.

Mesmo assim, muitos especialistas enxergam a pesquisa como um divisor de águas.

Ela reforça a ideia de que o TDAH talvez seja muito mais complexo do que os manuais atuais conseguem explicar — e que o futuro do tratamento pode passar menos por rótulos gerais e mais pela compreensão profunda de como cada cérebro funciona individualmente.

[Fonte: Época Negócios]

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