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Ciência

Cientistas registram migração impossível de baleias-jubarte entre Austrália e Brasil

Dois animais cruzaram oceanos inteiros em trajetos considerados extremamente improváveis. O comportamento surpreendeu pesquisadores e pode esconder mudanças maiores acontecendo nos mares.
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Tempo de leitura: 3 minutos

As baleias-jubarte já são conhecidas por realizar algumas das migrações mais impressionantes do reino animal. Todos os anos, atravessam milhares de quilômetros entre áreas de alimentação e reprodução seguindo rotas relativamente previsíveis. Mas dois registros recentes começaram a desafiar o que a ciência acreditava entender sobre esses gigantes do oceano. O deslocamento aconteceu entre continentes separados por enormes extensões marítimas e levantou uma pergunta desconfortável para pesquisadores: algo estaria mudando profundamente nos oceanos do planeta?

Cientistas registraram uma das maiores migrações já vistas entre baleias-jubarte

Cientistas registram migração impossível de baleias-jubarte entre Austrália e Brasil
© https://x.com/CRCiencia/

Um estudo internacional revelou que duas baleias-jubarte realizaram deslocamentos sFuperiores a 14 mil quilômetros entre a Austrália e o Brasil, estabelecendo um dos registros mais extraordinários já documentados para a espécie.

O trabalho foi liderado pela bióloga equatoriana Cristina Castro, diretora da Pacific Whale Foundation no Equador, em parceria com a pesquisadora australiana Stephanie Stack.

Segundo os cientistas, o comportamento observado é extremamente incomum porque as baleias não seguiram o padrão migratório normalmente associado à espécie.

As jubartes costumam viajar entre áreas específicas de reprodução e alimentação, repetindo trajetos relativamente estáveis ao longo dos anos. O que aconteceu nesses casos foi completamente diferente.

Os animais saíram de uma zona reprodutiva e apareceram anos depois em outra região de reprodução localizada do outro lado do planeta. Isso significa que atravessaram vastas áreas de oceano aberto em um deslocamento considerado raríssimo.

Um dos exemplares foi fotografado pela primeira vez em 2007 na Baía de Hervey, na Austrália. Mais de uma década depois, em 2019, o mesmo animal reapareceu próximo ao litoral de São Paulo, no Brasil, após percorrer cerca de 14.200 quilômetros.

O segundo caso impressionou ainda mais os pesquisadores.

A baleia havia sido registrada inicialmente em Banco de Abrolhos, principal área reprodutiva brasileira da espécie, em 2003. Vinte e dois anos depois, ela foi identificada na Austrália, a aproximadamente 15.100 quilômetros de distância.

As baleias não usavam rastreadores — e isso tornou tudo ainda mais impressionante

Cientistas registram migração impossível de baleias-jubarte entre Austrália e Brasil
© https://x.com/CRCiencia/

Ao contrário de muitos estudos modernos de migração animal, os cetáceos não carregavam dispositivos de rastreamento por satélite. A descoberta aconteceu graças a um enorme banco de imagens alimentado por pesquisadores e turistas ao redor do mundo.

Os cientistas utilizaram a plataforma Happywhale, um sistema global que emprega algoritmos de reconhecimento fotográfico para identificar baleias individualmente.

O segredo está na cauda dos animais.

Cada baleia-jubarte possui padrões únicos na parte inferior da nadadeira caudal, funcionando quase como impressões digitais biológicas. Comparando essas marcas, os algoritmos conseguem identificar indivíduos específicos mesmo após anos de distância entre os registros.

Para confirmar os casos, os pesquisadores analisaram mais de 19 mil fotografias coletadas entre 1984 e 2025 na Austrália e no Brasil.

O trabalho também chamou atenção pelo papel da chamada ciência cidadã. Muitas das imagens utilizadas foram registradas não apenas por cientistas, mas também por fotógrafos, turistas e observadores de baleias.

Segundo Cristina Castro, o caso mostra como contribuições públicas podem ajudar diretamente em pesquisas científicas complexas envolvendo biodiversidade marinha.

Mas a descoberta abriu uma preocupação ainda maior entre especialistas.

Mudanças climáticas podem estar alterando rotas migratórias históricas

Os pesquisadores acreditam que esses deslocamentos anormais talvez estejam relacionados a transformações ambientais provocadas pelo aquecimento global.

Embora ainda não exista uma resposta definitiva, cientistas suspeitam que alterações na disponibilidade de alimento possam estar influenciando o comportamento migratório das baleias.

Mudanças de temperatura nos oceanos, deslocamento de cardumes e transformações em ecossistemas marinhos podem estar obrigando os animais a explorar regiões que antes não faziam parte de suas rotas tradicionais.

Cristina Castro afirmou que “algo está acontecendo no mundo com as mudanças climáticas”, sugerindo que os padrões históricos de alimentação das baleias podem estar sofrendo alterações importantes.

O caso também não parece totalmente isolado.

Em 2025, outro registro extraordinário já havia chamado atenção da comunidade científica: uma baleia-jubarte migrou da Colômbia até a África em um trajeto estimado em aproximadamente 13 mil quilômetros.

Apesar de extremamente raros — representando apenas cerca de 0,01% dos indivíduos registrados — esses deslocamentos podem ter efeitos importantes para a espécie.

Os cientistas acreditam que movimentos tão incomuns ajudam a aumentar a diversidade genética entre populações separadas e também favorecem a troca de comportamentos entre diferentes grupos de baleias espalhados pelo planeta.

Ainda assim, o principal mistério permanece aberto.

Os oceanos sempre esconderam rotas silenciosas percorridas por gigantes marinhos durante milhares de anos. Agora, pela primeira vez, a ciência começa a perceber que algumas dessas rotas talvez estejam mudando diante dos nossos olhos.

[Fonte: Expreso]

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