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Ciência

“O corpo expressa o que a mente reprime”: as 7 ideias de Gabor Maté que estão mudando a forma como entendemos trauma, saúde mental e doenças físicas

O médico húngaro-canadense Gabor Maté se tornou uma das vozes mais influentes na discussão sobre trauma e saúde. Suas ideias conectam emoções, corpo e ambiente de forma profunda — e provocam tanto admiração quanto críticas no meio científico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Aos 81 anos, o médico e conferencista Gabor Maté se consolidou como uma referência global quando o assunto é trauma, desenvolvimento humano e saúde mental. Nascido na Hungria e radicado no Canadá, ele propõe uma visão que desafia a medicina tradicional: corpo, mente e emoções não funcionam separadamente. Tudo está interligado — e cada experiência deixa marcas.

Ao longo de décadas de prática clínica e pesquisa, Maté defende que muitos sintomas físicos e padrões de comportamento na vida adulta têm raízes emocionais, muitas vezes formadas ainda na infância. Sua abordagem convida a repensar não apenas a doença, mas também o que significa, de fato, estar saudável.

Trauma: não é o que acontece, é o que fica

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© Pexels

Para Maté, o trauma não é o evento em si, mas a marca interna que ele deixa. Segundo o médico, experiências adversas — mesmo as aparentemente “comuns”, como negligência emocional ou críticas constantes — podem impactar profundamente o sistema nervoso.

Ele resume essa ideia de forma direta: o trauma é o que acontece dentro de você como resultado do que aconteceu fora. Mesmo quando a memória do evento desaparece, o corpo continua carregando a resposta emocional.

Essa visão foi moldada não apenas por sua prática médica, mas também por sua própria história. Durante a ocupação nazista em Budapeste, Maté foi separado da mãe ainda bebê — uma experiência que influenciou profundamente suas investigações sobre o impacto emocional na saúde ao longo da vida.

As 7 lições centrais sobre trauma

Ao longo de seus livros e palestras, Maté consolidou uma série de ideias-chave sobre o trauma. Essas são algumas das principais:

Primeiro, o trauma é uma ferida interna, não apenas um evento externo. Ele se manifesta como uma resposta persistente no corpo e na mente.

Segundo, o trauma desconecta a pessoa de si mesma. Muitas pessoas passam a viver em modo de sobrevivência, sem acesso claro às próprias emoções ou desejos.

Terceiro, mecanismos de defesa da infância — como buscar aprovação ou evitar conflitos — podem se transformar em ansiedade, exaustão ou vícios na vida adulta.

Quarto, o tempo sozinho não cura. Se não for trabalhado, o trauma continua influenciando comportamentos e decisões.

Quinto, a cura não é apenas mental. Como o trauma se instala no corpo, abordagens físicas — como terapias somáticas — são fundamentais.

Sexto, emoções reprimidas podem impactar a saúde física. O estresse crônico, por exemplo, enfraquece o sistema imunológico e está associado a doenças como fibromialgia e artrite.

Sétimo, o sistema nervoso é central no processo de recuperação. Só quando o corpo percebe segurança é possível sair do modo de alerta constante e iniciar a cura.

O encontro com o príncipe Harry que ganhou o mundo

Em 2023, Gabor Maté ganhou ainda mais visibilidade ao participar de uma conversa pública com o príncipe Harry. A entrevista, transmitida ao vivo, explorou temas como trauma infantil, perda e o impacto de crescer sob intensa pressão emocional.

Durante o diálogo, Maté sugeriu que muitos dos comportamentos do príncipe poderiam ser entendidos à luz de experiências traumáticas precoces. Em um dos momentos mais controversos, ele mencionou características associadas ao TDAH, destacando que sintomas na vida adulta podem refletir feridas emocionais — e não apenas condições médicas.

A fala gerou críticas, mas o médico se defendeu afirmando que não estava fazendo um diagnóstico, e sim oferecendo uma interpretação baseada em contexto e experiência.

Uma nova forma de entender doença e sociedade

O trabalho de Maté vai além do indivíduo. Ele propõe que muitas doenças modernas são respostas adaptativas a uma sociedade que considera emocionalmente desconectada.

Na sua visão, vivemos em uma cultura que normaliza o estresse, valoriza a produtividade acima do bem-estar e ignora necessidades emocionais básicas. Nesse cenário, problemas como depressão, vícios e doenças autoimunes não seriam falhas individuais, mas tentativas do corpo de lidar com um ambiente adverso.

Durante sua atuação no bairro Downtown Eastside, em Vancouver — uma das regiões mais vulneráveis do Canadá —, Maté observou como trauma, pobreza e exclusão social estão profundamente conectados.

Ele também destaca que o trauma pode ser transmitido entre gerações, não apenas geneticamente, mas através das relações e padrões emocionais dentro das famílias.

Críticas e limites da teoria

Apesar da popularidade, as ideias de Maté não são consenso. Alguns especialistas apontam que sua abordagem pode exagerar a relação entre trauma e doenças físicas, indo além do que as evidências científicas comprovam atualmente.

Pesquisadores como o psicólogo Nick Haslam, da Universidade de Melbourne, alertam que fatores biológicos, genéticos e sociais também desempenham papéis importantes e não podem ser ignorados.

Outros críticos afirmam que a ideia de trauma como causa central de diversas condições pode simplificar problemas complexos — ou até gerar culpa em pacientes.

Entre a ciência e a empatia

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© Svitlana Hulko via Shutterstock

Mesmo diante das críticas, o impacto do trabalho de Gabor Maté é inegável. Sua principal contribuição talvez esteja em ampliar o olhar sobre a saúde, incorporando emoções, contexto social e experiências de vida na equação.

Mais do que oferecer respostas definitivas, Maté propõe uma mudança de perspectiva: entender o sofrimento humano com mais empatia, menos julgamento — e mais perguntas sobre o que está por trás da dor.

No fim das contas, sua mensagem central é simples, mas poderosa: para compreender a doença, é preciso antes compreender a história de quem sofre.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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