Pular para o conteúdo
Ciência

O efeito psicológico que ajuda a explicar a normalização de discursos cada vez mais extremos

Ideias que antes pareciam impensáveis podem mudar de lugar no debate público quando são repetidas o suficiente. A psicologia ajuda a explicar esse fenômeno.
Por

Tempo de leitura: 5 minutos

O autoritarismo nem sempre aparece como uma ruptura dramática. Às vezes, ele avança de maneira muito mais discreta: uma declaração controversa vira manchete, depois assunto de debate e, algum tempo depois, apenas mais uma opinião no meio de tantas outras. Esse processo interessa cada vez mais a pesquisadores porque mostra como a repetição pode alterar nossa percepção sobre os limites do aceitável — e até sobre aquilo que consideramos normal em uma democracia.

Quando o extraordinário começa a parecer comum

Uma das características mais difíceis de perceber na erosão democrática é justamente sua gradualidade. Uma medida que provocaria indignação hoje pode ser recebida com menos surpresa amanhã, especialmente quando ideias semelhantes aparecem repetidamente em discursos políticos, redes sociais, programas de televisão e outros espaços públicos.

A questão não é apenas se determinada proposta é aprovada. Antes disso, existe uma etapa menos visível: ela precisa entrar no campo daquilo que pode ser discutido.

Pesquisadores vêm estudando como a exposição repetida a violações de normas democráticas pode diminuir as reações emocionais provocadas por novas transgressões. A neurocientista Tali Sharot e o jurista Cass Sunstein discutiram esse mecanismo em um trabalho publicado na Science Advances, chamando atenção para a possibilidade de as sociedades se habituarem ao declínio democrático.

O processo pode ser comparado a outros fenômenos psicológicos cotidianos. Um estímulo inicialmente intenso tende a provocar uma reação menor quando é apresentado continuamente. O estímulo não necessariamente desapareceu; nossa resposta a ele é que mudou.

Na política, isso cria uma situação particularmente delicada. Um ataque contra instituições, jornalistas, juízes ou determinados grupos sociais pode inicialmente provocar indignação. Com o tempo, porém, novas ocorrências podem ser avaliadas tendo como referência aquilo que aconteceu imediatamente antes, e não os princípios democráticos que existiam anteriormente.

O cérebro também participa dessa mudança

A chamada habituação ajuda a entender por que a repetição pode ser tão poderosa. Quando somos expostos várias vezes ao mesmo estímulo, nossa reação tende a diminuir. Esse mecanismo é útil em muitas situações da vida cotidiana, mas pode produzir efeitos preocupantes quando aplicado à normalização de comportamentos políticos.

Uma pesquisa publicada na PNAS, por exemplo, analisou como mensagens de elites políticas que violavam normas democráticas poderiam afetar as reações posteriores das pessoas. Os resultados indicaram que a exposição anterior estava associada a menores níveis de emoções como raiva e ansiedade diante de novas violações.

Isso não significa que qualquer pessoa exposta repetidamente a uma determinada mensagem necessariamente passe a concordar com ela. O fenômeno é mais sutil. Uma ideia pode continuar sendo rejeitada, mas provocar menos surpresa ou indignação do que provocaria anteriormente.

É nesse ponto que entra a chamada janela de Overton: o conjunto de posições consideradas aceitáveis ou discutíveis em determinado momento. Essa janela não é imóvel. Mudanças sociais, culturais e políticas podem ampliá-la ou deslocá-la.

Uma estratégia política pode, portanto, não buscar a aprovação imediata de uma proposta radical. A simples introdução do tema no debate pode alterar o contexto. Se uma posição extremamente controversa passa a ser discutida regularmente, uma proposta menos radical pode começar a parecer moderada em comparação.

Debates recentes sobre imigração na Europa ilustram como esse mecanismo pode aparecer no discurso político. Na Espanha, por exemplo, propostas envolvendo deportações em larga escala passaram a ocupar espaço no debate público, levando a discussões não apenas sobre políticas migratórias, mas também sobre os limites do discurso político contemporâneo.

Não é preciso existir uma grande conspiração

Seria um erro imaginar esse processo como uma operação centralizada, cuidadosamente coordenada por uma única organização. O funcionamento pode ser muito mais descentralizado.

Partidos políticos, líderes, veículos de comunicação, influenciadores e comunidades digitais atuam em ambientes diferentes, mas todos competem pela atenção pública. Uma declaração provocativa pode gerar reações; essas reações produzem mais divulgação; a divulgação coloca novamente o assunto diante de milhões de pessoas.

O resultado pode ser um ciclo no qual a controvérsia alimenta sua própria circulação.

O fenômeno ganha importância em um cenário internacional marcado por dificuldades democráticas. Relatórios recentes de organizações como Freedom House e V-Dem apontam problemas relacionados à liberdade política, enfraquecimento institucional e processos de autocratização em diferentes países.

Isso não significa que toda sociedade esteja inevitavelmente caminhando para o autoritarismo. Também não significa que toda proposta radical represente automaticamente uma ameaça democrática. A questão é observar como as normas e instituições funcionam ao longo do tempo.

Uma democracia não depende apenas da realização periódica de eleições. Ela também envolve limites ao poder, independência institucional, direitos individuais, liberdade de imprensa e mecanismos capazes de impedir abusos.

Quando essas regras são repetidamente tratadas como obstáculos ou inconvenientes, o desgaste pode acontecer antes que exista uma ruptura formal.

O verdadeiro desafio é perceber a mudança

Se a habituação pode reduzir nossa reação diante da deterioração democrática, uma possível resposta é justamente tentar recuperar uma referência mais ampla.

Em vez de comparar cada acontecimento apenas com o escândalo anterior, pesquisadores como Sharot e Sunstein defendem a ideia de desabituação: avaliar o presente também em relação aos princípios e padrões democráticos que uma sociedade considera desejáveis.

Essa perspectiva muda a pergunta.

Em vez de perguntar apenas se determinada situação é menos grave que a anterior, podemos perguntar se ela seria considerada aceitável segundo os mesmos padrões que utilizávamos antes.

Essa diferença é importante porque mudanças políticas profundas nem sempre acontecem de uma vez. Podem ocorrer através de pequenas alterações sucessivas, cada uma suficientemente limitada para parecer administrável quando observada isoladamente.

É justamente por isso que a repetição merece atenção. O risco não está necessariamente em uma única frase, proposta ou episódio, mas na possibilidade de uma sequência de acontecimentos alterar gradualmente aquilo que uma sociedade considera normal.

No fim, a questão não é viver em estado permanente de indignação. É preservar a capacidade de reconhecer quando determinados limites estão sendo deslocados.

Porque talvez a parte mais difícil de perceber uma mudança não seja o momento em que ela acontece. Seja o momento em que deixamos de perceber que ela está acontecendo.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados