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Mundo

O futuro do trabalho será medido em horas ou em qualidade de vida?

Enquanto países da América Latina discutem a redução da jornada de trabalho para priorizar saúde e bem-estar, a China mantém o modelo extenuante do “996”. A disputa revela dois modos opostos de entender produtividade — e levanta uma pergunta crucial: o que vale mais, tempo para viver ou para produzir?
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Tempo de leitura: 2 minutos

O futuro do trabalho entrou em pauta com força. Em diferentes países latino-americanos, governos e sindicatos avançam com propostas de reduzir a jornada semanal para 40 horas, aproximando-se de modelos já consolidados na Europa. A meta não é trabalhar menos, mas trabalhar melhor, equilibrando vida pessoal e profissional. Enquanto isso, do outro lado do mundo, a China sustenta uma cultura de longas jornadas que trata o descanso como perda de tempo.

América Latina: uma agenda mais humana

México, Chile, Colômbia, Argentina e Peru já discutem ou aplicam a redução gradual da jornada. No Chile, a lei de 40 horas já foi aprovada; na Colômbia, entrou em vigor em 2023. No México, a proposta prevê a transição entre 2026 e 2030.

No Brasil, a discussão ainda é tímida, mas já aparece no horizonte político e sindical. Afinal, segundo dados da OCDE, os brasileiros estão entre os que mais trabalham por ano no mundo — sem ganhos equivalentes em produtividade. Reformas que priorizem qualidade podem ser decisivas para saúde mental, inovação e igualdade de gênero.

China e a cultura do 996

No extremo oposto está a China, onde o modelo “996” — das 9h às 21h, seis dias por semana — ainda é visto como símbolo de disciplina. Criado por empresários como Jack Ma (Alibaba), o sistema já foi alvo de protestos sob o lema “996-ICU”, denunciando o colapso físico e mental dos trabalhadores.

Em alguns casos, empresas chegam a reter os três primeiros salários dos funcionários para evitar demissões precoces. Fins de semana são vistos como oportunidades para assumir mais funções. O descanso, nesse modelo, não é valorizado.

O preço do esgotamento

O excesso de trabalho na China já cobra seu preço. A taxa de natalidade atingiu o nível mais baixo em seis décadas e o consumo interno não cresce como esperado, pois a população tem pouco tempo para gastar. Além disso, muitas mulheres abandonaram o mercado de trabalho pela pressão social e profissional, ampliando desigualdades.

O governo de Xi Jinping tenta reverter a tendência com a política de “prosperidade comum”, mas mudar um modelo baseado na obediência e no excesso de horas exige transformação cultural.

Excesso De Trabalho Na China
© Humphery – Shutterstock

E no Brasil?

Se a China mede eficiência em horas, a América Latina dá sinais de mudança. A grande questão é como adaptar esse movimento à realidade brasileira, marcada pela alta informalidade e pela predominância de pequenas e médias empresas.

Experiências europeias mostram que trabalhar menos pode significar produzir mais, desde que haja investimento em tecnologia e inovação. No Brasil, o debate precisa conciliar redução de jornada, produtividade e combate à precarização.

Dois caminhos, uma mesma pergunta

No fim, a batalha é silenciosa, mas decisiva: queremos uma sociedade em que o tempo para descansar e viver tenha o mesmo valor que o tempo para produzir?

O futuro do trabalho no Brasil e no mundo pode ser definido justamente por essa escolha.

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