Ele começou sua jornada com medo de agulhas e terminou sendo homenageado como herói nacional. James Harrison não era médico nem cientista, mas sua contribuição para a medicina moderna foi incomparável: graças a uma rara característica do seu sangue, milhões de recém-nascidos puderam sobreviver. Conheça a história emocionante do “homem do braço de ouro”.
Uma transfusão que mudou tudo
Aos 14 anos, James Harrison precisou de uma cirurgia grave no tórax e recebeu 13 litros de sangue para sobreviver. O impacto desse gesto anônimo o marcou profundamente. Quando completou 18 anos, a idade mínima legal na Austrália para doar sangue, ele prometeu retribuir salvando vidas como os doadores que o ajudaram.
A descoberta que o transformou em lenda
Em 1966, médicos descobriram algo extraordinário no plasma de Harrison: um poderoso anticorpo contra o antígeno D, usado no tratamento da doença hemolítica do recém-nascido (HDN). Essa condição ocorre quando a mãe é Rh negativo e o feto herda o fator Rh positivo do pai, causando reações que podem levar à morte do bebê.
Graças à sua rara composição sanguínea, o plasma de Harrison era ideal para produzir a injeção Anti-D, administrada a grávidas em risco. Com isso, foi possível prevenir milhões de complicações em gestações e salvar vidas antes mesmo do nascimento.
Uma rotina de doações por 63 anos
Desde os 18 anos até os 81, Harrison doou sangue toda semana ou, no máximo, a cada quinze dias. No total, foram 1.172 doações. A Cruz Vermelha Australiana calculou que ele salvou mais de 2,4 milhões de bebês, inclusive sua própria neta. Por isso, foi condecorado com a Ordem da Austrália e entrou para o Guinness Book em 2005.
Um “conejinho de índias” voluntário
Quando os médicos descobriram a utilidade do seu plasma, pediram sua participação em estudos e o alertaram sobre os riscos. Harrison aceitou sem hesitar, apoiado por sua esposa, e passou a doar de forma contínua. O mais impressionante? Quanto mais doava, mais potente se tornava seu plasma — algo raríssimo.
Para protegê-lo de possíveis efeitos colaterais, como anemia, os médicos desenvolveram um sistema que devolvia os glóbulos vermelhos após a retirada do plasma.
Um doador com medo de agulhas
Apesar de toda sua bravura, Harrison revelou que sempre teve fobia de agulhas. Nunca conseguiu assistir a uma injeção em si mesmo e só conseguia doar pelo braço direito, pois o esquerdo lhe causava dor. Por décadas, manteve esse hábito com disciplina e altruísmo, mesmo sem suportar ver sangue.
A última doação e a despedida
Em 18 de maio de 2018, aos 81 anos, fez sua última doação. Médicos o proibiram de continuar por precaução. Nesse dia, foi surpreendido por doze mães com seus bebês — todos salvos por sua contribuição. Cinco delas o acompanharam até a sala de doação, num gesto de gratidão silenciosa e comovente.
“Se pudesse, eu continuaria. Mas sei que deixo um pouco de mim em cada vida salva”, disse emocionado.
Um legado eterno
James Harrison faleceu em 17 de fevereiro de 2025, aos 88 anos. Sua filha declarou que ele se orgulhava profundamente do impacto que causou. Sua história ultrapassou fronteiras, inspirando campanhas de doação e mostrando que qualquer um pode ser herói — até quem tem medo de agulhas.
Fonte: Infobae