Milhões de pessoas sonharam em caminhar sobre a Lua, mas poucas contribuíram tanto para sua exploração quanto um geólogo americano que jamais conseguiu realizar esse desejo. O destino, porém, reservou uma reviravolta extraordinária. Décadas após ajudar a tornar possíveis algumas das maiores missões espaciais da história, ele conquistou um lugar único na exploração do espaço e entrou para sempre na história da humanidade.
O cientista que dedicou a vida inteira à Lua

Eugene Merle Shoemaker nasceu em Los Angeles, em 1928, e demonstrou desde cedo uma inteligência incomum. Concluiu o ensino médio em apenas três anos e ingressou na universidade aos 16 anos, iniciando uma trajetória acadêmica que o transformaria em um dos maiores especialistas em geologia planetária do século XX.
Depois de se formar no California Institute of Technology, iniciou o doutorado na Universidade de Princeton. Foi nesse período que conheceu Carolyn Spellman, com quem se casou em 1951. Mais tarde, ela também se tornaria uma importante astrônoma e parceira de pesquisa em diversas descobertas científicas.
Shoemaker ingressou no Serviço Geológico dos Estados Unidos em 1950 para pesquisar depósitos de urânio nos estados de Utah e Colorado. Foi durante esse trabalho que desenvolveu um interesse crescente pelas crateras de impacto, área que acabaria definindo toda a sua carreira.
Seu fascínio pela Lua levou à criação da astrogeologia, campo científico dedicado ao estudo da geologia de outros corpos celestes. Ele também fundou o Astrogeology Research Program e demonstrou que as crateras lunares haviam sido formadas por impactos de meteoritos, uma conclusão que transformou a compreensão sobre a história do nosso satélite natural.
O sonho interrompido por uma doença
Todo esse conhecimento fez de Shoemaker um nome indispensável para o programa espacial americano.
Ele participou das missões Ranger, colaborou diretamente com o Programa Apollo e foi responsável por elaborar os primeiros mapas geológicos detalhados da Lua.
Também treinou astronautas em crateras localizadas no Arizona, simulando as condições que eles encontrariam durante as futuras missões lunares.
Seu conhecimento era tão reconhecido que chegou a ser escolhido para integrar o grupo de cientistas que poderiam caminhar sobre a superfície lunar.
No entanto, o sonho foi interrompido por um diagnóstico inesperado.
Shoemaker descobriu que sofria da doença de Addison, um distúrbio das glândulas suprarrenais que o impediu de se tornar astronauta.
Mesmo sem viajar ao espaço, sua contribuição permaneceu decisiva.
Ele participou da preparação das missões Apollo 8, Apollo 11, Apollo 12 e Apollo 13, ajudou a definir locais de pouso e orientou astronautas como Neil Armstrong e Buzz Aldrin sobre a geologia da Lua.
Na prática, ensinou aos primeiros exploradores lunares tudo o que precisavam saber antes de colocar os pés no solo do satélite.
Descobertas que marcaram a astronomia
A carreira de Shoemaker não se limitou à exploração lunar.
Ao lado da esposa Carolyn Shoemaker e do astrônomo David Levy, descobriu o famoso cometa Shoemaker-Levy 9, que ganhou notoriedade mundial ao colidir com Júpiter em 1994.
Foi a primeira vez que a humanidade conseguiu observar diretamente um impacto entre um cometa e um planeta, fornecendo informações inéditas sobre esse tipo de fenômeno.
Ao longo da vida, o pesquisador recebeu inúmeros reconhecimentos científicos, incluindo a National Medal of Science, uma das maiores honrarias concedidas nos Estados Unidos.
Sua trajetória, porém, foi interrompida de forma inesperada.
Em julho de 1997, durante uma viagem à Austrália para estudar mais uma cratera de impacto, Shoemaker morreu em um acidente de carro. Carolyn ficou gravemente ferida, mas sobreviveu.
O destino que nenhum outro ser humano teve
Após sua morte, a comunidade científica decidiu prestar uma homenagem à altura de sua contribuição.
Além de dar seu nome a crateras na Lua e em Marte, a um asteroide e até a uma sonda espacial, a NASA autorizou uma missão inédita.
As cinzas de Eugene Shoemaker seriam levadas para a Lua.
Em janeiro de 1998, a sonda Lunar Prospector partiu da Terra levando uma pequena cápsula de policarbonato produzida pela empresa Celestis. No interior estavam as cinzas do cientista, acompanhadas de uma gravação a laser com seu nome, datas de nascimento e morte, a imagem do cometa Hale-Bopp, uma representação da Cratera Barringer, onde treinou astronautas das missões Apollo, e um trecho da obra Romeu e Julieta, de William Shakespeare.
Em 31 de julho de 1999, após concluir sua missão científica, a NASA direcionou deliberadamente a sonda contra a superfície lunar, nas proximidades do polo sul da Lua.
Com o impacto, as cinzas de Shoemaker passaram a repousar definitivamente naquele solo que ele dedicou a vida inteira a estudar, tornando-se até hoje o único ser humano cujos restos mortais foram depositados em outro corpo celeste além da Terra.
A homenagem simbolizou o reconhecimento de uma carreira que ajudou a abrir caminho para a exploração espacial moderna. O homem que nunca conseguiu realizar o sonho de caminhar sobre a Lua acabou conquistando algo ainda mais singular: tornar-se seu único morador eterno.
[Fonte: Clarin]