A imagem mais comum do lixo espacial é a de satélites desativados e fragmentos metálicos girando ao redor da Terra em velocidades impressionantes. No entanto, uma parte significativa dos resíduos produzidos pela exploração espacial não está em órbita. Ela repousa sobre superfícies distantes, espalhada por luas, planetas e asteroides.
Entre todos esses locais, nenhum acumulou tantos vestígios da atividade humana quanto a Lua. Nosso satélite natural abriga atualmente mais de 70 sondas, módulos de pouso, veículos exploratórios e espaçonaves que terminaram suas missões de diferentes formas. Algumas pousaram com sucesso, outras se chocaram deliberadamente contra a superfície e várias simplesmente deixaram de funcionar após cumprir seus objetivos.
Com novas missões previstas para as próximas décadas, esse número tende a crescer rapidamente.
Como a Lua virou um cemitério espacial

Os objetos abandonados na Lua chegaram lá por diferentes caminhos.
Alguns foram destruídos em impactos planejados. Outros sofreram acidentes durante suas tentativas de pouso. Há ainda espaçonaves que foram deliberadamente retiradas de órbita após o fim de suas missões e aquelas que simplesmente pousaram com sucesso e permaneceram onde estavam.
O primeiro artefato humano a alcançar a superfície lunar foi a sonda soviética Luna 2, em setembro de 1959. A missão tinha como objetivo comprovar que era possível atingir a Lua e coletar dados científicos durante a aproximação final. Após cumprir sua tarefa, a nave colidiu propositalmente com a superfície.
Poucos anos depois, a NASA também teve suas baixas. Em 1966, a sonda Surveyor 2 perdeu o controle durante a descida devido a uma falha em um de seus propulsores e acabou se chocando contra o solo lunar.
No mesmo ano, outra missão histórica entrou para essa coleção. A soviética Luna 9 realizou o primeiro pouso suave da história em outro corpo celeste. Após transmitir dados e imagens, permaneceu para sempre no local onde aterrissou.
Marte ocupa o segundo lugar
Embora a Lua lidere com folga, Marte também acumula uma quantidade considerável de equipamentos abandonados.
Atualmente, o planeta vermelho abriga cerca de 17 artefatos humanos entre módulos de pouso, sondas, rovers e até mesmo um helicóptero.
Entre eles estão missões fracassadas, como a soviética Mars 2, que caiu em 1971, e missões extremamente bem-sucedidas que simplesmente encerraram suas operações após anos de trabalho.
É o caso do módulo Viking 1, que operou entre 1976 e 1982, além dos famosos rovers Spirit, Opportunity e Zhurong, que hoje permanecem imóveis na superfície marciana.
Até mesmo o helicóptero Ingenuity, responsável por realizar os primeiros voos motorizados em outro planeta, já foi oficialmente aposentado após superar todas as expectativas da NASA.
E a lista deve aumentar. A agência espacial americana anunciou recentemente que perdeu contato definitivo com a sonda MAVEN. Os cálculos indicam que ela poderá cair em Marte dentro de algumas décadas à medida que sua órbita for sendo degradada pela tênue atmosfera marciana.
O lixo espacial pode se transformar em matéria-prima
O que hoje parece apenas sucata poderá ter grande valor no futuro.
À medida que a exploração espacial avançar, transportar materiais da Terra continuará sendo uma operação extremamente cara. Cada quilograma enviado ao espaço representa custos elevados e desafios logísticos significativos.
Por isso, pesquisadores já estudam formas de aproveitar recursos disponíveis fora da Terra, incluindo equipamentos abandonados em outros mundos.
Em vez de enviar grandes quantidades de metal, componentes eletrônicos e materiais estruturais da Terra, futuras bases lunares poderiam reciclar peças de antigas missões. Algumas propostas chegam a sugerir a captura de detritos espaciais que ainda orbitam a Terra para posterior processamento na superfície da Lua.
Essa abordagem poderia reduzir custos e acelerar a construção de infraestrutura permanente fora do planeta.
Um problema jurídico pode dificultar tudo
Apesar do potencial, existe um obstáculo importante: a legislação internacional.
Segundo os tratados das Nações Unidas que regulam o espaço exterior, um objeto espacial continua sendo propriedade do país que o lançou, independentemente de onde ele esteja.
Na prática, isso significa que os restos da Luna 2 continuam pertencendo à Rússia, sucessora legal da União Soviética. Da mesma forma, os destroços da Surveyor 2 permanecem sob jurisdição dos Estados Unidos.
Essa regra pode gerar conflitos no futuro, especialmente quando a exploração comercial da Lua se tornar uma realidade.
Países que chegaram mais cedo ao satélite possuem muito mais equipamentos abandonados do que nações que iniciaram seus programas espaciais recentemente. A China, por exemplo, possui apenas algumas missões na superfície lunar, enquanto Estados Unidos e Rússia acumulam dezenas de artefatos espalhados pelo solo.
O ferro-velho lunar está apenas começando

O número atual de objetos abandonados parece grande, mas provavelmente representa apenas o início.
Nos próximos anos, programas como Artemis, da NASA, além das missões chinesas, europeias e privadas, deverão aumentar significativamente a presença humana e robótica na Lua.
Com isso, o maior cemitério do Sistema Solar continuará crescendo. O que hoje é visto como lixo histórico pode acabar se transformando em um valioso estoque de matérias-primas para futuras colônias espaciais.
A grande questão é se a humanidade conseguirá criar regras para reutilizar esses materiais antes que o ferro-velho lunar se torne tão complexo quanto os desafios que já enfrentamos aqui na Terra.
[ Fonte: Xataka ]