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Ciência

O misterioso cometa interestelar que se aproxima ao Sol a 250 mil km/h — e o que ele pode nos revelar sobre a origem do cosmos

Batizado de 3I/ATLAS, o novo visitante interestelar acelera rumo ao seu ponto mais próximo do Sol nesta quarta-feira (29). Vindo possivelmente do centro da Via Láctea, ele pode ser o cometa mais antigo já observado — e um lembrete de quão vasto e surpreendente é o universo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um visitante distante, nascido sob outras estrelas, atravessa o Sistema Solar a uma velocidade vertiginosa. Trata-se do cometa 3I/ATLAS, que nesta quarta-feira (29 de outubro) atinge seu ponto mais próximo do Sol, viajando a cerca de 250 mil quilômetros por hora.

Um visitante de fora do Sistema Solar

Segundo a astrônoma Romina Di Sisto, pesquisadora do Conicet e professora da Universidade Nacional de La Plata, não há qualquer risco de colisão com a Terra: “O máximo de aproximação será em 19 de dezembro, a quase o dobro da distância entre o Sol e nosso planeta.”

O que torna o 3I/ATLAS tão especial, explica Di Sisto, é sua origem interestelar — ele vem de outro sistema estelar, e não da nuvem de Oort, de onde se formam os cometas tradicionais. Isso faz dele apenas o terceiro objeto interestelar já identificado, depois de ‘Oumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019).

“A velocidade e a trajetória indicam que ele foi expulso de outro sistema planetário, talvez por um planeta gigante ou por um desequilíbrio gravitacional”, detalha a cientista. Ou seja, o 3I/ATLAS pode estar vagando pelo espaço há bilhões de anos, desde antes mesmo da formação da Terra.

Um cometa mais velho que o próprio Sistema Solar

O cometa interestelar 3I/ATLAS multiplica em 40 vezes seu brilho e exibe uma atmosfera verde inédita em objetos semelhantes
© X / Space_PHD.

Estima-se que o cometa tenha entre 7 e 14 bilhões de anos, possivelmente mais antigo que o Sistema Solar, que surgiu há cerca de 4,6 bilhões de anos. Ele foi descoberto em 1º de julho pelo telescópio ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System), localizado em Río Hurtado, no Chile — o mesmo projeto responsável por monitorar asteroides que possam representar risco à Terra.

Quando detectado, o cometa se encontrava próximo de Júpiter e tinha um diâmetro estimado entre 300 metros e 1 quilômetro. “É incrível que possamos observar algo assim”, comenta Di Sisto. “Para cada corpo que chega até nós, deve haver milhões vagando sem rumo no espaço interestelar.”

O vazio entre as estrelas

A astrônoma explica que, apesar de existirem bilhões de estrelas na galáxia, o espaço entre elas é quase inimaginavelmente vazio. “Se o Sol tivesse o tamanho de um grão de açúcar, a estrela mais próxima estaria a 30 quilômetros de distância”, ilustra. Por isso, é surpreendente que um fragmento tão pequeno consiga atravessar esse imenso vazio e ser detectado aqui.

A alta velocidade do encontro solar

De Donde Viene Atlas
© University of Hawaii/NASA

À medida que se aproxima do Sol, o 3I/ATLAS acelera drasticamente sob a força da gravidade solar. Ele atingirá seu pico de velocidade nesta quarta-feira e, depois, será lançado de volta ao espaço profundo — para nunca mais retornar.

Durante essa passagem, os astrônomos poderão estudar sua composição química, já que as altas temperaturas farão o gelo do núcleo sublimar e liberar gases. Um dos aspectos mais curiosos é que o 3I/ATLAS apresenta uma das maiores proporções de dióxido de carbono já vistas em um cometa, o que pode revelar pistas sobre o ambiente em que se formou.

Nem nave alienígena, nem ameaça apocalíptica

Alguns cientistas, como o astrofísico Avi Loeb, de Harvard, já haviam sugerido que objetos interestelares poderiam ser sondas extraterrestres. Mas, segundo Di Sisto, esse não é o caso: “O 3I/ATLAS é claramente um cometa, não há indício algum de nave ou tecnologia.”

Embora a hipótese alienígena renda manchetes, a comunidade científica a vê como mera especulação. “É bom que as pessoas se interessem por astronomia”, diz a pesquisadora, “mas nem tudo o que vem do espaço é uma nave espacial.”

Um espetáculo difícil de ver, mas de grande valor científico

Visualmente, o cometa não será um espetáculo a olho nu. Observá-lo exigirá telescópios potentes, como o Jorge Sahade, de 2,15 metros, no Complexo Astronômico El Leoncito (CASLEO), em San Juan, Argentina.

O astrônomo Eduardo Fernández Lajus, também da Universidade de La Plata, utilizou o observatório para seguir o movimento do 3I/ATLAS no céu. “O que se vê é apenas um ponto difuso entre outros pontos, mas para quem entende, isso já é fascinante”, explica.

Um lembrete cósmico

O nome 3I/ATLAS pode não soar tão poético quanto ‘Oumuamua (“mensageiro distante”, em havaiano), mas o significado de sua descoberta é imenso. Ele não traz mensagens de civilizações distantes — apenas um testemunho silencioso da vastidão e da antiguidade do universo.

Enquanto passa por nós a uma velocidade estonteante, o cometa 3I/ATLAS nos lembra o quão pequeno é o nosso mundo diante do infinito.

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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