Na superfície, nada denuncia o que acontece dezenas de quilômetros abaixo dos nossos pés. Mas a crosta terrestre está longe de permanecer imóvel. Enormes blocos rochosos avançam lentamente, acumulam tensão e eventualmente liberam quantidades gigantescas de energia. Foi justamente um desses processos que esteve por trás do terremoto de magnitude 7,4 registrado no oeste da Colômbia e ajuda a entender um detalhe intrigante sobre outros tremores recentes na região.
O que aconteceu nas profundezas da Colômbia

O terremoto registrado às 7h34 teve epicentro no município de San José del Palmar, no departamento de Chocó, e ocorreu a aproximadamente 107 quilômetros de profundidade. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), sua magnitude chegou a 7,4.
As autoridades informaram cerca de 200 mortes, além de desabamentos e graves danos materiais em cidades como Pereira, Manizales e Cali. Julio Fierro Morales, diretor-geral do Serviço Geológico Colombiano, classificou o episódio como o terremoto mais forte sentido no país na última década.
Para compreender sua origem, porém, é necessário olhar muito além do epicentro.
A Colômbia está localizada em uma região geologicamente complexa, onde interagem principalmente as placas de Nazca, Sul-Americana e do Caribe.
As placas tectônicas formam a parte rígida mais externa do planeta. Uma maneira simples de imaginar essa estrutura é pensar em um ovo: o interior possui materiais mais quentes e capazes de se deformar lentamente, enquanto a camada externa é rígida e fragmentada.
Esses enormes fragmentos se movimentam continuamente. E quando interagem, podem produzir terremotos.
Uma placa está literalmente mergulhando sob outra
O fenômeno responsável pelo terremoto colombiano é conhecido como subducção. Ele acontece quando duas placas tectônicas convergem e uma delas desliza para baixo da outra, penetrando lentamente no interior do planeta.
No oeste colombiano, é a placa oceânica de Nazca que avança sob a placa Sul-Americana.
Segundo Germán Prieto, professor do Departamento de Geociências da Universidade Nacional da Colômbia, a placa de Nazca, situada no Pacífico, mergulha em direção ao leste, justamente onde está o território colombiano.
Esse deslocamento não acontece rapidamente aos olhos humanos. A placa avança aproximadamente 55 a 60 milímetros por ano. Parece pouco, mas o movimento contínuo permite o acúmulo de enormes tensões durante longos períodos.
Quando parte dessa energia é liberada abruptamente, as ondas sísmicas atravessam as rochas e chegam à superfície na forma de terremoto.
É também esse mecanismo que ajuda a entender por que regiões do Pacífico apresentam uma combinação tão característica de terremotos e vulcões.
O chamado Cinturão de Fogo do Pacífico reúne diversos limites convergentes e zonas de subducção. Essa gigantesca faixa passa por áreas do Chile, Peru e Colômbia, segue pela América Central, América do Norte, Alasca, Rússia e Japão e continua até regiões como as Ilhas Marianas, Nova Zelândia e Tonga.
Um terremoto maior nem sempre significa mais destruição

A magnitude 7,4 impressiona, mas esse número sozinho não determina quanto estrago um terremoto provocará.
Um dos elementos fundamentais é a profundidade.
O terremoto recente ocorreu a cerca de 107 quilômetros abaixo da superfície. Isso permite que parte da energia das ondas sísmicas seja atenuada antes de chegar às cidades.
O contraste com uma das maiores tragédias sísmicas da história recente colombiana ajuda a compreender esse fenômeno.
Em 1999, um terremoto de magnitude 6,2 atingiu a região do Eixo Cafeeiro e devastou especialmente a cidade de Armenia. Apesar de apresentar magnitude consideravelmente menor, o evento ocorreu muito mais próximo da superfície e deixou cerca de 1.200 mortos.
Portanto, além da magnitude, fatores como profundidade, distância dos centros urbanos, características do solo e resistência das construções influenciam diretamente o potencial destrutivo.
Essa diferença também é essencial para responder a outra questão levantada após o terremoto: sua possível relação com os tremores registrados recentemente na Venezuela.
Por que os terremotos da Venezuela não são uma continuação do colombiano
Embora Colômbia e Venezuela façam parte de um enorme sistema tectônico interconectado, especialistas afirmam que os eventos não possuem uma ligação direta.
Os dois países compartilham influências das placas Sul-Americana e do Caribe, mas os mecanismos responsáveis pelos terremotos são diferentes.
Na Venezuela, predominam sistemas nos quais as placas apresentam movimentos mais laterais, associados a falhas relativamente superficiais. No oeste colombiano, por outro lado, existe a compressão provocada pela placa de Nazca mergulhando sob a Sul-Americana.
Isso significa que um terremoto venezuelano não funciona como uma espécie de gatilho automático para outro na Colômbia.
Os sistemas fazem parte do mesmo gigantesco quebra-cabeça planetário, mas podem acumular e liberar energia de maneiras diferentes.
Por que tantos terremotos acontecem na Colômbia
A localização colombiana torna o país naturalmente sujeito a intensa atividade sísmica.
Segundo o Serviço Geológico Colombiano, são registrados em média cerca de 2.500 terremotos por mês, aproximadamente 80 por dia. A enorme maioria apresenta baixa magnitude e sequer é percebida pela população.
A história mostra, porém, episódios muito mais poderosos.
Em 1906, um terremoto de magnitude 8,8 ocorreu diante da costa do Pacífico entre Colômbia e Equador e provocou um tsunami. Em 1979, outro evento, de magnitude 8,1, atingiu a região próxima ao litoral de Nariño.
[Fonte: Yahoo!]