A megaoperação realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, reacendeu a atenção sobre o Comando Vermelho (CV). A ação, que cumpriu mais de 100 mandados de prisão e resultou em 121 mortes e 1 tonelada de drogas apreendida, é parte da tentativa do Estado de conter uma organização que nasceu há meio século dentro de um presídio.
O inferno tropical onde tudo começou

Apesar da paisagem paradisíaca, a Ilha Grande, na costa fluminense, abrigava um dos locais mais temidos do país: o presídio Cândido Mendes, apelidado de “Caldeirão do Inferno”. Ali, onde “o filho chora e a mãe não ouve”, o Brasil isolava desde o século XIX doentes, presos políticos e criminosos perigosos.
Durante o regime militar, nos anos 1960 e 1970, a penitenciária se tornou um ponto de encontro improvável: presos políticos, militantes de esquerda e criminosos comuns dividiam o mesmo espaço. E dessa mistura, nasceu o germe do que viria a ser o Comando Vermelho.
Da colônia de isolamento à escola do crime
A história da Ilha Grande começa muito antes do tráfico. Em 1884, o imperador Dom Pedro II criou ali o Lazareto, uma espécie de quarentena para viajantes contaminados por doenças trazidas da Europa e da África. Décadas depois, o espaço virou Colônia Correcional, depois Instituto Penal Cândido Mendes — uma sucessão de tentativas de usar a ilha como depósito de quem o Estado queria esquecer.
Nos anos 1940, o escritor Graciliano Ramos esteve preso no local e começou a escrever Memórias do Cárcere. Já na década de 1960, com a ditadura, o presídio passou a receber guerrilheiros, marinheiros rebelados e opositores do regime. Eram levados em porões de navios, muitas vezes junto a sacos de batatas, para cumprir pena em isolamento total.
O encontro entre política e marginalidade
Com o endurecimento das leis de segurança nacional em 1969, o governo começou a enviar para a mesma prisão assaltantes de banco, homicidas e ladrões comuns. O convívio entre os dois grupos gerou choque — e aprendizado.
Os presos políticos, muitos com formação ideológica e experiência de organização, passaram a ensinar os criminosos a criar estruturas coletivas, planejar ações e resistir ao sistema. Em contrapartida, os detentos comuns mostravam aos militantes a dura realidade da criminalidade urbana.
Na ala mais isolada, chamada Fundão, esse intercâmbio virou uma escola. Os presos criaram uma farmácia, biblioteca, fundo coletivo de alimentos e até um time de futebol, o 25 de Março, referência ao levante dos marinheiros contra a ditadura.
O “Muro da Vergonha” e a divisão das alas
Com o tempo, a convivência ficou tensa. Um grupo de presos políticos exigiu a separação física das galerias — e ergueu um muro de chapas de aço entre as alas. O “Muro da Vergonha”, como ficou conhecido, acabou estimulando ainda mais a união entre os detentos do Fundão, que começaram a se ver como uma comunidade própria dentro da prisão.
Um dos líderes desse grupo era William da Silva Lima, o Professor. Em seu livro Quatrocentos contra um, ele narra o nascimento da Falange Vermelha, embrião do Comando Vermelho. A ideia era simples: “paz, justiça e liberdade” entre os presos — uma forma de autoproteção e organização coletiva diante da violência do sistema penitenciário.
De Falange Vermelha a Comando Vermelho
Segundo um relatório de 1979 do então diretor do presídio, capitão Nelson Bastos Salmon, a Falange Vermelha começou a dominar a cadeia após eliminar grupos rivais. Pouco tempo depois, o nome Comando Vermelho apareceu oficialmente nos registros policiais, já associado a uma força que controlava o crime dentro e fora dos muros.
Em 1980, o preso Zé Bigode e dois comparsas escaparam da ilha em um barco, levando a ideologia do grupo para o continente. O trio enfrentou uma troca de tiros com 400 policiais na Ilha do Governador, episódio que inspirou o filme 400 contra 1, lançado em 2010.
O poder se espalha pelas ruas do Rio
Fora da prisão, o Comando Vermelho começou a se expandir, unindo ladrões, traficantes e fugitivos em torno de uma mesma estrutura de poder. O grupo se espalhou pelas favelas e passou a controlar o tráfico de drogas no Rio de Janeiro.
Um dos nomes mais temidos dessa nova geração foi José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, que em 1985 protagonizou uma fuga cinematográfica de helicóptero da Ilha Grande — então considerada uma prisão de segurança máxima. Escadinha virou símbolo da ousadia do CV e ajudou a consolidar sua fama como a facção mais poderosa do Brasil.
Fim do presídio, mas não da herança
O presídio de Ilha Grande foi desativado em 1994 e demolido logo depois, com 200 quilos de explosivos. Hoje, restam apenas ruínas e memórias — mas a ideologia nascida ali continua viva nas favelas e penitenciárias do país.
O Comando Vermelho, que surgiu de um contexto de injustiça e sobrevivência, transformou-se em uma organização armada transnacional, com ramificações em outros estados e até países vizinhos.
Na mais recente operação, a polícia do Rio apreendeu 91 fuzis, 26 pistolas e mais de uma tonelada de drogas, além de capturar 113 suspeitos, incluindo membros vindos de cinco estados diferentes.
Da utopia à guerra
O que começou como um movimento de solidariedade entre presos, diante da brutalidade do sistema carcerário, se converteu em uma das redes criminosas mais violentas do país. A frase de William da Silva Lima ecoa como um alerta: “O sistema que nos criou é o mesmo que hoje tenta nos destruir.”
Cinquenta anos depois, o legado da Ilha Grande segue como um espelho perturbador do Brasil — um país que nunca conseguiu resolver o abismo entre prisões desumanas e o poder paralelo que delas emerge.
[Fonte: G1 – Globo]