Explorar outros mundos nunca foi uma tarefa simples. Desde a chegada do primeiro rover a Marte, em 1997, a NASA vem aprimorando seus veículos robóticos para enfrentar ambientes hostis, repletos de pedras, crateras, inclinações e terrenos imprevisíveis.
Agora, engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da agência espacial americana acreditam ter desenvolvido um sucessor capaz de elevar esse conceito a outro patamar. O novo protótipo, chamado ERNEST, foi projetado para viajar mais rápido, percorrer distâncias maiores e tomar decisões de forma mais autônoma do que os rovers atuais.
Recentemente, o veículo foi colocado à prova em um ambiente que lembra algumas das paisagens mais desafiadoras do Sistema Solar: o deserto da Califórnia.
Um rover projetado para terrenos extremos
ERNEST é a sigla para Exploration Rover for Navigating Extreme Sloped Terrain, algo como “Rover de Exploração para Navegação em Terrenos com Inclinações Extremas”.
Durante um teste realizado no deserto do Colorado, no sul da Califórnia, o veículo percorreu cerca de 25 quilômetros ao longo de pouco mais de um dia e meio de operação. Ao longo do trajeto, enfrentou obstáculos naturais, desníveis e terrenos acidentados utilizando sistemas avançados de navegação autônoma.
Segundo a NASA, o desempenho foi significativamente superior ao dos rovers atualmente em atividade em Marte.
Durante os testes, o ERNEST atingiu velocidades de até 1 quilômetro por hora. Pode parecer pouco, mas representa cerca de dez vezes a velocidade máxima normalmente utilizada pelos rovers Curiosity e Perseverance durante suas operações no planeta vermelho.
Mais rápido, mais inteligente e mais versátil
Uma das principais diferenças do ERNEST está em seu sistema de mobilidade.
Enquanto os rovers tradicionais utilizam a famosa arquitetura conhecida como rocker-bogie, presente em diversas missões da NASA nas últimas três décadas, o novo veículo incorpora soluções desenvolvidas a partir de anos de pesquisas sobre interação entre rodas e terrenos complexos.
O rover possui quatro rodas direcionais capazes de se mover em qualquer direção, inclusive lateralmente. Além disso, conta com articulações motorizadas na parte frontal que permitem diferentes formas de locomoção.
Dependendo da situação, o veículo pode literalmente se contorcer, caminhar com as rodas ou escalar obstáculos, redistribuindo seu peso para melhorar a tração e a estabilidade.
Essa flexibilidade amplia consideravelmente sua capacidade de atravessar regiões que seriam difíceis ou até impossíveis para os modelos atuais.
Menor que seus antecessores
Apesar de suas capacidades avançadas, o ERNEST é relativamente compacto.
O protótipo possui aproximadamente 1,2 metro de comprimento, tornando-o muito menor do que os rovers Curiosity e Perseverance, que têm dimensões comparáveis às de um SUV.
Antes da construção da versão atual, a equipe do JPL desenvolveu protótipos menores, com cerca de 60 centímetros de comprimento, utilizados para experimentos em ambientes simulando o regolito lunar, a camada de poeira e fragmentos que cobre a superfície da Lua.
Esses testes serviram como base para a evolução do projeto.
Inteligência artificial para explorar sozinho
Além das melhorias mecânicas, o ERNEST recebeu um reforço tecnológico importante: inteligência artificial.
Os engenheiros utilizaram técnicas de aprendizado por reforço, uma área da IA em que os sistemas aprendem por tentativa e erro ao interagir com o ambiente.
Inicialmente, os algoritmos foram treinados em percursos repletos de obstáculos no chamado Mars Yard, uma área do JPL criada para reproduzir condições semelhantes às encontradas em Marte.
O ambiente inclui montes de pedras, dunas, degraus, inclinações e diversos tipos de terreno irregular.
Depois de demonstrar bons resultados, o software foi levado para testes reais no deserto.
Preparando futuras missões à Lua e a Marte
Os pesquisadores acreditam que o ERNEST pode desempenhar um papel importante nas próximas missões de exploração planetária.
Um dos objetivos é permitir que futuros veículos percorram distâncias muito maiores do que as alcançadas atualmente, explorando regiões remotas que permanecem fora do alcance dos rovers convencionais.
Os testes também incluíram operações em condições de pouca luz, simulando os períodos de amanhecer e entardecer na Lua, quando sombras longas dificultam a navegação.
Segundo a equipe do projeto, as informações coletadas estão ajudando a aperfeiçoar tanto o hardware quanto os sistemas autônomos do veículo.
Embora ainda seja um protótipo, a NASA acredita que versões maiores e mais rápidas do ERNEST poderão um dia participar de missões na Lua, em Marte e talvez até em outros mundos do Sistema Solar. Se isso acontecer, os futuros exploradores robóticos poderão viajar mais longe do que nunca — e descobrir lugares que hoje permanecem completamente inacessíveis.