Quando a natureza vira um estúdio fotográfico
Fotografias de anfíbios e répteis costumam transmitir uma sensação de espontaneidade. O animal parece ter escolhido exatamente aquele lugar, assumido aquela posição e permanecido imóvel durante tempo suficiente para que o fotógrafo conseguisse a imagem perfeita.
Em alguns casos, porém, existe muito mais preparação por trás da fotografia.
A prática começa com a captura temporária do animal. Em seguida, sua temperatura é reduzida para diminuir sua atividade e seus movimentos. O animal pode então ser levado para outro local, escolhido especialmente para a sessão, onde o fotógrafo ajusta cenário, iluminação, enquadramento e posição.
Isso é possível por causa de uma característica biológica desses animais. Anfíbios e répteis são ectotérmicos, o que significa que sua temperatura corporal e boa parte de sua atividade dependem das condições ambientais.
Quando a temperatura cai, seus movimentos podem ficar mais lentos. Para quem está atrás da câmera, isso pode parecer uma oportunidade perfeita: o animal permanece parado e se torna muito mais fácil de posicionar.
Mas a imobilidade tem um custo.
Um estudo publicado na revista Animal Conservation alerta que a refrigeração pode interferir na função neuromuscular, atrasar a recuperação dos movimentos e afetar o equilíbrio fisiológico dos animais.
Depois da sessão, o problema pode continuar. Um animal debilitado pode ter mais dificuldade para regular a própria temperatura, procurar abrigo ou escapar de um predador.
E existe ainda outra questão: a fotografia pode apresentar como natural uma cena que, na realidade, jamais aconteceria daquela maneira.
O problema pode começar antes mesmo da câmera aparecer
A manipulação dos animais não necessariamente começa com a refrigeração. Para encontrar determinadas espécies, algumas pessoas podem remover pedras, troncos, folhas e outros elementos utilizados como abrigo.
Esses objetos não são apenas parte bonita do cenário. Eles podem oferecer aos animais condições importantes de umidade e temperatura. Retirá-los para capturar um exemplar pode alterar o ambiente e até diminuir a possibilidade de que ele volte a utilizar aquele esconderijo.
Durante sessões noturnas, existe outro fator preocupante: a iluminação.
Flashes, lanternas e focos intensos podem interferir na atividade, na orientação e nos ritmos naturais de algumas espécies. Uma fotografia que parece simples para quem observa a imagem pronta pode ter envolvido uma série de intervenções antes do clique.
Há ainda um risco muito menos visível: a transmissão de doenças.
Mãos, recipientes, calçados e equipamentos podem transportar agentes infecciosos de um animal para outro ou entre diferentes populações quando não são corretamente higienizados.
Entre as doenças citadas estão a quitridiomicose, causada por fungos associados ao declínio de populações de anfíbios em diferentes regiões, e a ofidiomicose, que afeta serpentes.
Em trabalhos científicos nos quais a manipulação é necessária, protocolos de biossegurança são utilizados justamente para reduzir esse tipo de risco. Isso inclui medidas como o uso adequado de luvas e sua troca entre diferentes animais ou populações.
Uma sessão improvisada para produzir uma fotografia chamativa para as redes sociais dificilmente oferece o mesmo nível de controle.
Na Espanha, a fotografia também pode esbarrar na lei
A questão não envolve apenas ética e bem-estar animal. Na Espanha, determinadas formas de captura e perturbação de animais silvestres também podem ter consequências legais.
O artigo 54 da Lei do Patrimônio Natural e da Biodiversidade proíbe, entre outras ações, ferir, incomodar, perturbar, manter ou capturar intencionalmente animais silvestres, exceto nas situações e condições autorizadas pela legislação.
A proteção é ainda mais rigorosa para determinadas espécies. A Diretiva Habitats da União Europeia estabelece medidas específicas de proteção e restringe a captura e a perturbação deliberadas, especialmente durante períodos sensíveis, como reprodução e hibernação.
Isso cria uma fronteira importante para quem fotografa animais na natureza.
A fotografia de vida selvagem pode ser uma ferramenta poderosa para despertar interesse pela biodiversidade, divulgar espécies pouco conhecidas e incentivar sua conservação. O problema começa quando, para obter uma imagem perfeita, o animal precisa ser capturado, resfriado ou colocado em um cenário artificial.
Nesse momento, a câmera deixa de apenas registrar a natureza.
Ela passa a fabricar uma cena.
E embora a imagem final possa parecer absolutamente perfeita, existe uma pergunta que vale fazer antes de compartilhá-la: o que aconteceu com aquele animal antes de a câmera ser acionada?