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Ciência

Este planeta desafia a principal técnica usada para encontrar mundos fora do Sistema Solar

Um mundo maior que a Terra completa sua órbita em apenas algumas horas e desafia uma das formas mais conhecidas de encontrar planetas fora do Sistema Solar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Encontrar um planeta fora do Sistema Solar normalmente exige que ele passe exatamente na frente de sua estrela. Mas existe uma dificuldade: nem todos os mundos têm a órbita alinhada com a nossa linha de visão. Um novo candidato mostrou que há outras maneiras de descobrir esses objetos. Ele não produziu um eclipse perceptível. Em vez disso, deixou uma assinatura extremamente sutil em seu sistema, permitindo que os astrônomos reconstruíssem uma história bastante incomum.

O planeta que não precisava passar na frente da estrela

A maioria dos exoplanetas conhecidos é identificada pelo chamado método do trânsito. Quando um planeta cruza diante de sua estrela, bloqueia uma pequena quantidade de luz e provoca uma queda periódica no brilho. Telescópios como Kepler e TESS foram construídos, em grande parte, para encontrar essas variações.

O candidato localizado no sistema KIC 9139163, porém, não segue essa configuração. Sua órbita está inclinada em relação à nossa perspectiva e, por isso, o planeta não passa diretamente diante do disco da estrela.

Mesmo assim, havia algo estranho nos dados. A cada aproximadamente 0,6 dia, ou cerca de 14 horas, o brilho do sistema apresentava uma pequena alteração que se repetia de maneira consistente.

A equipe internacional liderada por Sylvain N. Breton, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, investigou essa oscilação e encontrou uma explicação que transforma o caso em um exemplo interessante de como os exoplanetas podem ser descobertos sem produzir um trânsito.

O estudo foi aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics, embora os pesquisadores ainda tratem o objeto como candidato até que novas observações confirmem suas características.

A pista estava no lado iluminado

A chave para entender o fenômeno está na própria aparência do planeta. Conforme ele percorre sua órbita, diferentes partes de seu hemisfério iluminado ficam voltadas para nós.

Em determinados momentos, observamos principalmente o lado aquecido pela estrela. Em outros, uma parcela maior de seu lado noturno. Essa mudança produz pequenas variações no brilho total do sistema, conhecidas como curva de fase.

É algo semelhante às fases de Vênus vistas da Terra, mas em uma escala muito mais difícil de detectar. O telescópio não consegue separar visualmente a estrela e o planeta: precisa identificar a minúscula alteração na luz combinada dos dois.

Para fortalecer a hipótese, os astrônomos combinaram dados históricos do Kepler com observações do TESS. Depois, utilizaram o espectrógrafo HARPS-N, instalado no Telescopio Nazionale Galileo, em La Palma, para procurar outro efeito: o pequeno movimento que a gravidade do planeta provoca na estrela.

Os dados de velocidade radial indicaram uma massa mínima de aproximadamente 7,3 vezes a da Terra. Considerando a inclinação estimada da órbita, os modelos apontam para cerca de 8,4 massas terrestres e um raio aproximadamente 2,43 vezes maior que o nosso planeta.

Um mundo quente em uma região quase vazia

Essas características colocam o objeto em uma categoria intermediária entre as super-Terras e os sub-Netunos. Sua densidade estimada seria de apenas cerca de 59% da densidade terrestre, o que torna improvável uma composição formada apenas por rocha e ferro.

Uma possibilidade apresentada pelos pesquisadores é que uma parcela significativa de sua composição seja formada por água, podendo chegar a aproximadamente metade da massa do planeta. Por isso, ele pode ser descrito como um possível “mundo de água quente”.

Mas isso não significa que exista um oceano fervente semelhante aos da Terra. A proximidade extrema da estrela faria com que a água pudesse assumir formas muito diferentes, incluindo vapor, fluido supercrítico ou camadas submetidas a pressões gigantescas.

O planeta também está localizado no chamado deserto neptuniano, uma região muito próxima das estrelas onde mundos semelhantes a Netuno são relativamente raros. A intensa radiação pode retirar gradualmente suas atmosferas de hidrogênio e hélio.

E há ainda outro detalhe intrigante. Comparações entre observações do Kepler e do TESS, separadas por cerca de seis anos, indicaram mudanças na curva de fase. A explicação sugerida envolve uma atmosfera dinâmica, com nuvens refletivas que podem se formar ou se deslocar.

Por enquanto, essa interpretação permanece provisória. Mas o caso demonstra algo importante: alguns mundos podem permanecer invisíveis aos métodos tradicionais simplesmente porque sua órbita não está alinhada com a Terra.

Neste caso, foi o brilho de sua face extremamente aquecida, combinado com o movimento gravitacional provocado na estrela, que entregou sua presença. E, por estar tão próximo dela, o futuro desse planeta pode ser tão extremo quanto sua descoberta: sua órbita está evoluindo e, em uma escala de tempo astronômica, ele pode acabar sendo engolido pela própria estrela.

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