Desde que assumiu o trono de São Pedro, León XIV despertou atenção mundial com sua postura próxima e acolhedora. Mas sua vocação não nasceu nos corredores do Vaticano. Foi moldada em bairros pobres do norte do Peru, onde viveu como missionário, líder comunitário e defensor incansável dos esquecidos. Um passado marcado por ação concreta e empatia que começa, enfim, a ganhar visibilidade.
Um bispo de sandálias e mãos calejadas

Quando chegou a Chiclayo, em 2014, como novo bispo da região, Paul Richard Gallagher — hoje León XIV — rompeu com o estilo clerical tradicional. Rejeitou motoristas e palácios, preferindo caminhar sozinho por bairros humildes, dormir em paróquias precárias e partilhar refeições com os moradores.
Nas comunidades de José Leonardo Ortiz e outras zonas periféricas, ficou conhecido como “o bispo das sandálias”, símbolo de sua simplicidade e presença constante nas ruas. “Ele conhecia cada pessoa pelo nome, lembrava dos problemas de cada família”, conta Carmen Silva, catequista local. Não era raro vê-lo com uma enxada nas mãos, ajudando em reformas, distribuindo alimentos ou organizando mutirões.
Presença ativa em tempos de crise
León XIV não apenas pregava, mas agia. Durante o devastador fenômeno de El Niño, entre 2016 e 2017, quando enchentes atingiram boa parte da costa peruana, ele foi um dos primeiros a mobilizar ajuda. Enquanto autoridades ainda discutiam medidas, ele já coordenava doações e percorria áreas alagadas com botas, capacete e a batina levantada.
Sua imagem, sujo de barro e cercado por voluntários, virou símbolo de solidariedade e comprometimento. Essa atuação direta em zonas de risco fortaleceu laços com a população e consolidou sua reputação de líder próximo e confiável.
Um pastor na linha de frente da pandemia

Quando a pandemia da Covid-19 chegou ao Peru, León XIV não se escondeu. Organizou redes de apoio, distribuiu cestas básicas e criou espaços de acolhimento para doentes e famílias em luto. Sob sua liderança, igrejas se transformaram em centros logísticos e espirituais, oferecendo ajuda concreta e conforto em meio à tragédia.
Mesmo já nomeado para Roma, continuou acompanhando a situação à distância, incentivando comunidades a não desistirem. Para muitos, sua atuação durante esses anos críticos foi determinante para que seu nome ganhasse força dentro da Igreja.
Um legado que Chiclayo não esquece
Hoje, a cidade de Chiclayo guarda com carinho a memória daquele bispo que caminhava descalço, comungava com os mais pobres e enfrentava emergências de frente. Placas, murais e testemunhos espontâneos mantêm viva sua passagem pela região.
Embora agora ocupe o cargo máximo da Igreja Católica, muitos em Chiclayo ainda o chamam pelo nome: “Dom Richard”. E fazem questão de lembrar que o novo Papa, antes de tudo, foi um deles.