Quando um astronauta sofre uma lesão durante uma missão espacial, a distância até qualquer atendimento médico transforma um problema simples em um grande desafio. Em futuras viagens à Lua e, principalmente, a Marte, a tripulação precisará resolver emergências praticamente sozinha. Foi pensando nesse cenário que pesquisadores decidiram testar uma solução aparentemente comum na Terra, mas que jamais havia sido utilizada dessa forma em órbita.
Um experimento que pode mudar o atendimento médico nas futuras missões espaciais
A exploração espacial exige tecnologias capazes de funcionar em condições extremas, especialmente quando o assunto é saúde. Até hoje, o ultrassom era considerado o principal recurso para examinar o corpo de astronautas durante as missões. Embora seja bastante útil, ele possui limitações importantes para identificar fraturas ósseas e algumas alterações internas.
Foi justamente para preencher essa lacuna que uma equipe de pesquisadores desenvolveu um experimento utilizando um equipamento portátil de raios X adaptado para operar no espaço. O teste aconteceu durante a missão privada Fram2, que realizou uma inédita órbita polar ao redor da Terra a bordo de uma cápsula Crew Dragon.
O aspecto mais surpreendente da experiência não foi apenas o funcionamento do equipamento, mas quem o utilizou. Nenhum integrante da missão era médico ou radiologista. Antes da decolagem, os astronautas receberam apenas cerca de quatro horas de treinamento para aprender a posicionar o aparelho, operar o detector e realizar os exames.
O sistema utilizado, conhecido como SpaceXray, não foi criado do zero. Ele foi montado a partir de componentes digitais já utilizados em hospitais, adaptados para suportar lançamento, microgravidade, reentrada na atmosfera e pouso no mar.
Durante a missão, três tripulantes aceitaram participar do estudo, embora o tempo disponível permitisse realizar exames completos em apenas dois deles. Foram produzidas radiografias da mão, antebraço, tórax, abdômen e pelve, além de imagens de um relógio inteligente e de um equipamento eletrônico para verificar se a tecnologia também poderia ser usada na inspeção de objetos.
A primeira radiografia feita da mão trouxe ainda uma curiosa homenagem histórica. Em 1895, Wilhelm Röntgen realizou uma das primeiras imagens radiográficas da história fotografando a mão de sua esposa usando um anel. Cerca de 130 anos depois, a composição foi repetida, mas desta vez enquanto a nave orbitava o planeta.
As imagens funcionaram, mas a ausência da gravidade trouxe novos desafios
Após o retorno da missão, todas as imagens obtidas em órbita foram comparadas com exames realizados antes da viagem. Três radiologistas independentes analisaram qualidade, contraste, resolução e posicionamento sem saber quais radiografias haviam sido produzidas no espaço.
O resultado foi bastante positivo. Todas receberam qualidade suficiente para permitir um diagnóstico médico, mesmo apresentando pequenas diferenças em relação aos exames realizados na Terra.
O principal desafio apareceu justamente onde poucos imaginavam: posicionar corretamente o paciente e os equipamentos. Na ausência de gravidade, tanto os astronautas quanto o aparelho tendiam a flutuar constantemente dentro da cápsula.
Para conseguir estabilizar o sistema, a tripulação precisou improvisar utilizando tiras de velcro, apoio nas paredes da nave e sustentação manual de alguns componentes. Após a missão, os astronautas sugeriram que futuras versões recebam suportes fixos e pontos de ancoragem específicos para facilitar os exames.
Outro aspecto importante foi a segurança. Como astronautas já ficam expostos a níveis elevados de radiação durante as missões, os pesquisadores monitoraram cuidadosamente a dose adicional produzida pelos raios X. Os valores registrados permaneceram dentro da faixa considerada comum em procedimentos médicos realizados na Terra, enquanto a exposição indireta dos demais tripulantes foi mínima.
Além do uso médico, o equipamento revelou outra aplicação promissora. A radiografia realizada em um relógio inteligente conseguiu mostrar componentes internos extremamente pequenos, indicando que a tecnologia poderá futuramente ser utilizada para inspecionar trajes espaciais, equipamentos eletrônicos e peças estruturais sem necessidade de desmontagem.
Embora ainda sejam necessários novos testes — principalmente para situações envolvendo astronautas feridos ou inconscientes —, a experiência mostrou que exames radiográficos podem fazer parte das futuras missões à Lua e, posteriormente, a Marte.
Os pesquisadores acreditam que os avanços obtidos também poderão beneficiar regiões remotas da Terra, áreas atingidas por desastres naturais e equipes de resgate que precisam realizar diagnósticos rápidos longe de hospitais. Mais uma vez, uma tecnologia criada para a exploração espacial demonstra potencial para melhorar a medicina muito além das fronteiras do espaço.