Enquanto a maior parte dos oceanos registrava temperaturas cada vez mais altas devido ao aquecimento global, uma área ao redor da Antártida parecia seguir o caminho contrário. Esse comportamento intrigou pesquisadores durante décadas e deu origem a diversas hipóteses. Um novo estudo oferece uma explicação surpreendente ao mostrar que uma alteração ocorrida muito acima da superfície terrestre desencadeou uma reação em cadeia capaz de modificar correntes oceânicas e mascarar temporariamente os efeitos do aquecimento na região.
Como uma mudança na atmosfera conseguiu transformar o oceano
Durante muitos anos, o oceano Austral foi considerado uma das maiores exceções dentro das previsões climáticas. Enquanto os gases de efeito estufa elevavam continuamente a temperatura média dos mares, áreas próximas à Antártida apresentavam resfriamento superficial e, em alguns pontos, até expansão do gelo marinho.
Agora, pesquisadores identificaram um mecanismo capaz de explicar boa parte desse fenômeno. Segundo o estudo, a redução da camada de ozônio sobre a Antártida alterou profundamente o comportamento dos ventos que circundam o continente, desencadeando mudanças que chegaram até as águas do oceano.
É importante destacar que o chamado buraco na camada de ozônio foi provocado principalmente pela emissão de compostos artificiais, como os CFCs, que liberam cloro e bromo na estratosfera. Esses elementos aceleram a destruição do ozônio, especialmente nas condições atmosféricas extremas da Antártida.
Com menos ozônio disponível para absorver a radiação ultravioleta, a estratosfera sobre o continente esfriou. Essa mudança alterou o contraste de temperatura entre as regiões polares e as latitudes mais baixas, fortalecendo os ventos de oeste que circulam ao redor da Antártida.
Embora a alteração pareça pequena, ela foi suficiente para modificar o comportamento do oceano Austral. Os ventos mais intensos empurraram grandes volumes de água superficial fria para o norte por meio do chamado transporte de Ekman, um processo físico que desvia o movimento da água devido à rotação da Terra.
Como consequência, enormes quantidades de água fria deixaram as proximidades da Antártida e avançaram para latitudes mais elevadas, criando um resfriamento temporário justamente em uma região onde os cientistas esperavam encontrar aquecimento.

O resfriamento escondia uma realidade muito mais complexa
Esse transporte de água fria ajudou a explicar por que parte do oceano Austral parecia escapar do aquecimento global entre 1982 e 2005. No entanto, isso não significava que a energia responsável pelo aquecimento tivesse desaparecido.
Na realidade, o calor apenas estava sendo redistribuído dentro do sistema climático. Enquanto a superfície esfriava em determinadas áreas, processos mais lentos aconteciam nas camadas inferiores do oceano.
Os mesmos ventos que deslocavam água fria também favoreciam o afloramento de águas profundas. Em diversas regiões do oceano Austral, essas águas localizadas abaixo da superfície são relativamente mais quentes. Quando sobem, tendem a compensar parte do resfriamento inicial.
Segundo os pesquisadores, esse aquecimento mais lento não conseguiu anular completamente o efeito provocado pelo transporte horizontal da água fria durante o período analisado. Por isso, a assinatura do resfriamento permaneceu visível durante mais de duas décadas.
Esse comportamento também ajuda a compreender outro fenômeno que durante anos gerou debates: a expansão do gelo marinho em algumas áreas da Antártida, como o Mar de Ross. O novo estudo indica que o resfriamento superficial favoreceu condições para a formação e manutenção do gelo, sem contradizer a tendência global de aquecimento.
Os autores ressaltam que isso não significa que o buraco na camada de ozônio tenha sido benéfico para o planeta. O fenômeno apenas mascarou temporariamente os efeitos do aquecimento em uma região específica, enquanto o restante do sistema climático continuava acumulando energia.
Hoje, graças ao Protocolo de Montreal, a camada de ozônio apresenta sinais consistentes de recuperação. As projeções indicam que ela poderá retornar aos níveis observados em 1980 por volta de 2040 em grande parte do planeta, enquanto sobre a Antártida esse processo deve se estender até aproximadamente 2066.
À medida que essa recuperação avança, a influência do ozônio sobre os ventos também tende a diminuir. Isso pode fazer com que o efeito de resfriamento observado nas últimas décadas desapareça gradualmente, permitindo que o aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa se manifeste de forma mais evidente no oceano Austral.
Mais do que resolver um antigo mistério climático, o estudo mostra como alterações aparentemente distantes podem desencadear consequências inesperadas. Uma mudança ocorrida na alta atmosfera foi capaz de reorganizar ventos, deslocar correntes oceânicas e influenciar a temperatura de uma das regiões mais importantes do planeta por décadas.