Para muita gente, a soneca depois do almoço é um pequeno luxo. Para outras, faz parte da rotina desde a infância. Embora seja frequentemente associada a alguns países, especialmente os de clima mais quente, pesquisadores descobriram que esse costume pode ter origens muito mais profundas do que uma simples tradição cultural. O que acontece no organismo durante esse breve descanso ajuda a entender por que tantas pessoas sentem sono justamente no meio da tarde.
A soneca não é exclusividade de um país e sua origem é muito mais antiga
A ideia de que a soneca da tarde é um costume exclusivamente espanhol está longe da realidade. Embora a imagem tenha se popularizado ao longo das décadas, pesquisas mostram que apenas uma parcela dos espanhóis mantém esse hábito diariamente. Um levantamento realizado em 2011 pela Fundação de Educação para a Saúde do Hospital Clínico San Carlos, em parceria com a Associação Espanhola da Cama, indicou que menos da metade da população faz soneca ocasionalmente e que menos de 20% dormem todos os dias após o almoço.
Na prática, o costume também é bastante comum em outras regiões com clima semelhante, incluindo diversos países do sul da Europa, do norte da África, do Oriente Médio, da Índia, da China e até de ilhas do Pacífico, como Samoa.
O hábito, aliás, é muito mais antigo do que se imagina. Registros históricos indicam que os romanos já reservavam um período para descansar no meio do dia. Escritores como Plínio, o Jovem, e Suetônio mencionavam esse momento de repouso, conhecido como meridiatio.
Séculos depois, no século XI, São Bento incorporou oficialmente esse intervalo à rotina monástica após a chamada “hora sexta”. É justamente dessa referência ao sexto horário do dia que surgiu a palavra “sesta”, posteriormente adaptada para “siesta” em espanhol e “sesta” ou “soneca” em diferentes idiomas.
Mas a permanência desse costume ao longo da história talvez tenha menos relação com tradição e muito mais com o funcionamento natural do organismo humano.
O relógio biológico cria uma janela natural de sonolência

Ao longo do dia, nosso corpo acumula gradualmente uma necessidade crescente de descanso. Esse processo é conhecido pela ciência como pressão do sono e aumenta continuamente até o período noturno.
No entanto, esse crescimento não acontece de maneira uniforme. Entre aproximadamente 14h e 16h, muitas pessoas experimentam uma queda temporária na disposição, mesmo quando tiveram uma boa noite de sono. Pouco tempo depois, os níveis de alerta voltam a subir naturalmente.
A alimentação desempenha um papel importante nesse fenômeno. Depois das refeições, principalmente quando são mais pesadas, o organismo direciona parte de sua energia para a digestão. Esse processo favorece o surgimento da chamada sonolência pós-prandial, reduzindo momentaneamente o estado de alerta.
Mas a comida explica apenas parte da história.
Pesquisas sugerem que também existe um componente biológico ligado ao relógio interno do organismo. Além do conhecido ciclo circadiano de aproximadamente 24 horas, responsável por regular o sono durante a noite, cientistas acreditam que existam mecanismos internos capazes de provocar pequenas oscilações na disposição ao longo do dia.
Um estudo publicado em 2021 na revista Nature Communications reforçou essa hipótese ao identificar 123 regiões do genoma relacionadas à tendência de fazer sonecas durante o dia. Essas áreas também apresentam ligação com os ritmos circadianos, o estado de vigília e até fatores associados à obesidade.
Os pesquisadores observaram, porém, que essa predisposição genética varia bastante entre as pessoas. Dependendo da combinação dos genes envolvidos, algumas tendem naturalmente a sentir sono após o almoço, enquanto outras praticamente não experimentam essa necessidade.
Dormir alguns minutos pode melhorar memória e concentração
Nos últimos anos, diversos estudos passaram a investigar os possíveis benefícios cognitivos da soneca. Um trabalho publicado em 2025 na revista npj Science of Learning mostrou que descansar por um curto período antes de atividades de estudo pode favorecer o aprendizado e melhorar a consolidação das memórias.
Segundo os pesquisadores, o benefício não está relacionado apenas ao alívio do cansaço acumulado. Durante esse breve período de descanso, o cérebro também reorganiza informações recém-adquiridas, facilitando sua retenção posteriormente.
Entretanto, existe um detalhe importante: a duração da soneca.
Especialistas recomendam que esse descanso não ultrapasse cerca de 30 minutos. Após esse período, aumenta a probabilidade de entrar nas fases mais profundas do sono. Quando isso acontece, despertar costuma ser mais difícil e pode provocar aquela sensação de desorientação, lentidão mental e irritação conhecida como inércia do sono.
Por isso, embora a soneca possa representar uma excelente estratégia para recuperar energia e aumentar a produtividade durante a tarde, seus efeitos variam de pessoa para pessoa.
No fim das contas, esse hábito parece resultar da combinação de diversos fatores: a pressão natural do sono, a digestão após as refeições, características genéticas, os ritmos biológicos internos e até aspectos culturais construídos ao longo de séculos. Para quem realmente sente sonolência nesse horário, alguns minutos de descanso podem oferecer ganhos importantes de atenção, memória e desempenho. Mas isso não significa que todos precisem dormir depois do almoço. Se o organismo não demonstra essa necessidade, dificilmente haverá benefícios relevantes em forçar uma soneca.
[Fonte: La Razón]