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Ciência

Ozempic e medicamentos para emagrecer podem ter um efeito inesperado: melhorar a fertilidade masculina em homens com obesidade

Medicamentos como Ozempic revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes, mas seus benefícios podem ir além da perda de peso. Uma nova revisão científica sugere que esses fármacos também podem melhorar os níveis de testosterona e a qualidade do sêmen em homens obesos, levantando novas possibilidades para a saúde reprodutiva masculina.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, conhecidos principalmente por seu papel no emagrecimento, vêm acumulando uma lista cada vez maior de possíveis benefícios à saúde. Agora, uma nova análise apresentada durante o congresso anual da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos (ENDO 2026) indica que esses tratamentos podem também contribuir para melhorar a fertilidade masculina em determinados pacientes.

Os resultados ainda são preliminares e exigem confirmação em estudos maiores, mas apontam para um efeito positivo sobre os níveis hormonais e alguns parâmetros seminais em homens com obesidade e hipogonadismo funcional, uma condição frequentemente associada ao excesso de peso.

A relação entre obesidade e fertilidade masculina

Fertilidade Infinita1
© Teruhiko Wakayama – University of Yamanashi

A obesidade não afeta apenas o metabolismo e o sistema cardiovascular. Diversos estudos já demonstraram que o excesso de gordura corporal pode interferir no equilíbrio hormonal masculino.

Uma das consequências mais comuns é o hipogonadismo funcional, quadro caracterizado pela redução da produção de testosterona. Essa alteração pode provocar diminuição da libido, disfunção erétil, fadiga persistente, perda de massa muscular e dificuldades relacionadas à fertilidade.

Além disso, o excesso de peso pode comprometer a qualidade do sêmen, reduzindo as chances de concepção.

Diante desse cenário, pesquisadores da Escola de Medicina de Warwick e dos Hospitais Universitários de Coventry e Warwickshire, no Reino Unido, decidiram investigar se os medicamentos GLP-1 poderiam ajudar a reverter parte desses problemas.

O que os pesquisadores analisaram

A equipe realizou uma revisão sistemática da literatura científica disponível nas bases PubMed e Cochrane Library.

O objetivo foi reunir ensaios clínicos randomizados que comparassem homens tratados com agonistas do receptor GLP-1 — como semaglutida, liraglutida e dulaglutida — com grupos de controle.

Os pesquisadores avaliaram diversos indicadores relacionados à saúde reprodutiva masculina, incluindo testosterona total, hormônio luteinizante (LH), hormônio folículo-estimulante (FSH), globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) e qualidade do sêmen.

Também foram analisados fatores metabólicos como peso corporal, índice de massa corporal (IMC), níveis de glicose e colesterol.

Apesar do crescente interesse pelo tema, apenas cinco estudos preencheram todos os critérios científicos estabelecidos pelos autores.

Nem todos os homens apresentaram benefícios

Os resultados mostraram um cenário interessante.

Três dos estudos incluídos avaliaram homens saudáveis. Nesses casos, os medicamentos GLP-1 não provocaram alterações significativas nos níveis hormonais nem na qualidade do sêmen.

Isso sugere que os benefícios observados podem não ocorrer em indivíduos sem alterações metabólicas ou hormonais prévias.

O cenário mudou quando os pesquisadores analisaram estudos envolvendo homens com obesidade e hipogonadismo funcional.

Nesses pacientes, os resultados foram consideravelmente mais promissores.

Aumento da testosterona e melhora dos parâmetros reprodutivos

Um dos ensaios avaliou 30 homens com excesso de peso e baixos níveis de testosterona.

Os participantes foram divididos aleatoriamente entre dois tratamentos: liraglutida ou terapia de reposição de testosterona, conhecida pela sigla TRT.

Após 16 semanas, o grupo tratado com liraglutida apresentou aumento nos níveis de testosterona total, além de elevação dos hormônios LH e FSH. Segundo os pesquisadores, esses pacientes também demonstraram melhora em indicadores gerais de saúde quando comparados ao grupo que recebeu apenas reposição hormonal.

Outro estudo acompanhou 25 homens com diabetes tipo 2 e hipogonadismo funcional.

Os participantes receberam semaglutida ou terapia de reposição de testosterona durante 24 semanas. Embora a TRT tenha produzido um aumento ligeiramente maior nos níveis de testosterona, os pacientes tratados com semaglutida apresentaram uma melhora mais significativa em alguns parâmetros da qualidade seminal.

O dado que mais chamou atenção foi a evolução da morfologia dos espermatozoides. A proporção de células com formato considerado normal passou de 2% para 4% ao final do tratamento.

Embora o número pareça pequeno, especialistas destacam que mudanças nessa área podem representar avanços importantes na fertilidade masculina.

A perda de peso pode ser a principal explicação

Ozempic
© Steve Christo/Corbis via Getty- Gizmodo

Segundo os autores, o efeito positivo dos medicamentos provavelmente está relacionado à perda de peso e às melhorias metabólicas associadas ao tratamento.

Ao reduzir o excesso de gordura corporal, ocorre uma diminuição da inflamação sistêmica e uma recuperação gradual do equilíbrio hormonal, fatores que podem favorecer tanto a produção de testosterona quanto a qualidade do sêmen.

Ainda não está claro se os medicamentos exercem algum efeito direto sobre os órgãos reprodutivos masculinos ou se os benefícios são consequência indireta da melhora metabólica.

Resultados promissores, mas ainda preliminares

Apesar do entusiasmo gerado pelos dados, os próprios pesquisadores recomendam cautela.

O número de estudos disponíveis ainda é pequeno, e as pesquisas analisadas utilizaram medicamentos diferentes, doses distintas e períodos variados de acompanhamento. Além disso, o total de participantes foi relativamente reduzido.

Por isso, os autores defendem a realização de ensaios clínicos maiores e especificamente desenhados para investigar os efeitos dos agonistas do receptor GLP-1 sobre a fertilidade masculina.

Ainda é cedo para afirmar que medicamentos como Ozempic possam ser utilizados como tratamento para problemas reprodutivos. No entanto, os resultados sugerem que a revolução provocada por esses remédios pode estar apenas começando — e seus benefícios talvez se estendam muito além da balança.

 

[ Fonte: Wired ]

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